Cultura

Ko-i-noor. A maldição da Montanha de Luz

O seu brilho cegou o mundo, de oriente a ocidente. Há nos seus reflexos únicos riscos vermelhos de sangue porque a sua posse conduziu às guerras e a milhares e milhares de vítimas. Dizem que é o símbolo do poder. Londres mantém-no em sua posse apesar de outros o reclamarem


Ainda hoje o seu brilho cega aqueles que não resistem à intrínseca magia que possui. Ko-i-noor: em farsi significa Montanha de Luz. Encontra-se na coroa da rainha de Inglaterra e é um dos maiores diamantes do mundo, com 105,6 carats, o equivalente a 21,12 gramas. William Darlymple, um dos mais prolíficos escritores sobre as culturas asiáticas, dedicou-lhe um livro, a meias com Anita Anand, com bastante sugestivo: Koh-i-Noor: The History of the World’s Most Infamous Diamond. Uma joia amaldiçoada. E logo a mais bela de todas.

O Ko-i-noor passou a sua existência a mudar de mãos: pertenceu à Índia, à Pérsia, ao Paquistão e ao Afeganistão. E, como sempre essencialmente práticos, os ingleses ficaram definitivamente com ele no fim da IIGuerra Anglo-Sikh, tendo sido entregue à rainha Victoria. Dizem que a Montanha de Lua está raiada de sangue desde que um mineiro a arrancou à terra à milhares de anos numa mina aluvial no Punjab. Dedicaram-na a Krishna. Alimentou rivalidades e guerras nas cortes dos rajás por onde passou até que esse braço armado da ganância ocidental, a Companhia Britânica das Índias, se apoderou dela com mão de ferro. Contrariando a vontade de indianos e persas de a terem de volta e a assumirem como propriedade sua. A luz da Montanha continua a cegar.

Até ao aparecimento das minas do Brasil, a Índia foi o maior produtor de diamantes do mundo. A maior parte das grandes gemas encontradas foram à beira de rios e de riachos. E os diamantes, bem como as safiras e esmeraldas, eram usados pelas mulheres como distinção social, só ao alcance das castas superiores, às esposas de príncipes e marajás. Quando o chefe turco-mongol, Zahir-ud-din Babur, atravessou o Kyber Pass e entrou na Índia pelo Afeganistão no ano de 1526, o sangue escorreu livremente pelas ruas das cidades. A nova dinastia mongol era fascinada por pedras preciosas. A quimera tornou-se uma obsessão. Durante 330 anos, os imperadores mongóis dominaram o norte da Índia, o Paquistão, o Afeganistão e a zona de Bengala. Os seus tronos, as suas roupagens, os seus artefactos eram de um brilho nunca visto. As lendas foram crescendo em seu redor e eles espalharam por toda a parte os seus templos inimitáveis.

A pergunta sem resposta

Por maiores que tenham sido os esforços para conseguir encontrar a origem específica do Ko-i-noor, a empreitada ficou sem solução. Mas é possível estabelecer o momento em que o diamante gigantesco surgiu brilhando intensamente pelo meio da palavra escrita. Em 1628, Sha Jahan, o imperador mongol, adquiriu uma pedra extraordinária para colocar no seu trono de marfim e pedrarias. Algo que nenhum olhar tinha observado até então.

O trono de Jahan demorou a eternidade de sete anos a ser concluído. O soberano queria que ele fosse ainda mais extraordinário do que o lendário trono de Salomão, o rei dos Hebreus, venerado pelo islamismo e pela cristandade. Ao mesmo tempo, Sha Jahan, que era um rapaz sensível e melancólico, dado a momentos de fraqueza quase histérica, erguia em Agra, na margem esquerda do rio Yamuna, o mais magnífico dos mausoléus que o sol alguma vez iluminou: o Taj  Mahal, um gigantesco edifícios de mármore branco com recortes requintados que serviu de última morada para a mulher por quem se apaixonara incondicionalmente, a princesa Mumtaz Mahal. Se o Taj era uma obra para lá do imaginável e custou fortunas inconcebíveis, o Trono do Pavão, como ficou conhecido, conseguiu ficar ainda mais caro. Do pavão, claro, porque é o pavão a ave que representa a Índia. «No topo de cada uma das partes do trono estavam dois pavões esculpidos em mármore e cujas caudas explodiam de cores por causa da abundância de pedras preciosas», esceveu Ahmad Sha Lahore, o cronista da corte de Jahan. «Por detrás dos pavões, erguia-se uma árvore enfeitada com rubis e esmeraldas, pérolas e diamantes». Por entre tamanha exibição de riqueza, duas pedras marcavam o poder incontestado dos mongóis: o rubi Timur e o diamante Ko-i-noor. E acrescente-se que para os indianos, que sempre tiveram uma atração irresistível por cores, o Timur era bem mais apreciado.
É provavelmente verdade que cada coisa tem o valor que por ela quiserem dar. Nesse aspeto, a Montanha de Luz mexeu com a ambição e a luxúria de muita gente. Cem anos após o Trono do Pavão ter sido construído, os mongóis ainda eram o povo mais poderoso do oriente. A capital, Delhi, tinha bem mais de dois milhões de habitantes, um número superior ao de Paris e Londres juntas. A sua fama de prosperidade trouxe consigo uma nova guerra. O xá persa Nader resolveu reunir um exército poderoso e tomar Delhi de assalto. Não houve quem pudesse impedir a carnificina que se seguiu.

