Cultura

"Foi o artista decisivo nos últimos 20 anos em Portugal"

Albano Silva Pereira evoca Julião Sarmento e a relação de amizade que mantiveram ao longo de décadas. E garante que está a preparar uma grande exposição de homenagem ao amigo agora desaparecido. ‘O Julião merece e eu vou obviamente honrar’.

A notícia do desaparecimento de Julião Sarmento, aos 72 anos, apanhou grande parte do meio cultural português de surpresa. O intervalo entre o diagnóstico e a morte foi tão curto que muitos ignoravam até que estivesse doente. Mas não os amigos do seu círculo próximo. «Eu sabia que a situação se estava a afunilar, que era muito, muito delicada», explica Albano Silva Pereira, diretor do Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra, e amigo de longa data do artista plástico. «Cada vez mais, sinto que os ‘dinossauros’ estão a desaparecer...», desabafa, com o que descreve como um misto de «orgulho, gratidão e uma grande tristeza».

«Estávamos sempre a telefonar um ao outro, a dizer que temos de nos encontrar, temos de jantar, depois desta tragédia do covid», prossegue Albano. «O Julião tem uma casa deliciosa, tem uma família deliciosa, gosta de receber os amigos e recebe muito, muito bem».

A relação entre os dois – de respeito intelectual, mas também de cumplicidade pessoal – atravessou décadas. Remonta aos anos 80, quando Albano (a quem Julião chamou «coleccionador de afectos e de ódios») organizava os Encontros de Fotografia em Coimbra. Fez-se de trocas de correspondência, de permutas de obras de arte, de projetos comuns, de apoio nos momentos difíceis, de muitos jantares e até de festas. «E temos uma coisa em comum:_ambos gostámos sempre muito de mulheres», confessa. Essa camaradagem resultou, por exemplo, em Quatre Mouvements de la Peur, uma instalação de Julião no Edifício das Caldeiras, em 1995, no âmbito dos Encontros de Fotografia – «quando as Caldeiras ainda eram uma sala de carvão», recorda Albano. «Construímos uma exposição absolutamente divinal». Quase vinte anos mais tarde, em 2013, Julião comissariou Uma faca na Areia (Galeria Appleton Square), em que exibiu as fotografias que o amigo lhe tinha oferecido. Para Albano, «foi verdadeiramente surpreendente», na altura, que «um artista desta dimensão» lhe propusesse ser curador de uma exposição sua. «Não é vulgar», resume.

 

‘Era festivo sem ser show-off’

Albano caracteriza o artista plástico como «um indivíduo extremamente curioso, um lutador, um gajo positivo. Era um homem festivo sem ser show-off, era um homem da vida, extremamente telúrico. Queria conhecer pessoas que estavam a começar a construir a sua obra e apoiava-as. Nunca se fechou nas estrelas, foi sempre um homem aberto ao mundo, estava sempre a querer descobrir coisas novas», garante. Embora o seu estatuto internacional lhe permitisse expor em grandes galerias dos Estados Unidos da América e do Brasil ou nas instituições de arte contemporânea mais prestigiadas da Europa, «nunca esqueceu os novos», frisa Albano. «E foi sempre solidário. Sendo um artista de uma qualidade e com um poder naturalmente único neste país, estava sempre disponível para apoiar». Ao contrário, comenta, do que é habitual nos grandes artistas, que podem até envolver-se em campanhas humanitárias, e esquecer-se de quem está mais perto: «A maior parte dos grandes artistas esquecem-se. Pensam na família, pensam nos bens materiais, pensam na sua obra, pensam na posteridade, por aí adiante. O Julião pensava nos novos. Uma das particularidades mais interessantes das suas festas de aniversário era descobrir caras novas. E todos se afirmaram na arte contemporânea em Portugal».

Esse traço, considera o diretor do CAV, tinha que ver com o percurso profissional de Julião Sarmento. «Ele trabalhou na Direção Geral das Artes, por isso conhecia bem os meandros do poder, dos financiamentos, dos subsídios». E os obstáculos que os agentes culturais enfrentam. «Isso era das particularidades mais tocantes», continua, emocionado. «Um artista com a qualidade, com poder que o Julião tinha, não precisava de estar a pensar nesta componente solidária».

 

‘Em 2022 vamos fazer uma grande exposição’

Numa das últimas conversas que tiveram, combinaram fazer uma exposição da obra de Julião no CAV, uma instituição que atravessa dificuldades crónicas por escassez de financiamento. «Albano, eu estou contigo, vamos fazer uma exposição». E o projeto está em marcha. «Em 2022 vamos fazer uma grande exposição de homenagem ao Julião. O Julião merece. Merece e eu vou obviamente honrar», garante o diretor do CAV.

«O Julião foi o grande artista que cruzou disciplinas, que de facto ultrapassou a pintura, o pintor, com a performance, com a fotografia, com o filme, com tudo. Diria que o Julião foi o artista decisivo nos últimos 20 anos em Portugal», resume. «A obra do Julião é de um português extremamente inteligente, que conhece bem os limites de Portugal». E chama a atenção para uma particularidade: «Foi o primeiro artista, com exceção da Vieira da Silva e da Paula Rego – que saíram do país, atenção – a impor-se a nível internacional. O Julião esteve sempre a viver em Portugal. Percebeu os limites mas também percebeu as potencialidades. E a primeira potencialidade do Julião era a qualidade da obra dele, a qualidade do olhar dele, do diálogo dele, com as pessoas, com as galerias. Foi o primeiro na arte contemporânea portuguesa a estabelecer essas pontes».

 

Nunca quis ser estrangeirado

Nascido em 1948, Julião Sarmento não era bom aluno: preferia a sala de cinema à sala de aula e teve em Antonioni, revelou em entrevista ao i, o seu primeiro mestre. Frequentou Pintura e Arquitetura na Escola de Belas-Artes, para concluir que não tinha nada a aprender ali. Profundamente avesso ao ambiente que se vivia em Portugal, exultou com o 25 de Abril. Depois da revolução, passou pela Secretaria de Estado da Cultura, quando esta era tutelada por David-Mourão Ferreira. Só a partir de 1985 se dedicou exclusivamente à criação artística, tornando-se o primeiro artista português a conquistar estatuto internacional residindo no país. Sobre isso diria: «Nunca quis ser um daqueles artistas estrangeirados que vivem em Paris, mas vêm a Portugal fazer exposições. Sempre preferi ser o que ia a Paris fazer exposições». E fez, não só em Paris, mas por toda a Europa – Witte de Witte (Roterdão, 1991), Reina Sofia (Madrid, 1992) –, EUA, Brasil, México.

Apreciador dos prazeres da vida, disse na mesma entrevista ao i que não pensava no fim: «Porra, não! Farei os possíveis para não morrer, mas, se acontecer, que seja o mais tarde possível». O_mais tarde possível foi na manhã da passada terça-feira, na Fundação Champalimaud, onde estava a fazer tratamentos.