Tomar partido

Sabemos o que fizeste nas eleições passadas

Guardam-se as obras mais vistosas para o último no de mandato, fazem-se anúncios e promessas diárias, mas sobretudo, fazem-se valer do pânico das pessoas com a pandemia, da sua pobreza e dependência

Fernando Medina, sabemos bem o que fizeste nas eleições passadas. Nas eleições passadas (em 2017) tinha herdado a Câmara a meio do mandato (em 2015), era presidente há dois anos e Lisboa estava no auge da opulência do turismo.
As pessoas não tinham motivos para não gostar de si nem desgostar, até porque não o conheciam bem. Lisboa ‘bombava’ cheia de turistas numa cidade que havia sido preparada para eles. O turismo garantia pleno emprego e mesmo quem tinha curso noutra área e não conseguia colocação, sempre tinha em último recurso o trabalho na hotelaria ou na restauração. Todo o eixo central havia sido recauchutado, as freguesias de Santa Maria Maior (baixa) da Misericórdia (bairro alto), de Santo António (avenida da Liberdade) haviam sido embelezadas e preparadas para os milhões de turistas.
Em 2016, a Câmara foi pedir 250 milhões de euros emprestados ao Banco Europeu de Investimento, mesmo a tempo das eleições autárquicas de 2017, foi com esse dinheiro que se fizeram as obras como ‘uma praça em cada bairro’. Em 2017, entravam por ano centenas de milhões de euros em IMT (Imposto Municipal sobre Transações) resultantes da febre imobiliária e só de taxa de dormida (em hotéis e alojamento local) entravam nos cofres 40 milhões de euros/ano.

O tempo era de vacas gordas e o ambiente era de festa, as promessas de milhares de casas, passes baratos nos transportes públicos, centros de saúde, creches, parques de estacionamento, caiam bem e pareciam verosímeis.
O mandato que havia começado tímido em 2013 ainda com a troika presente, acabava feérico em 2017. Fernando Medina ganhou sem surpresa, era a primeira vez que se candidatava, ninguém ligou muito aos impostos e taxas que subiam desmesuradamente, ninguém se apercebia que pagar à EMEL era uma segunda renda para pagar ao lado da renda de casa. Como os lisboetas tinham os bolsos cheios, não deitavam contas à vida. 

Sem surpresa, os milhares de casas não foram construídas (até porque eram parcerias público-privadas e os construtores privados não estão interessados); os passes baratos conseguem-se à custa de transferências cada vez maiores do orçamento municipal; os centros de saúde avançam devagar e não há dinheiro para contratar médicos e enfermeiros para lá trabalharem. As creches não foram feitas, os parques dissuasores nas várias entradas da cidade não foram construídos e atualmente em vez de se anunciarem parques para milhares de carros, já estão na fase de anunciar um parque no Lumiar para vinte bicicletas. As taxas e impostos continuaram a subir e a EMEL cobra cada vez mais e já tem a eficácia do fisco. 

Tal como em 2017, guardam-se as obras mais vistosas (Praça de Espanha, por exemplo) para o último ano de mandato, fazem-se anúncios e promessas diárias, mas sobretudo, fazem-se valer do pânico das pessoas com a pandemia, da sua pobreza e dependência. Entope-se a caixa do correio com panfletos de promessas e pega-se nos idosos pelo braço e levam-nos de táxi à vacina. 
Não há turismo, há pandemia e medo, falências e desemprego. 2021 não pode ser uma sequela de 2017.