Cultura

Maria Callas. Uma vida repleta de tragédias

Cast a Diva: The Hidden Life of Maria Callas, o novo livro de Lyndsy Spence sobre a ‘soprano grega’ revelará material biográfico inédito sobre a cantora, oferecendo ainda alguns insights sobre a sua trágica vida. 

Há quem possa pensar que já não há nada de novo a saber sobre Maria Callas, ou La Divina, como muitos a saudavam... A verdade é que já é muito o material disponível que nos permite mergulhar na trágica vida da cantora. Em 2017, o mundo conheceu o documentário Maria by Callas, realizado por Tom Volf e existem dezenas de biografias e livros sobre ela, um dos mais conhecidos Maria Callas: The Woman behind the Legend, de 2002, escrito pela famosa escritora grega, Arianna Huffington. Contudo, recorrendo a uma enorme coleção de arquivos inéditos, Cast a Diva: The Hidden Life of Maria Callas, da norte-irlandesa Lyndsy Spence, apesar de não alterar profundamente o que conhecíamos sobre a vida de Callas, promete revelar pormenores relativos à relação abusiva com Onassis, ao desprezo sentido pelos pais, a traição por parte da irmã, acentuando a dimensão da tragédia vivida nos bastidores dos palcos. A autora teve acesso a dezenas de cartas que Callas escreveu para o seu padrinho e melhor amigo, Leo Lerman, e ainda muitos dos seus colegas da época. Um livro que servirá para reposicionar a diva numa perspetiva feminista, vendo-a como uma mulher vítima do seu tempo. 

«Estás morta para mim (...) Espero que tenhas cancro na garganta». Esta foi uma das frases escritas à mão e encontradas pela biógrafa Spence, numa das cartas que Evangelia Dimitriadou escreveu para sua filha, Maria Callas. A partir dela, podemos ter algumas luzes daquilo que poderemos esperar desta nova biografia. 

Em declarações ao El País, a escritora conta que «quando Callas morava em Itália e era casada com Giovanni Menenghini (empresário, com quem se casou em 1949, com uma grande diferença de idades, ela com 26 e ele com 53 anos), apesar de no palco manter a postura e o profissionalismo, em casa não passava de mais uma mulher submissa na época». A cantora não tinha quaisquer direitos e era total propriedade do marido. Enquanto era casada com ele, engravidou de Aristóteles Onassis, empreendedor e magnata grego, tentando obter desesperadamente o divórcio americano antes do nascimento da criança, caso contrário, segundo a lei italiana, este pertenceria a Menenghini. «Infelizmente perdeu o bebé um dia depois do seu nascimento e essa foi a forma que teve de conseguir negar o boato de que havia um filho fora do casamento», conta a biógrafa.

Segundo esta, o acesso a estes materiais em primeira mão, foi fruto da «combinação entre sorte e profissionalismo». «Modéstia à parte, muitos biógrafos contam as histórias baseadas em livros já publicados, ou mesmo em informações de jornais», declara. 

Foi durante o confinamento que Spence conseguiu que tanto o arquivo da Universidade de Stanford como o da Universidade de Columbia lhe disponibilizassem o material que será a base desta biografia: cartas ao seu padrinho e cartas dolorosas que trocou com a sua mãe. Além disso, deste livro farão parte documentos muito reveladores do seu quotidiano, como os cardápios que escreveu e as instruções que dava à empregada para, por exemplo, fazer pão às sextas-feiras. «A cantora escreveu que esse pão seria apenas para cheirar e não para comer, já que lhe havia sido imposta uma dieta super rígida com o intuito de jamais voltar a ser obesa, como já o havia sido na adolescência», revela a biógrafa. 

Callas sempre foi muito franca nas suas correspondências e, por isso, é possível através destes materiais, lançar uma luz sobre algumas das questões que ainda pairam sobre ela. Tal como o facto da sua mãe ter tentado vendê-la para práticas sexuais a soldados nazis durante a ocupação alemã na Grécia, na Segunda Guerra Mundial. «Durante a sua vida, Callas, sempre afirmou que esta vontade da mãe nunca se chegou a realizar (...) Contudo, a sua irmã não teve essa sorte», adianta. Em 1940, quando as três já estavam fixadas em Nova Iorque, a mãe precisava de dinheiro para pagar as aulas de canto de Maria e, como a filha mais velha já tinha 19 anos, «vendeu-a sexualmente ao senhorio da casa onde habitavam», conta a escritora. 

Uma das maiores revelações presentes no livro é a ideia de que Onassis, em algumas ocasiões, conseguiu drogá-la abusando dela sexualmente, mas segundo a escritora é importante que se esclareça que a cantora sempre tomou os medicamentos voluntariamente: «Onassis gostava de tomar remédios que o deixassem drogado e esses medicamentos já faziam parte do seu estilo de vida (...) Mandrax, um sedativo-hipnótico feito de metaqualona, caracterizado como a droga para as festas dos anos 70 que relaxa o sistema nervoso, era o seu preferido (...) Maria Callas passou também a consumi-lo voluntariamente (...) O que acontecia era que, Onassis, aproveitava esse seu estado para lhe fazer coisas que hoje seriam classificadas como violação», esclarece. 

Sabe-se também que, anos depois disso, quando os sintomas da doença neuromuscular de que a cantora sofria desde os anos 50 se agravaram, esta voltou ao consumo do Mandrax, nessa altura ilegal na França (país onde morava) e, por isso, era a sua irmã Jackie que os enviava por correio, de Atenas.

