Sociedade

Quase 1,4 milhões de portugueses estiveram infetados, 550 mil sem saber

Inquérito serológico revelou que 13,5% da população tinha anticorpos “naturais” no final de março.

Os resultados da segunda avaliação do inquérito serológico nacional, conhecidos esta segunda-feira, permitem estimar que no final de março 13,5% da população portuguesa já tinha anticorpos específicos contra o SARS-CoV-2 conferidos pela infeção. O estudo foi feito pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) numa amostra representativa da população, com análises feitas a 8.463 pessoas residentes em Portugal, entre 2 de fevereiro e 31 de março de 2021, e permite assim estimar que no final de março entre 1,35 a 1,4 milhões de portugueses já tinham estado expostos ao vírus.

Testagem apanhou mais casos do que na primeira vaga Até à mesma data tinham sido confirmados em Portugal 822 314 casos de covid-19, o que permite agora estimar que 550 mil portugueses estiveram infetados sem saber ou sem serem diagnosticados através de um teste positivo. A diferença entre a estimativa da prevalência da infeção e os casos efetivamente diagnosticados é agora muito menor do que a que foi apurada no primeiro inquérito serológico nacional, feito no rescaldo da primeira vaga da epidemia. Na altura estimou-se que 2,9% da população tivesse tido contacto com o vírus, cerca de 300 mil portugueses, seis vezes mais do que os casos efetivamente diagnosticados. A testagem aumentou ao longo de 2020 e o diferencial ao fim do primeiro ano de pandemia é agora muito menor.

O INSA, que faz o inquérito aleatoriamente, encontrou ainda casos de pessoas que já tinham anticorpos conferidos pela vacina, que no entanto será maior do que o apurado no inquérito visto que 24,8% dos portugueses já fizeram pelo menos a primeira dose da vacina da covid-19 e 9% já têm a vacinação completa. Assim, entre infeção natural e vacinas, quase 40% dos portugueses já poderão ter alguma proteção contra a doença. Ontem o secretário de Estado da Saúde antecipou que Portugal poderá atingir a imunidade de grupo “mais no início do que no fim do verão”, meta que tem sido associada ao momento em que 70% da população adulta estará vacinada, o que na realidade representada 58% da população imunizada (mais os que tiverem anticorpos por via da infeção). Os dados do INSA dão uma ideia de como evoluem os anticorpos nos vacinados: no grupo de indivíduos vacinados abrangidos pelo inquérito serológico, 74,9% tinha anticorpos, um valor que sobe para 98,5% nas pessoas que tinham as duas doses da vacina há pelo menos sete dias. 

Crianças menos diagnosticadas O INSA conclui que em relação à distribuição por idades destaca-se a seroprevalência mais elevada na população adulta em idade ativa e mais baixa no grupo entre os 70 e os 79 anos, salientando ainda que os resultados preliminares desta segunda fase do inquérito serológico revelam anda que a seroprevalência estimada para os grupos etários abaixo dos 20 anos não é inferior à da população adulta. Um estudo da Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto feito em dois agrupamentos escolares, apresentado pelo epidemiologista Henrique Barros na última reunião do Infarmed, tinha chamado a atenção para a prevalência semelhante entre adultos e crianças, não obstante ter havido mais diagnósticos em adultos.

Cruzando agora as estimativas de prevalência do inquérito serológico feito pelo INSA por faixa etária, as estimativas de população residente no país por idade do Instituto Nacional de Estatística e os casos notificados à Direção-Geral da Saúde, é nas crianças até aos nove anos que se encontra um maior diferencial entre as estimativas de prevalência de infeção e casos diagnosticados: até ao final de março, o inquérito do INSA apurou que 14,3% das crianças entre um e 9 anos de idade estiveram expostas ao vírus, o que significa que poderá ter havido cerca de 115 mil casos nestas idades. Os dados da DGS, que o i analisou, revelam que neste grupo etário foram confirmados até ao final de março cerca de 45 500 casos de infeção por SARS-CoV-2, 40% dos que poderão ter-se verificado na realidade. 

Na faixa etária dos 10 aos 19 anos as estimativas de prevalência do INSA apontam para uma prevalência de 12,9%, o que com as estimativas do INE permite estimar cerca de 135 500 casos neste grupo etário, tendo sido diagnosticados até ao final de março cerca de 76 mil (56%). A mesma análise permite concluir que terá sido no grupo etário dos 20 aos 29 e dos 70 aos 79 anos que se diagnosticaram proporcionalmente mais casos, mais de 60% da infeções, sendo que no grupo dos 70 anos a prevalência estimada pelo INSA pode já incluir vacinados. Não foram disponibilizados dados para o grupo de maiores de 80, onde se registaram das maiores incidências de covid-19 e que agora já estão maioritariamente vacinados.

O inquérito não apurou diferenças na prevalência entre sexos. Já em termos regionais, Algarve e regiões autónomas destacam-se do resto do país, com menos de metade da prevalência da população do Norte, Centro, Lisboa e Alentejo, o que significa também uma maior percentagem de população suscetível a contrair o vírus.