Carta de Wall Street

A lei do mais forte?

Na grande crise financeira de 2008/ 2009, Warren Buffett conseguiu comprar ações e opções a preços de saldo sobre os melhores bancos norte-americanos porque era um dos poucos investidores com liquidez


Nova Iorque, abril 2021

Queridas Filhas,

A lei da selva postula que os mais fortes sobrevivem e os fracos desaparecem. Esta conclusão é atribuída a Charles Darwin que desenvolveu a teoria da evolução das espécies e descreveu o processo de seleção natural. Uma análise mais próxima da ciência mostra que não são necessariamente os mais fortes que sobrevivem. São os que melhor se adaptam ao meio ambiente e às suas constantes mutações. Assim por muito fortes que sejam as baleias e tubarões no mar, não conseguem impor a sua vontade em terra firme. Os dinossauros que dominaram a terra, extinguiram-se por não se terem conseguido adaptar a uma alteração temporária aquando da colisão de um meteoro com o planeta.
Tal como na natureza, também na nossa vida financeira. A flexibilidade é uma mais-valia importante num portfolio. Como os negócios e a economia raramente evolvem de forma previsível e estável, a flexibilidade frequentemente significa a diferença entre o sucesso e a falência. 

Como podem ajudar as finanças a aumentar a nossa flexibilidade? Há vários instrumentos. Os mais comuns:

Seguros 
Desde que empreendedores começaram a financiar expedições de comércio marítimo há centenas de anos atrás, que a procura por instrumentos de seguros para mitigar o risco de catástrofe não tem parado de crescer. No seguro, pagamos um pequeno custo anual para proteger uma catástrofe que, sendo pouco frequente, nos levaria a incorrer elevados custos. No limite esses custos podem levar à falência. Hoje em dia os seguros estão por todo o lado: desde o seguro automóvel que todos os donos de carro têm até alguns bem exóticos. Recentemente vimos um seguro exótico: o torneio de ténis de Wimbledon tem seguro contra pandemias e em 2020 conseguiu minimizar as perdas de receita e cancelar o evento. 

Liquidez
A grande maioria dos negócios e projetos falha por falta de liquidez. Ter dinheiro em caixa e acesso a uma linha de crédito abre flexibilidade aos negócios para não só se protegerem de ameaças como aproveitar oportunidades não esperadas. Alguns dos melhores investimentos são feitos durante crises de liquidez. Por exemplo, na grande crise financeira de 2008/2009, Warren Buffett conseguiu comprar ações e opções a preços de saldo sobre os melhores bancos norte-americanos porque era um dos poucos investidores com liquidez. 

Faseamento de investimentos 
Em muitos projetos, não precisamos de investir tudo para saber se vai ter sucesso ou não. Podemos investir por fases, e decidir se vale a pena continuar a investir. Por exemplo, no desenvolvimento de um novo produto farmacêutico, fazem-se primeiros testes limitados para determinar a eficácia e segurança do produto em estudo. Se o produto falhar nesta fase inicial, o projeto é abandonado e nada mais se investe. Mas se os resultados são promissores, investe-se mais e fazem-se testes de maior escala com pacientes humanos para finalmente, em caso de sucesso, se obter a licença de venda do medicamento. A indústria de capital de risco funciona da mesma forma, financiando start-ups promissoras em fases, aumentando o capital apenas em caso de sucesso na fase anterior. 

Opções 
Uma opção é valiosa porque oferece ao detentor a oportunidade de a exercer. Contudo o detentor não está obrigado a exercê-la. Só o fará se for do seu interesse. Isto oferece tremenda flexibilidade ao dono da opção. Um exemplo comum são os passes dos jogadores de futebol. Um clube pode contratar o jogador sem adquirir o passe e ficar com a opção de adquirir o passe a um preço predeterminado. Se o jogador vingar e se valorizar, o clube exerce a opção. Caso contrário deixa a opção expirar e liberta o jogador. Em negócios, opções para aquisição de empresas e projetos são comuns. Em empresas inovadoras é comum oferecer aos colaboradores mais talentosos opções para comprar de ações na empresa. O talento desfruta da valorização da sua empresa, sem correr risco de perda de capital caso a empresa não vingue.

Responsabilidade limitada  
Por muita flexibilidade e adaptação que se tenha, por vezes os projetos e as empresas falham irremediavelmente. Nesse caso, um risco ainda maior seria a exposição do nosso património pessoal não afeto ao negócio. Durante muitos séculos, a ruína do negócio implicava ruína pessoal, e no limite escravatura. Hoje em dia pode-se fazer a separação entre o capital investido em negócios do capital pessoal. Se os negócios falharem, o capital pessoal fica protegido. Diz-se que os sócios têm a sua responsabilidade para com os credores limitada ao capital que investiram no negócio. Este instrumento é muito importante. Sem ele, muito pouca gente teria coragem de começar negócios. E sem essa coragem a sociedade e a economia perdiam muita inovação e dinamismo.