Cultura

Raffles. Um patife de luvas brancas

O seu autor foi Ernest William Hornung, não por acaso cunhado de Arthur Conan Doyle e com o qual teve um ou dois arrufos. De facto, A.J. Raffles era um Sherlock Holmes do avesso: um criminoso cruel mas com princípios que levavam o leitor a ganhar simpatia por ele.

Sir Arthur Ignatius Conan Doyle escreveu Um Estudo em Vermelho em 1887 e tratou de mudar  a história da literatura graças à sua personagem principal, Sherlock Holmes. No fundo é um daqueles autores que foram ultrapassados pela sua própria criação. Afinal quase todo o mundo já ouviu falar de Holmes e nem um terço desse mesmo mundo ouviu falar de Conan Doyle. Nasceu em 22 de maio de de 1851, em Edimburgo, Escócia, mas os pais, Charles Altamont Doyle e Mary Foley eram descendentes de uma longa família irlandesa e católica. Charles começou por ser um bebedolas e, em seguida, encarrilou pelo caminho do alcoolismo puro e duro, tão duro que valeu a Arthur sessões de cinto de soltar brados de desespero. Parece que Charles gostava de utilizar o cinto agarrando-o pelo ponta contrária à fivela. A coisa tornou-se de tal forma insuportável que a família se desfez por completo, indo o jovem Arthur parar aos cuidados de umas tias ricas do Lencashire que, preocupadas com a sua educação o encafuaram no Jesuit Preparatory School Hodder Place, em Stonyhurst, onde Doyle Jr. se afeiçoou a matérias como a aritmética, a álgebra ou a geometria, mas continuou a apanhar chibatadas no lombo porque os jesuítas eram daqueles que acreditavam piamente que a melhor forma de educar uma criança era à porrada. Finalmente passou para a escola Stella Matutina, em Feldkirch, Áustria, onde aperfeiçoou o seu alemão, concluindo o curso de medicina no regresso à cidade natal, na University of Edinburgh Medical School.

Ernest William Hornung nasceu em 7 de junho de 1866, em Cleveland Villas, Marton, Middlesbrough. Era ligeiramente mais novo do que Arthur mas a vida de ambos viria a cruzar-se e a literatura bem pode agradecer esse encontro. Terceiro dos oito filho de John Peter Hornung e de Harriet Armstrong, cedo começou a dar chatices. Se Arthur foi médico, Ernest seguiu o caminho de doente. Passou grande parte da sua infância fechado em sanatórios na tentativa de resolver o problema de asma que o abatia gravemente, sobretudo a ele, um viciado no críquete que gastava todos os seus tempos livres a praticar esse desporto tão absolutamente incompreensível.

Com a morte do pai, Ernest tornou-se confortavelmente rico graças às minas de carvão que a família explorava. Optou pela profissão de jornalista e viu-se envolvido na reportagem de vários crimes assinados por Jack o Estripador. Em 1891, tornou-se membro de um clube de críquete, o Strand, famoso por ter como sócios vários escritores como por exemplo, Jerome K. Jerome e Arthur Conan Doyle. Tornaram-se amigos. No ano seguinte, numa viagem à Madeira, conheceu a irmã de Arthur, Constance Aimée Monica Doyle, mais famosa pelo diminutivo de Connie, e apaixonou-se de imediato, num verdadeiro coup de foudre. Em 1893, Arthur e Ernest eram mais do que conhecidos; eram cunhados!

 

Escrevendo...

Arthur dedicava-se seriamente à medicina e especializou-se em vários campos, como a oftalmologia, por exemplo, e esgotava o resto das energias que lhe sobravam a escrever novelas policiais e a bater às portas das editoras procurando publicar a sua obra. A Study in Scarlet, primeiro livro no qual surgiram as personagens de Sherlock Holmes e do seu inseparável Dr. Watson, foi escrito em três semanas e acabou por ser editado pela Ward Lock & Co no dia 20 novembro de 1886, rendendo-lhe 25 Libras à cabeça, algo equivalente a umas 2.700 Libras nos tempos que correm. Arthur esfregou as mãos de contente. Adorava o seu trabalho como médico mas tinha pela frente uma mina de diamantes, Além de que a profissão lhe era muito útil para desenvolver pormenores de assassínios mais bárbaros com verdadeiras lições de anatomia.

Consta que Sherlock Holmes foi baseado na figura de um antigo professor universitário de Doyle, um tal de Joseph Bell. Robert Louis Stevenson, o autor de A Ilha do Tesouro, não resistiu a enviar a Arthur um telegrama destapando-lhe a artimanha: «My compliments on your very ingenious and very interesting adventures of Sherlock Holmes... can this be my old friend Joe Bell?»

Entretanto, Ernest Hornung aproveitava o seu ritmo de escrita jornalístico para se tornar, também, num folhetinista de truz. Tiny Luttrell foi o seu primeiro livro. Seguiram-se The Boss of Taroomba (1894), The Unbidden Guest (1894), Irralie’s Bushranger (1896) and The Rogue’s March (1896). Se algo era ponto comum entre todos, isso era uma evidente simpatia pelos maus em relação aos bons, algo que poderia ter servido para arrasar desde logo a carreira de Ernest. Mas não foi assim. Bem pelo contrário.

 

A profunda inspiração

Ernest e Arthur não eram propriamente compinchas, mas o companheiro de ambos, Oscar Wilde, fez os impossíveis por juntá-los, a ponto de o primeiro filho de Hornung e Connie se ter chamado Arthur e ser padrinho de Doyle. Se o mais velho dos cunhados ia ganhando lastro com o desenvolvimento de Holmes, o detetive infalível, a personagem mais marcante de Ernest até aí tinha sido Stingaree, o cavalheiro-ladrão que estudara em Oxford e que saiu nas páginas de Irralie’s Bushranger.

