Cultura

Os últimos dias de Napoleão

França celebra em breve o bicentenário da morte do seu filho mais célebre. Napoleão Bonaparte deixa um legado controverso.


Na última página de um livro de exercícios da escola, depois de uma longa lista dos territórios pertencentes ao Império Britânico, o jovem Napoleão Bonaparte escreveu estas palavras: «Santa Helena – pequena ilha».

Por uma bizarra coincidência, seria nesse lugar recôndito que o célebre estadista terminaria os seus dias. Perdida no Atlântico, Santa Helena era uma ilha escarpada, a mais de 2000 quilómetros da costa africana e a mais de 3500 quilómetros da costa brasileira, com um clima opressivo e insalubre. Os ingleses, que haviam capturado o antigo imperador a 15 de julho de 1815 em Rochefort, depois de a derrota francesa na batalha de Waterloo (Bélgica) o ter posto em fuga, não se comoveram com os protestos. E foi na «pequena ilha» que o 'petit caporal', despojado dos títulos e do poder, passou os seis últimos anos de vida.

A doença e a depressão vinham-no corroendo lentamente. Em meados de fevereiro de 1821, como escreveu o seu biógrafo Robert Asprey, «estava muito doente, sofrendo com dores no baço e nos rins». Por essa altura, confidenciava ao leal Conde Bertrand (o seu ajudante de campo, que o acompanhou no exílio, e que tinha participado na campanha do Egipto na épica batalha de Austerlitz) que barbear-se fora «como cumprir um dos trabalhos de Hércules». Já tinha deixado de dar os seus passeios. De então em diante, deixou crescer a barba.

«O fim chegou no início de maio. Tinha estado confinado ao quarto durante alguns dias, subsistindo sobretudo a araruta e genciana, ocasionalmente bebericando um pouco de água com sumo de fruta ou uma colher de sopa de vinho diluído em água, dormitando com frequência […]. Comia ocasionalmente. Uma noite tomou uma sopa, um ovo e uma colher de vinho», continua Asprey nas páginas finais do segundo volume da biografia The Rise and Fall of Napoleon Bonaparte. Foi a sua última refeição. Um dia, o seu médico inglês, Archibald Arnott, ouviu-o proferir estas palavras: «Sei que não tenho nenhum sintoma da morte, mas estou tão fraco que não seria preciso uma bala de canhão para me matar; um grão de areia bastaria».

Sentindo o fim a aproximar-se, fez um testamento em que deixou muito mais dinheiro do que possuía e propriedades que já não lhe pertenciam. Não surpreende: no apogeu, a Casa Imperial de Napoleão detinha 39 palácios, o seu tesouro pessoal incluía 54.514 pedras preciosas e a sua comitiva, quando viajava, era composta por 60 carruagens.

Seguiu-se o declínio. «Os vómitos violentos continuaram, a sua mente começou a vaguear, evocando fantasmas do passado, praticamente deixou de ter apetite, repetia perguntas a que já lhe tinham respondido, a audição deteriorou-se abruptamente», descreveu Asprey. 

Até que, na manhã de 5 de maio, depois de uma noite de vómitos, o outrora tão idolatrado quanto abominado Napoleão Bonaparte balbuciou algumas palavras que ninguém percebeu e perdeu a consciência, vindo a morrer nessa noite. Se a identificação de arsénico no seu cabelo levou alguns historiadores a apontarem para a hipótese de envenenamento (que poderia ter sido provocado pela preferência pelo papel de parede verde, que continha essa substância tóxica), a causa de morte provável foi cancro no estômago. Uma tentativa de suicídio, por ingestão de veneno em 1811, nas vésperas de cumprir exílio na ilha de Elba, também não terá ajudado.

O culto do cadáver
«A quantidade de recordações [memorabilia] aumentou drasticamente depois da morte do Imperador», escreveu Fiona Parr em ‘The Death of Napoleon Bonapart and the retour des cendres: French and British Perspectives’. Tanto em França como em Santa Helena, «os admiradores de Napoleão estavam ansiosos por colecionar qualquer coisa que lhe pudesse ser associada. Não foram apenas os seus oficiais, familiares e amigos que colecionaram estas lembranças, mas também membros do público geral. A população percebeu que a morte do imperador foi um acontecimento solene», prossegue Parr. Tal e qual como os santos medievais, cujos cadáveres eram roubados, despedaçados, traficados, com mãos, unhas, pedaços de ossos ou mesmo objetos que lhes tivessem pertencido ou em que tivessem simplesmente tocado a serem levados para igrejas nos quatro cantos da Cristandade, onde se esperava que operassem milagres, também o cadáver de Napoleão se tornou objeto de culto.

De modo adequado, o quarto onde se finou foi transformado numa capela, «o cadáver foi lavado e barbeado, aspergido com água de lavanda e estendido numa cama de campanha coberta com um lençol, uma cruz de prata que lhe tinha sido dada pela mãe sobre o peito, velas acesas de cada um dos lados da cama», descreve Asprey. E, na manhã seguinte, houve quem testemunhasse uma espécie de milagre: o seu rosto pálido, magro e envelhecido parecia por momentos ter rejuvenescido.

Dezassete pessoas assistiram à autópsia, liderada pelo médico italiano Francesco Antommarchi. «Seguindo as instruções deixadas por Napoleão, Antommarchi retirou o coração e colocou-o numa vasilha de prata para ser entregue à Imperatriz Maria Luísa. Também retirou o estômago, que foi colocado num recipiente para vinho. Posteriormente foi acusado de cortar também o pénis (para vender mais tarde)» – o que não deve ter passado de um boato. Como se não bastasse, até os cabelos foram rapados para deles se fazer um tecido destinado a uma bracelete de relógio para o filho de Napoleão.