O saque de Delhi

Shah Nader não fazia quaisquer tensões de se instalar em Delhi. Ordenou a pilhagem imediata da cidade para que os seus homens pudessem regressar a casa. A sua despedida não deixou saudades, mas deixou um rasto de saque absolutamente selvagem. Mais de 700 elefantes, quatro mil camelos e doze mil cavalos foram necessários para carregar o ouro e as pedras preciosas acabadas de roubar. O Trono do Pavão não escapou à pilhagem, mas Nader não demorou muito a arrancar o Timur e o Ko-i-noor à magnífica estrutura. Preferiu fazer com eles um colar que tratou de enrolar à volta do pescoço.

A Montanha de Luz abandonava pela primeira vez a Índia. Estava agora no Afeganistão. O seu olho brilhante de sangue deixara a cidade de Delhi banhada num horrível espetáculo de mortos e amputados por tudo o que era rua e praça da cidade. Já havia quem agradecesse o gesto do xá. O Ko-i-noor estava amaldiçoado desde o primeiro momento em que um mineiro miserável foi atraído pela sua luz. Nos 70 anos que se seguiram, uma série de combates fratricidas provocaram milhares e milhares de vítimas. Ao contrário do que seria de esperar, os mais crentes, não atribuíam o mal ao Timur, que era vermelho-sangue, e deitavam as culpas para o diamante que refletia todas as cores do universo.

Episódios descritos por cronistas da época davam bem a ideia da barbárie que se instalara na região. Um governante chegara a depor outro e, como escárnio, obrigou-o a assistir ao espetáculo macabro de arrancarem os olhos ao próprio filho para, em seguida, numa pantomima de coroação, lhe terem rapado o cabelo e despejado sobre a cabeça ouro derretido. É nesta fase de profundo vácuo de autoridade, que se estendia desde o Cáspio a toda a Índia, que os ingleses irão aproveitar para assumir de uma vez por todas a estratégica colonial que germinava neles de há muito tempo a essa parte.

No início do século XIX, a poderosíssima Companhia Britânica do Oriente, que conseguiu manter um exército próprio à custa do recrutamento pago dos cipaios, ou soldados locais, espandiu a sua influência a todo o sub-contimente. Não tardariam a recolher nas suas garras o Ko-i-noor que, entretanto, regressara à Índia pelas mãos de um príncipe sikh, Ranjit Singh, em 1813. 

Ranjit via na Montanha de Luz algo mais do que um diamante e do que o seu valor como pedra. As gemas tinham para ele um valor simbólico, praticamente religioso. Anand e Darlymple escreveram sobre essa mudança radical na vida do Ko-i-noor: «The transition is startling when the diamond becomes a symbol of potency rather than beauty. It becomes this gemstone like the ring in Lord of the Rings, one ring to rule them all». 

A famosa ganância dos ingleses estava à beira de provocar mais maldições em redor do maior diamante do mundo.

Uma luz irresistível

Quando compreenderam que para os asiáticos em geral o Ko-i-noor se tinha transformado num símbolo de poder, os ingleses decidiram que, nesse caso, cabia-lhes deter esse símbolo. Afinal eram eles que regulavam todo o sub-continente e tinham erguidos milhares e milhares de quilómetros de linhas de caminhos de ferro de forma a poderem deslocar com a velocidade necessária tropas para qualquer lugar onde surgissem ameaças de rebelião.

Os membros da Companhia das Índias, que era uma empresa independente, por quotas, da qual a coroa britânica só possuía o valor dos seus títulos, decidiram que para além da Índia queriam também o Ko-i-noor. E estavam dispostos a provocar mais uns rios de sangue por causa do maldito diamante. Após a morte de Ranjit, em 1839, a imprensa inglesa entrou em ebulição por via de o falecido ter tomado a decisão de dividir a pedra por outros chefes sikhs que lhe eram próximos. O assunto não tardou a tornar-se uma espécie de desígnio nacional. «Se a Índia é nossa, o Ko-i-noor também!»

