Sociedade

Luto em Torres Vedras após morte de autarca. "Aparentemente era uma pessoa bem disposta"

Carlos Bernardes era presidente da câmara desde 2015. Investigação aponta para suicídio. Últimos anos marcados por processo de plágio, que segundo a família viveu como uma humilhação.  

Por Felícia Cabrita, João Amaral Santos e Marta F. Reis

O presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras morreu esta segunda-feira aos 53 anos de idade. Carlos Bernardes era natural de Torres Vedras e presidente da Câmara desde 2015, tendo em março anunciado a sua  recandidatura. “Dentro da minha disponibilidade, continuo a servir o partido e a minha terra”, disse na altura o autarca, que era também presidente da federação regional do Oeste do PS. 

Segundo o i apurou, a morte violenta está ser investigada como suicídio e a investigação a cargo da Polícia Judiciária afasta, até aqui, o envolvimento de terceiros. A resposta só será dada após o resultado da autópsia mas o exame pericial ao local dos factos, feito durante tarde de ontem, não apontou nesse sentido. O autarca do PS debatia-se há algum tempo com uma depressão e estava a ter acompanhamento médico e a ser medicado. Ontem não apareceu para trabalhar. A ausência durante todo o dia na câmara foi estranhada. Após várias tentativas de contacto, ligaram do município para a mulher do autarca, que, deslocando-se a casa, o descobriu já sem vida, por volta das 16h. Tinha ferimentos no pescoço provocados por uma arma branca – um golpe na jugular (uma veia do pescoço) terá sido fatal. 

Fonte da PJ disse ao i que, “embora não seja comum a utilização de uma faca para cometer suicídio, quando o quadro psicológico é instável e o domínio da realidade distorcido tal pode eventualmente acontecer”. Todos os cenários estão em aberto, mas, neste momento, “não há indícios da participação de terceiros” na morte do autarca, avançou a mesma fonte. A última pessoa a vê-lo ainda com vida terá sido a sua mulher que, como normalmente, saiu de casa esta manhã para ir trabalhar.

Uma vida na política com os últimos anos conturbados O Partido Socialista e município reagiram com pesar ao desaparecimento do autarca, desde cedo ligado à vida política em Torres Vedras. 

O primeiro cargo foi o de secretário da Junta de Freguesia do Turcifal, entre 1989 a 1997, tinha então 30 anos. Entre 1994 e 1997 foi adjunto e secretário do Gabinete de Apoio Pessoal ao Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras. 
No ciclo seguinte seria vereador do pelouro de Turismo, a sua área de formação, na Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço. Entre 2003 e 2005 foi vereador da Câmara Municipal de Torres Vedras com os pelouros do ambiente e serviços urbanos e durante dez anos vice-presidente do município, que passaria a liderar em 2015, substituindo Carlos Miguel, que renunciou ao mandato para assumir funções no Governo. 

Nos últimos anos a vida pública de Carlos Bernardes ficou marcada pela polémica em torno a sua tese de doutoramento, com o título “As Linhas de Torres. Um destino turístico estratégico para Portugal”. Em 2017, Jorge Ralha, ex-vereador independente pelo PS, publicou um artigo na jornal local Badaladas denunciado vários casos de plágio na obra. Carlos Bernardes seria alvo de uma denúncia ao Ministério Público e foi acusado em 2019 por plágio de 40 textos originais na tese. No início do ano passado foi condenado a uma multa de 5 mil euros pelo crime de contrafação na tese, tendo a sentença sido devolvida no passado mês de janeiro à primeira instância pelo Tribunal da Relação de Lisboa por vícios encontrados decisão e não pela questão fundamental, o plágio. Já no início de abril a primeira instância, apesar reconhecer esses vícios, manteve a condenação por plágio. 

Ao i, o advogado do autarca, Tiago Bastos, explicou que estavam a preparar o recurso e mostrou-se surpreendido. “Nunca pensei que este caso horrível pudesse acontecer”, disse o advogado. “Não o tinha na conta de uma pessoa deprimida. Aparentemente era uma pessoa bem-disposta, estava confiante de que iria ser reeleito e contente com a forma como tem decorrido o combate à pandemia no concelho”, disse Tiago Bastos. Já segundo familiares ouvidos ontem pela PJ, Carlos Bernardes viveu o processo como uma situação de “grande humilhação”, acrescentando-se a pressão dos últimos meses da pandemia. 

A Câmara Municipal de Torres Vedras decretou esta segunda-feira luto municipal durante cinco dias. “Empenhado na defesa do ambiente e da sustentabilidade, colocou Torres Vedras num lugar de relevo a nível nacional e internacional. Era embaixador Quality Coast, membro do Comité Consultivo Político da CIVITAS Initiative e Embaixador Green Destination para a Europa”, referiu o município. Numa nota publicada online, também o Presidente da República enviou condolências à família de Carlos Bernardes, estendendo-as ao município. 

O nome do autarca fica associado a iniciativas na promoção da sustentabilidade e obras como ciclovias. O último projeto, apresentado em abril pelo município, visa atingir a neutralidade carbónica em Torres Vedras em 2030, antecipando em 20 anos a meta estabelecida na União Europeia.