Biblioteca Pessoal

Dois modos de ler, duas atitudes perante a vida

Olhando para certas críticas, o recenseador mais parece um vigilante, um inquisidor a quem não escapa a mais pequena falta.


Um dia destes, enquanto conduzia, ouvi na rádio um anúncio a um festival que prometia «música antiga e arte contemporânea». Uma combinação sugestiva – pensei eu – pois o cunho conservador da primeira era contrabalançado pela irreverência e novidade da segunda. E, continuando a refletir, apercebi-me de algo curioso. Nessa designação de arte contemporânea pode caber de tudo: desde má pintura feita por um artista de segunda a uma instalação amalucada. Mas, por muito má que seja a obra, o rótulo de arte contemporânea empresta-lhe sempre uma certa aura e um respaldo de respeitabilidade intelectual.

Lembrei-me, a esse propósito, de um episódio que presenciei há uns anos quando era aluno de um mestrado em curadoria de arte contemporânea. O final do semestre ficou reservado para visitas a jovens artistas, que faríamos na companhia de um distinto curador e crítico de arte, o brasileiro Paulo Herkenhoff. Esses jovens artistas levavam um portfolio e apresentavam-nos o seu trabalho. No final, Herkenhoff tecia um comentário.

Uma dessas apresentações foi, no meu entender, um verdadeiro desastre. Aquilo que a jovem artista mostrara, se não era um perfeito disparate, andava lá muito perto. Fiquei na expectativa do comentário do curador brasileiro. Teria sido fácil arrasar aquilo tudo, fazer uma crítica tão violenta que a rapariga sairia dali humilhada e determinada a mudar de carreira.

Ora, o que aconteceu não foi nada disso. Com uma postura de grande seriedade, Herkenhoff fez ressaltar os aspetos positivos que encontrara na obra da artista, ao mesmo tempo que apontava o que lhe parecia menos conseguido. Se a artista reteve ou não os seus conselhos, não sei; mas para mim foi uma importante lição sobre integridade e respeito pelo trabalho de cada um.

D iria que também quando lemos um livro podemos adotar diferentes posturas. Olhando para certas críticas, o recenseador parece-me mais um vigilante, um inquisidor a quem não escapa a mais pequena falta (mas que, ao mesmo tempo, consegue não fazer caso das qualidades da obra, por mais evidentes que sejam). Imagino-o a esfregar as mãos de contente, antecipando o prazer que sentirá ao espetar as farpas na sua vítima. Evidentemente, camufla a amargura de exigência, e o ressentimento de rigor. «Sei dos recenseadores de omissões, mais atentos ao que falta do que verificadores do que existe. Conto com eles», ironizou o historiador brasileiro Câmara Cascudo.

E depois há os leitores que se assemelham a garimpeiros. Escavam, selecionam, peneiram, até restarem apenas as pepitas preciosas que uma obra tem para lhes oferecer. Estava tentado a dizer que se trata de dois modos de ler, mas talvez seja mais do que isso: são duas atitudes perante a vida. Cada um saberá a que mais lhe convém.