Destruição e civilização
O tratamento dado ao cadáver do antigo imperador assemelhava-se em tudo ao de um santo. Mas Napoleão não foi santo nenhum. Estimativas atuais apontam para que as guerras napoleónicas tenham provocado cerca de cinco milhões de mortos, para não falar da destruição a uma escala que a Europa nunca tinha visto.

Nascido em 1769 na Córsega, que poucos anos antes tinha passado para a administração francesa, numa família da pequena nobreza italiana (o seu nome de baptismo era Napoleone di Buonaparte), foi para França continental aos nove anos, tendo estudado na academia militar de Brienne e na Escola Militar de Paris, onde se distinguiu pelos seus dotes matemáticos e pela memória infalível.

Começou a carreira militar ainda antes da Tomada da Bastilha (que se deu quando tinha 20 anos) e conseguiu escapar aos anos sangrentos do Terror. A primeira campanha em Itália em 1796 mostrou o seu génio estratégico e a sua capacidade de comando.

Mas foi a campanha seguinte – embora ironicamente constituísse um desastre militar – que lhe cimentou definitivamente o prestígio. A sua capacidade de realização está bem patente na paragem que a frota fez em Malta. «Nos seis dias que passou em Malta, Napoleão expulsou todos excepto catorze dos cavaleiros e substituiu a administração medieval da ilha por um conselho governativo; dissolveu os mosteiros; introduziu iluminação nas ruas e pavimentou-as; libertou todos os presos políticos; instalou fontes e reformou os hospitais, o serviço postal e a universidade, que devia passar a ensinar as ciências além das humanidades». Estipulou até quanto devia ganhar um professor universitário. 

Evidentemente, essa obra toda tinha um preço: para se fazer pagar, Napoleão mandou saquear o tesouro, a casa da moeda, as igrejas. Habilmente, os padres malteses pintaram de preto os portões de prata da Igreja de São João (hoje co-catedral), que assim escaparam à rapina.

A paragem seguinte foi Alexandria. Para o Egipto, além de 35 mil soldados, Napoleão levou uma comitiva de civis, entre os quais 167 sábios, entre matemáticos, astrónomos, engenheiros, naturalistas, arquitetos, desenhadores, homens de letras e impressores. Sem preparação, sofreram atrozmente na caminhada de 300 quilómetros até ao Cairo. Se militarmente a campanha do Egipto foi um fracasso, em termos de avanço do conhecimento foi um marco decisivo para a civilização. Deu origem à egiptologia, trouxe na bagagem a Pedra da Roseta (que permitiu a Champollion decifrar os hieróglifos) e produziu um monumento chamado Description de l’Egypte, um inventário do património arqueológico e natural com mais de três mil ilustrações, algumas das quais com um metro de altura.

No regresso – embora tenha abandonado os seus homens – Napoleão tinha uma tal aura, que não teve dificuldade em encontrar aliados que o ajudaram a derrubar o Diretório e a dissolver o Conselho dos Quinhentos, tornando-se 1.º Cônsul – na prática, ditador. Em poucas semanas, o franco valorizou e a economia começou a recuperar do trauma da Revolução. Com as conquistas militares subsequentes, os franceses rapidamente se encheram de orgulho.

Em Napoleão, o avanço civilizacional e a pilhagem andam de mãos dadas. O ‘novo César’ enche as galerias do Louvre com os despojos de guerra. «As coleções não param de crescer. Os exércitos imperiais percorrem a Europa; nos seus furgões, os historiadores da arte recolhem as obras-primas para fazerem do Louvre o maior museu do mundo, reservando ainda boas peças para os novos museus de província, concebidos como pequenos Louvres’. São precisas novas salas», escreveu Geneviève Bresc, em Mémoires du Louvre. Entre o legado daquele período, encontra-se a maior tela do Louvre, As Bodas de Caná, de Paolo Veronese.

A megalomania do faraó de França
Um busto do imperador da altura de um homem (1,80 m) foi colocado num lugar proeminente da fachada do museu. Curiosamente, hoje não existem estátuas de Napoleão em França ou ruas com o seu nome (embora Napoleão III, por exemplo, tenha dado o nome a várias artérias). Mas não é necessário: a cúpula do Hôtel des Invalides, o hospital para veteranos de guerra mandado construir por Napoleão, e para onde em 1840 seriam transferidos os restos mortais do último imperador francês, domina a paisagem de Paris.

Com o bicentenário da morte de Napoleão a suscitar controvérsia em França, Thierry Lentz, presidente da Fondation Napoléon, comentou recentemente: «Como qualquer grande figura, tem o bom e o mau. Mas não há dúvida de que é o maior homem da história da França. Devemos a Napoleão as nossas instituições, os nossos monumentos, as nossas leis – e até mesmo nosso orgulho em sermos franceses. O Código Napoleónico foi reformado, mas continua a ser a base de nossa sociedade, com as suas regras de igualdade perante a lei e liberdade civil».

Se o cadáver de Napoleão foi tratado como o de um santo, o seu enterro foi como o de um faraó. «O caixão, selado com chumbo, foi colocado noutro caixão de mogno, por sua vez colocado noutro caixão de estanho e finalmente num quarto caixão de mogno», explica Robert Asprey. «Como se tivessem medo de que ele nunca estivesse preso o suficiente», comentou Chateaubriand com maldade.

Mas esta megalomania tem o seu reverso. Na sua biografia intitulada Napoleon The Great, Andrew Roberts notou: «Napoleão não apenas tinha horror aos loucos como os inspirava: na altura do seu enterro em dezembro de 1840, havia pelo menos 14 pacientes [do hospício] de Bicêtre que acreditavam serem ele».