Opiniao

Abril, entre a esperança e a desilusão

Sinceramente, não percebo os objetivos de Vasco Lourenço mas as consequências das suas convicções parecem óbvias, entre o incrementar da clivagem na população portuguesa e o crescimento nas urnas da direita radical. As subidas destes nas sondagens são a maior prova do que afirmo, comprovando-se que os radicalismos só fomentam outros radicalismos, como se uns não conseguissem viver sem os outros

1.Vasco Lourenço, essa insigne figura da revolução de abril de 1974, determinou: «Só há lugar, entre os 1000 participantes que irão incorporar a grande manifestação do 25/4, para quem eu autorizo»! Pelo meio, a pandemia como desculpa próxima e conveniente. Tudo isto, a propósito da Iniciativa Liberal que veio reclamar o seu legítimo direito à participação na referida manifestação que deveria ser nacional e não apenas das esquerdas unidas contra um fascismo que os atormenta em sonhos. Confrangedor!

Instintivamente, recordamos 1975 (até ao 25/11). Agora como então, estas esquerdas unidas entendem que o 25/4 lhes pertence, talvez por direito divino. Alguns, até continuam a sonhar com ditaduras socialistas onde só tem liberdade quem jura fidelidade a Marx, Lenine ou Trotsky e aos seus descendentes como Fidel Castro ou Mao Tsé-Tung. Se duvidam, é ver a lista das Associações e Partidos autorizados a participar. Uns quantos bem conhecidos, mas também algumas Associações que raros ouviram falar e nem sabemos se terão existência legal.

Sinceramente, não percebo os objetivos de Vasco Lourenço mas as consequências das suas convicções parecem óbvias, entre o incrementar da clivagem na população portuguesa e o crescimento nas urnas da direita radical. As subidas destes nas sondagens são a maior prova do que afirmo, comprovando-se que os radicalismos só fomentam outros radicalismos, como se uns não conseguissem viver sem os outros.

Uma nota final para alguns dos líderes a quem devemos muita da nossa liberdade, como Ramalho Eanes, Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Mário Soares. Numa altura em vemos a democracia a ser confrontada com perdas de valores éticos, o 25/4 também deve servir para recordar os seus exemplos.

2.De repente, o futebol estremeceu, também em abril, desta feita a 18! Na véspera da Uefa anunciar o alargamento da Champions para 36 equipas com um modelo de competição que irá assegurar mais jogos, um grupo de 12 clubes entre os mais poderosos da Europa revoltou-se e anunciou uma nova competição – a Superliga Europeia (SLE) e, consequentemente, um ‘fall-out’ das competições internacionais patrocinadas pela Uefa.

Agitaram-se as águas paradas da bola e até os políticos vieram pressurosos intrometer-se na questão, clamando uma pretensa ilegalidade misturada com imoralidade, no fundo ao sabor das massas adeptas, chocadas com a arrogância destes 12 clubes. A reação mais violenta veio em simultâneo da Uefa e Fifa, prometendo expulsar todos que ousaram questionar o poder tentacular destes reguladores e as consequências foram imediatas.

Escassos dois dias depois do anúncio com pompa e circunstância, os 6 clubes ingleses que integraram o núcleo original dos 12 fundadores ‘meteram a viola no saco’, sabe-se lá porque bulas e promessas e abandonaram a SLE, ferindo-a de morte. Quanto aos restantes, ‘pendurados’ por este Brexit II, exceção feita ao Madrid e Barcelona (por enquanto), acabaram por seguir o mesmo caminho.

Feito este introito, refiro que fico surpreso com estas fingidas surpresas e indignações internacionais, dado que há anos se murmurava nos gabinetes a existência de um inequívoco interesse dos ‘grandes’ numa elitista SLE, ideia reforçada pelos sucessivos alargamentos feitos pela Uefa das competições internacionais, quiçá com intuitos populistas e eleitorais. Tentando adiar o que se avizinhava e agora sucedeu, estes alargamentos tinham ‘uma volta na ponta’ dado que os modelos de competição eram imediatamente reformulados para assegurar que os ‘grandes’ prosseguissem nesses torneios o mais tempo possível.

Pode ser que me engane, mas como sinceramente acredito que a pressão dos grandes clubes será sempre maior que a da raia miúda, talvez seja melhor deixar a poeira assentar. O futebol profissional há muito que deixou de ser desporto para ser indústria, tendo sido capturado em múltiplos clubes/SAD por interesses de investidores internacionais, seja por divertimento ou por lucro.

Como indústria, os adeptos e sócios, são parte fundamental do negócio e têm sido cada vez mais perspetivados como ‘cliente’ do produto futebol, consumindo ‘merchandising’, lugares cativos ou assinaturas de canais ‘premium’ de televisão. Há muito que pouco contam nas estratégias das SAD, criadas para captar investidores e desenvolver o negócio.

Hoje, estes adeptos, estarão profundamente indignados pela ideia da criação da SLE. Seja assim, mas confesso que me causa perplexidade a sua passividade durante anos, em que inebriados pela grandeza proporcionada pelos milhões de euros de investimentos literalmente ‘injetados’ nos seus clubes, nunca questionaram a consequente e incomportável geração de passivos e riscos de falência.

Em suma, ver para crer, como São Tomé. Algo de certeza irá mudar, procurando-se um entendimento para salvar estes clubes, inequivocamente colossais na sua dimensão mundial, mas também nas suas dívidas (que nestes 12 ‘fundadores’ atingirão cerca de Eur 8,5 MM).

Uma nota final: que tal os reguladores, Uefa e Fifa, preocuparem-se a sério (i) com o cumprimento de rácios de gestão que garantam a sobrevivência dos clubes/SAD, afastando quem os não cumpra, (ii) com a forma como os sucessivos prejuízos são financiados e, porque não, (iii) com as ‘sanguessugas’ do futebol?