À Esquerda e à Direita

Pobre país rico

Agora, quando tanto se fala em enriquecimento ilícito, seria uma excelente oportunidade para os partidos políticos exigirem uma alteração na lei que obrigasse à total transparência dos dinheiros públicos. O Estado, câmaras e restantes organismos públicos não deveriam poder gastar dinheiro sem publicitarem as razões de o terem gasto e como o gastaram.

1.Esta semana fui ao Porto entrevistar Rui Moreira e optei por ir pela autoestrada que começa na A8, passa pela A17 e A25 e termina na A29, antes da ligação à A1. O pavimento, em muitos troços, é de uma qualidade fantástica, pois apesar da chuva forte não havia concentração de água. Claro que a maioria da estrada é feita do alcatrão comum, onde não existe essa excelência, criando-se com facilidade lençóis de água.

Mas não foi isso que me chamou mais à atenção: o que notei com facilidade é que quase não havia carros na estrada e que em dezenas de quilómetros essas autoestradas têm três faixas para cada lado. Quantos milhões não foram gastos desnecessariamente? Quantos milhões podiam ter sido investidos nas ferrovias para não termos chegado a este ponto?

O retrato do país está bem espelhado neste percurso, onde alguém viveu à grande e à francesa enquanto outros tinham e têm de esperar horas para chegar a casa, devido à escassez de bons transportes públicos, nomeadamente comboios.

Agora, quando tanto se fala em enriquecimento ilícito, seria uma excelente oportunidade para os partidos políticos exigirem uma alteração na lei que obrigasse à total transparência dos dinheiros públicos. O Estado, câmaras e restantes organismos públicos não deveriam poder gastar dinheiro sem publicitarem as razões de o terem gasto e como o gastaram. Gostamos tanto de falar nos exemplos dos países nórdicos no que aos costumes diz respeito, mas sempre que o tema é dinheiro logo se diz que é impossível copiar o modelo dessas nações.

Percebo que uma lei do enriquecimento ilícito não pode passar por uma autêntica caça às bruxas – um exemplo prático: alguém que aluga carros todos os meses não pode ser considerado um ladrão –, mas tem de ir direito ao problema: como é que determinadas figuras que passaram pela política e magistratura de repente se tornaram novos ricos? Mas não são só esses que terão de responder, todos os outros também, desde que isto não se transforme numa paranoia coletiva e num apelo à bufaria desenfreada.

 

2.Rui Moreira não é propriamente um homem com medo de dizer o que pensa e está muito longe de ser um radical. Se assim fosse, o PS, em tempos, e o PSD, agora, não queriam estar associados à sua candidatura. O autarca do Porto, na entrevista que nos dá, é bastante claro sobre o número de deputados da Assembleia da República: «Se todos são profissionais não faz sentido serem 230». Depois de ouvir esta frase lembrei-me do que foi dito na noite de 24 de janeiro e nos dias seguintes. Várias figuras disseram que era preciso perceber a razão de André Ventura ter tido uma votação tão elevada. Que era necessário enfrentar as bandeiras do candidato do Chega de uma forma objetiva e sem radicalismos. Penso que falavam na questão do problema dos ciganos se integrarem melhor ou pior na sociedade, de as penas de crimes graves serem demasiado leves, e por aí fora. De tudo o que se falou, penso que só a história do enriquecimento ilícito passou a estar na agenda política, embora Ventura, salvo erro, nem tenha falado nele durante a campanha eleitoral. Veremos se depois de um provável bom resultado do Chega essa conversa voltará a ser repetida, sem que se discuta verdadeiramente as bandeiras pelas quais Ventura consegue tantos votos.

3.E, de repente, parece que tudo mudou. Os epidemiologistas começam a falar num verão tranquilo, onde, em princípio, tudo voltará à normalidade, até porque boa parte da população estará vacinada. As conversas vão mudar e poderemos voltar a usufruir da praia, dos bares e das discotecas. No inverno logo veremos como estamos, mas, para já, tudo indica que o futuro será bem mais risonho. E esta é uma notícia que nos obrigará a regressar aos poucos à normalidade, o que não será fácil para aqueles que se viciaram em estar em casa. Eu, que nunca fiquei fechado, já que tivemos que trabalhar na redação, um grupo pequeno, é certo, quero festejar em grande.

vitor.rainho@sol.pt