O passo estava dado. Sintgaree viria a dar lugar a uma das personagens mais cativantes da história dos livros policiais de todos os tempos e que foi apresentada aos ávidos leitores numa série de seis novelas publicadas na Cassels Magazine, em 1898, sob o título de A.J. Raffles.

O modelo de Raffles foi George Cecil Ives, um criminologista formado em Cambridge e um dos mais duros adversários de Hurning nos jogos de críquete. Tal como A.J. Raffles, George habitava uma residência exclusiva para cavalheiros em Mayfair. Há que dizer que o estilo de Ernest não andava longe do do seu cunhado e, tal como Shelock Holmes, Raffles tinha um parceiro inseparável chamado Bunny Manders, seu velho camarada de escola que também ocupa o lugar de seu biógrafo.

De certa forma, Ernest pegou em Holmes e Watson e distorceu-os até encontrar os seus contrários. Um cavalheiro que frequentava os mais altos círculos da sociedade londrina, jogador de críquete no Gentlemen of England Club, sempre acompanhado pelo homem a quem salvou da desgraça,  Harry “Bunny” Manders. Tal como Holmes, Raffles era um mestre do disfarce e tornava-se irreconhecível sempre que pretendesse. A inspiração na obra de Doyle foi tão clara que o próprio Ernest dedicou ao cunhado umas das primeiras aventuras de Raffles, The Amateur Cracksman: «To A. C. D. This Form of Flattery». Flattery: o termo vem a propósito - lisonja. Não contente com a simples inspiração constituída em redor da obra de Arthur, o próprio nome de Raffles foi tirado do título de uma novela de Doyle: The Doings of Raffles Haw (1891). Além disso, o primeiro nome de A.J. Raffles é o mesmo do seu cunhado e do seu filho:_Arthur.

 

O figurão

Raffles é um fulano bem constituído, de olhos claros e cabelos negros como carvão, além de andar sempre perfeitamente escanhoado. Pode ser um mamífero sem escrúpulos, mas tem uma obsessão indiscutível pela sua higiene corporal. No início das aventuras, usava um bigode farfalhudo. Depois confessou ao seu compincha Bunny: «Rapei-o quando cometi o meu primeiro crime. Foi como se assinalasse o fim da inocência». Carismático, capaz de impor a sua vontade a quem quer que seja, Raffles observa a sociedade de uma forma profundamente cínica e convence-se que só faz parte do grupo dos eleitos porque é um mestre no críquete.

Apesar de ser um patife, tem dois ou três princípios de vida dos quais não abdica. O principal de todos eles é o de nunca roubar as casas de quem o recebe como convidado. Também se recusa  a matar as suas vítimas de assaltos, sentindo que não é justo aplicar-lhes duas penas em simultâneo. Assim arranjou várias alcunhas, desde Ladrão Cavalheiro a Ladrão de Casaca e Ladrão de Luvas Brancas. Num dos seus livros, não sei se traduzido em português, por mais que tenha procurado, The Fate of Faustina, confessa uma certa relutância pelo homicídio puro e duro e remete-o para determinadas e específicas situações mais extremas, tal como acontece em Wilfur Murder quando, sentindo-se em perigo por via de um homem que o perseguiu da Irlanda até Londres e descobriu o seu esconderijo em Bond Street, onde acabara de esconder vários milhares de Libras em esmeraldas roubadas ao pobre Blair, seu caçador, toma a decisão de o despachar para o outro mundo. Mas as aventuras de Raffles vivem de situações surpreendentes página atrás de página. Quando chega ao quarto de Blaird na companhia de Bunny, encontram o homem a golfar sangue nas vascas da agonia lado a lado com o seu assassino, um tal Jack Rutter, um alcoólico que_Baird tinha levado à ruína. Então Raffles já não tem que matar, para sua satisfação limita-se a comprar um bilhete para o primeiro navio que saía em direção a Nova Iorque, desfazendo-se desta forma de Jack.

Se é verdade que Ernest foi beber avidamente da fonte imaginativa de Arthur, o contrário também aconteceu. Estudiosos da obra de ambos não têm dúvidas de que The Adventure of Charles Augustus Milverton foi profundamente influenciado por Wilfur Murder, ao longo de cujas páginas Sherlock Holmes se vê na peugada de um chantagista chamado Milverton, que se gaba de ser o rei da extorsão. Holmes e Watson veem-se livres do velhaco sem mexerem um dedo, observando escondidos por detrás das cortinas do seu quarto, a forma como é alvejado pela viúva de uma das suas vítimas que, não resistindo às ameaças de Baird acaba por morrer de ataque cardíaco.

A morte de Arthur Oscar na I_Grande Guerra, transformou por completo o humor de Ernest. Atacado por uma pneumonia quando viajava para o sul de França de comboio em busca de temperaturas mais dóceis, viria a morrer no dia 22 de março de 1921, com 54 anos, sendo sepultado em Saint-Jean de Luz. O cunhado, Conan Doyle, escreveu uma frase dolorosa: «His writings, good as they are, never adequately represented the powers of the man, nor the quickness of his brain». Desfazia, com ela, os últimos sussurros sobre uma relação complicada entre ambos que já há muito fora ultrapassada. E servia para lamentar que, no futuro, Ernest Hornung ficasse para sempre amarrado ao seu Ladrão de Luvas Brancas quando a sua obra sem Raffles fora muito maior e mais densa do que com o cavalheiro patife que trouxe para o mundo da literatura. A ideia de um criminoso rodeado por uma auro positiva foi uma das suas ofertas à literatura.