Jackie gostava de ver a irmã necessitada e, mesmo no leito da sua morte, esta dizia em sinónimo de provocação «olha a Maria, aquela que sempre teve tudo», conta a biógrafa. «Essa foi uma das muitas traições que Callas sofreu na vida (...) Tal como o desgosto que teve por conta da mãe que, nas cartas a ameaçava de contar histórias suas à imprensa, se ela não lhe cedesse mais dinheiro», acrescenta. Nas cartas, a mãe escrevia: «conheces aqueles artistas de cinema de origens humildes que enriquecem? (...) Eles gastam todo o seu dinheiro ajudando os seus familiares, inclusive comprando casas e mimando com luxos os pais (...) O que é que tens a dizer sobre isso, Maria?». Também o pai a tentou roubar com um ‘teatro’ à volta de uma doença grave que nunca existiu. Segundo Spence, «ele escreveu-lhe uma carta, fingindo que estava a morrer num hospital para mendigos na tentativa de conseguir algum dinheiro, mas na verdade, ele apenas tinha uma doença leve». 

Para além das tristezas familiares, Callas também sofreu de uma grande frustração tendo em conta a relação que mantinha com o seu marido, bem como a relação que teve com Onassis, que mais tarde se casou com a sua irmã. No livro Cast a Diva: The Hidden Life of Maria Callas, é criada uma linha temporal bastante clara que explica como funcionava o triângulo Onassis-Kennedy-Callas. «Jackie e Onassis encontravam-se muito antes de se casarem, em 1963 (...) Cinco meses após o assassinato de John Kennedy, o grego já lhe pagava um apartamento em Nova Iorque», explica a escritora. O casamento entre o bilionário e a viúva da América aconteceu poucos dias depois de Callas e Onassis terem tido uma grande discussão em Londres. Após a discussão, o empreendedor foi para os Estados Unidos da América e logo começou a redigir o contrato de casamento que o uniria a Jackie. Depois disto, Callas desenvolveu uma grande depressão e refugiou-se em Paris, local onde ficou a saber do noivado através de um mordomo de Onassis. Apesar disso, quando recebeu a notícia «ao contrário de outras separações que eles tiveram, ela reagiu (...) Maquilhou-se, vestiu um casaco de vison e foi à estreia de um filme», partilha a biógrafa.

Após dois anos de pesquisa, onde viveu mergulhada nas cartas e tragédias de Callas, Lyndsy Spence acabou por criar uma relação de extrema intimidade com a cantora. «Havia alturas em que eu lia as cartas e pensava ‘Maria, como é que tu viveste isto?’ (...) Sinto-me muito protetora com ela, mas mantive uma postura objetiva e honesta em tudo aquilo que escrevi (...) Nem tudo é preto ou branco», sublinha. 

Segundo o El País, que realizou a entrevista com a escritora por telefone, o seu tom mudou quando se referiu a morte da cantora: «Fico muito zangado quando dizem que ela morreu porque estava com o coração partido», exalta. Em 1977, vivia de uma forma muito frágil no seu apartamento em Paris e era totalmente dependente tanto da irmã como do seu último companheiro, Vasso Devetzi, que lhe administrava as drogas.  

Callas morreu aos 53 anos, em 1977 e, no material não publicado que estará presente no livro, será possível conhecer novos insights sobre os seus problemas de saúde que afetaram o seu desempenho na década de 60, bem como a sua dependência de drogas. Spence conta ainda que localizou o neurologista que tratou a diva antes da sua morte: «Callas sofria de um distúrbio neuromuscular cujos sintomas começaram na década de 50, mas foi considerada pelos médicos como ‘louca’, isso também acaba por explicar a sua perda de voz em várias alturas da sua carreira», revela. «É uma história angustiante, cheia de tristezas e tragédias (...) O meu objetivo sempre foi devolver-lhe a voz», remata Spence. 
Cast a Diva: The Hidden Life of Maria Callas será publicado pela The History Press no primeiro dia de junho de 2021.  

A infância infeliz 

Quando nasceu, a sua mãe não quis vê-la durante bastante tempo e fazia de tudo para a ignorar até que descobriu o seu talento na música e, aos 5 anos, obrigou-a a ter aulas de canto. Callas pesava mais de 100 quilos na sua pré-adolescência, era míope, tinha o nariz grande, braços largos e sobrancelhas grossas, o que lhe valeu muito sofrimento já que a sua irmã Jackie era considerada lindíssima e recebia toda a atenção da família. 

A dieta radical

Em 1953, Callas pesava 108 quilos (peso excessivo para a sua altura de 1,75m). E, depois de ouvir a sua estilista a dizer que nada lhe servia, começou uma dieta louca e polémica que envolvia a ingestão de parasitas. Dentro de uma taça de champanhe comeu uma ténia (parasita intestinal que absorve nutrientes dos alimentos, causa vómitos e diarreias e pode até matar). Num ano perdeu 38 quilos, procurou uma estilista para redesenhar o seu guarda-roupas e virou ícone de estilo e beleza.

Temperamento difícil 

Diz-se que os génios costumam ter um temperamento difícil e Maria não foi exceção. A sua mãe explicou algumas vezes que a filha havia nascido num dia de grande tempestade, o que teria influenciado o seu grande sucesso. A cantora tinha um problema com o perfeccionismo, o que a fazia entrar em conflito com maestros e companheiros de trabalho. Chegou a ser demitida do Metropolitan Opera, de Nova Iorque, e do Scala, em Milão.

Maria Callas não gostava da sua voz 

A excecional cantora de soprano chegou a afirmar numa entrevista, que não gostava da voz que tinha, «eu odeio ouvir-me a mim mesma». A primeira vez que ouviu uma gravação do seu canto foi na San Giovanni Battista de Stradella, uma igreja em Perugia, em 1949. «Eles fizeram-me ouvir a fita e eu chorei (...) Queria parar tudo, desistir de cantar», revelou a artista.