Hoje Escrevo Eu

Pobres e com areia nos olhos

A revelação de que mais de 10 por cento da população cascalense está a recorrer à ajuda solidária da Câmara para comer ou satisfazer outras necessidades básicas parece ter passado completamente ao lado.

Na entrevista que deu na semana passada a Vítor Rainho, no Nascer do SOL, Carlos Carreiras fez uma revelação verdadeiramente chocante: neste ano de pandemia, a Câmara de Cascais tem vindo a prestar ajuda alimentar e de bens essenciais de higiene a cerca de seis mil famílias, num total de 24 mil pessoas, que correspondem a mais de 10 por cento da população residente no concelho.

A surpreendente afirmação foi, como é óbvio, notícia de capa, secundando uma outra declaração do autarca segundo a qual há uma fábrica portuguesa com capacidade para colocar anualmente no mercado mundial cerca de 400 milhões de vacinas contra a covid-19.

Se esta última – que foi manchete – marcou a agenda mediática e teve forte impacto na opinião pública e publicada, gerando controvérsia noutros fora, noutros média e nas redes sociais, já a revelação de que mais de 10 por cento da população cascalense está a recorrer à ajuda solidária da Câmara para comer ou satisfazer outras necessidades básicas parece ter passado completamente ao lado.

Como se ninguém quisesse saber ou nada se importasse com as dificuldades alheias, com a pobreza, com a miséria.

Na Área Metropolitana de Lisboa, Cascais ocupa o terceiro lugar no ranking dos concelhos com maior rendimento per capita, imediatamente atrás de Lisboa e de Oeiras. E se considerado todo o território nacional está no top 10.

Ora, se os números são estes e mais de 10 por cento da sua população tem de recorrer à ajuda solidária da Câmara, como estará o resto do país?

Cascais não é só a maravilhosa faixa costeira colada à marginal que vai do Bugio para lá do Guincho, quase até ao cabo onde a Europa se acaba e o Atlântico começa, com casas, apartamentos e condomínios de sonho, propriedades de quem com rendimentos muito acima da média europeia, quanto mais se comparados à realidade nacional.

Essa faixa, rica, é demasiado estreita e excessivamente minoritária para Cascais poder fazer jus à imagem que dela pretendem dar os próprios cascalenses.

[Como também Sintra, ali ao lado].

O interior do concelho nada tem a ver com a vila que é sede e com a tal faixa costeira.

E os contrastes, as assimetrias, são abissais. Assustadores.

Veja-se o ostentatório mas também ostensivo condomínio erigido onde antes foi o Hotel Estoril Sol, que convive paredes meias com o Bairro do Fim do Mundo – e, porventura, o valor do IRS declarado pelos moradores deste último não andará longe do total também declarado pelos primeiros. Uns porque mais não têm; outros porque têm muitíssimo mais do que declaram, ou nem declaram.

Podemos continuar a querer ignorar ou pretender fingir que não existe, que não a vemos, que não a vivemos ou que a negamos, mas a pobreza está em Cascais como está em todo o lado.

E agrava-se de dia para dia, de ano para ano.

A realidade é indesmentível.

Portugal está cada vez mais na cauda da Europa, tendo já sido ultrapassado por vários países do leste europeu, como a Estónia ou a Lituânia.

Sem atrair investimento e com índices de produtividade baixíssimos, o país está cada vez mais pobre e sem perspetivas de inversão desta tendência, afundando-se na comparação com os outros Estados-membros da UE e da zona euro, a começar pela vizinha Espanha.

A desculpa da pandemia não colhe, como é óbvio, porque – como pandemia que é – não conhece fronteiras e afeta todos.

Mas sendo a pandemia a principal preocupação e a vacinação a prioridade, a máquina de propaganda do Governo trata de abafar tudo o mais que não lhe interessa.

Nomeadamente, a situação a que chegámos de uma quase total negação da miséria em que já mergulhámos e da pobreza em que vivemos.

Na agenda do primeiro-ministro, dos ministros e do ‘paraministro’, do PS e das suas muletas, em que se inclui uma incompetente Oposição, além da crise sanitária e da campanha de vacinação, só existe a bazuca de milhares de milhões que um dia a Europa haverá de libertar e os planos para uma economia cada vez mais frágil, centralizada e estatizada em que as pequenas e médias empresas que são o seu verdadeiro motor acabam sempre discriminadas e sacrificadas.

E enquanto o Governo vai atirando areia para os olhos de toda a gente, os custos do desemprego disparam vertiginosamente e os gastos em subsídios sociais idem.

Uma pobreza.

E miserável!