Os ingleses instalados na Índia sentiam alguma urgência na resolução do problema, mas havia ainda outro problema bem mais difícil de solucionar: o Punjab entrara numa daquelas lutas pelo poder nas quais o trono vai passando de traseiro em traseiro como o jogo das cadeiras da miudagem. E por falar em crianças, quem acabou por ser nomeado chefe dos punjabis foi um garotinho de 10 anos apenas, chamado Duleep Singh. Eis que a Companhia das Índia estava como queria. Mandou encarcerar a mãe de Duleep, Jindan, que funcionava como regente, e só a libertou após o miúdo ter assinado um documento que tornava nulo o antigo Tratado de Lahore, sendo o mais importante dessa resolução, para a matéria que nestas páginas se discute, a admissão por parte de Duleep renunciando de vez à autonomia do Punjab e à entrega imediata da Montanha de Luz.

Como sempre, os ingleses, com a colaboração prestimosa da sinistra Companhia das Índias, cujos navios estavam mais predispostos a assaltar as caravelas portuguesas e espanholas que vinham carregadas de especiarias do Oriente do que em deslocarem-se às suas feitorias da Costa do Coromandel onde estavam livres para negociarem livremente, levavam a melhor sob os seus subordinados.

Em Londres, a rainha Victoria, recebia com agrado a notícia de que o Ko-i-noor passara a ser, definitivamente, um objeto para usar a seu bel-prazer. Infelizmente para ela, não foi possível encontrar o Trono do Pavão intacto para lhe ser igualmente entregue. Na Grande Exposição de Londres de 1851, a Montanha de Luz exibia-se, finalmente, perante o basbaques europeus que rodeavam a sua vitrina ferreamente vigiada. Numa reportagem feita pelo The Times, a frase surgiu, devastadora: «Many people find a difficulty in bringing themselves to believe, from its external appearance, that it is anything but a piece of common glass».

Sem qualquer tipo de respeito pelo significado cultural que o Ko-i-noor significava para muitos povos asiáticos, o Príncipe Alberto, marido de Victoria, ordenou que a pedra fosse polida e recortada o que a reduziu a metade do seu tamanho. A rainha tirava prazer em apresentar-se com ela ao peito, à moda de diadema, e aproveitava o seu efeito visual para largar algumas larachas, esquecendo por completo os milhares e milhares de pessoas que tinham morrido para que ela pudesse estar ali, de chávena de chá na mão e dedo mindinho estendido, a perorar sobre um objeto que não distinguia de muitos outros que se empilhavam nas suas régias gavetas.

Ficou estabelecido legalmente que o Ko-i-noor seria pertença da Coroa de Inglaterra, passando a fazer parte das Joias da Coroa, sucessivamente passadas aos soberanos que se seguiriam. Algo de triste para a antiga Montanha de Luz, a peça mais brilhante de tantas cortes, agora atirada para uma insuportável vulgaridade.

Foi preciso que a esposa do Rei Jorge V, neto de Victoria, subisse ao trono para que a rainha que o acompanhou, Maria, tomasse uma decisão digna do maior diamante do mundo. Por causa dela, a Montanha de Luz foi incrustada na coroa britânica, na frente, num lugar de indiscutível destaque. Mas a controvérsia não passou ao lado desta atitude, até porque a Índia continua a reclamar a posse do diamante. Darlymple utilizou, no seu livro, uma frase bastante clara sobre os sentimentos misturados que o Ko-i-noor provoca: «If you ask anybody what should happen to Jewish art stolen by the Nazis, everyone would say of course they’ve got to be given back to their owners. And yet we’ve come to not say the same thing about Indian loot taken hundreds of years earlier, also at the point of a gun. What is the moral distinction between stuff taken by force in colonial times?». Anand, sua co-writter, não consegue libertar-se do seu sangue indiano: «De cada vez que vi a coroa com o Ko-i-noor, exposta na Torre de Londres, amaldiçoei os que saquearam as nossas riquezas sem o mínimo respeito por tido aquilo que significavam para nós».

A Maldição da Montanha Mágica é, afinal, uma metáfora. A metáfora de que os poderosos continuarão a deter o poder de tratarem como quiserem os que não têm poder. Aquela pedra brilhante que se encontra na coroa de Inglaterra representa um domínio do mundo que já foi de quem a usava. E continua ali, encravada, como uma flecha de diamante entre as terceiras e quartas costelas de sikhs, hindus, mongóis e todos aqueles que por ela derramaram sangue nos confins da Ásia...