De Mala Pronta

Crónica de um país desamparado

Enquanto todos estão com a cabeça na Lua e a sonhar com Marte, quem é que se preocupa com o sofrimento na Terra? 

As últimas semanas em França foram tudo menos monótonas. O país começou a desconfinar-se no dia 3 de maio. Este processo vai decorrer em quatro fases e a vida de antes (que nunca será totalmente igual) só será recuperada a partir de 30 de junho. Até lá, continuaremos a caminhar a passinhos de bebé e em pezinhos de lã. Mas as diversas notícias que encheram as páginas da imprensa e abriram os jornais televisivos ocorreram ainda durante o confinamento.
Vamos aos factos, por ordem cronológica:

A 14 de abril ficamos a saber que Kobili Traoré não será julgado pelo assassinato de Sarah Halimi, cidadã judia de 65 anos. O crime ocorreu em abril de 2017. Nesse dia, o cidadão muçulmano, de 27 anos, espancou e empurrou a vizinha pela janela do terceiro andar, gritando «Allah Akbar» e «eu matei o sheitan (Diabo)». O juiz decidiu inocentar o assassino alegando que este estava em estado psicótico devido ao consumo de droga. A opinião pública ficou perplexa e revoltada.

Foram organizadas manifestações nas principais cidades do país. Muitos perguntam qual teria sido a decisão se tivesse sido um judeu a matar um muçulmano. Uma dúvida legítima num país onde ainda ocorrem crimes antissemitas. A insegurança sentida pela comunidade judaica tem originado uma diáspora massiva. Entre 2000 e 2017 55.049 judeus trocaram França por Israel. Tenho duas amigas que decidiram levar a família para Haifa e Telavive e não se arrependem.

22 de abril foi mais ligeiro e divertido. Nesta data, o primeiro-ministro francês, Jean Castex, recebeu 200 cuecas que lhe foram enviadas por 500 comerciantes independentes. Esta iniciativa surgiu através do Facebook e pretendia exigir a abertura imediata do comércio local. O movimento dos ‘200 culottes’ inspirou-se num outro que ocorreu no início da Revolução Francesa. Em 1789, os ‘sans-culottes’ (sem cuecas) manifestaram-se vestidos de calças compridas e largas, opondo-se às tradicionais calças curtas e justas (culottes) usadas pela aristocracia. Espero que tenham acertado no tamanho das cuecas da mulher do primeiro-ministro. Seria uma pena desperdiçar tanta lingerie! 

23 de abril foi marcado por um acontecimento trágico. Nesse dia, uma funcionária da Polícia de Rambouillet (perto de Paris), foi assassinada por um cidadão tunisino. O modus operandi não é desconhecido das autoridades. Os terroristas não procuram ser originais, mas sim eficazes. Jamel G. serviu-se de uma faca para degolar a vítima, não sem antes gritar «Allah Akbar». O terrorista, de 36 anos, foi abatido de imediato. A família diz que sofria de depressão. Uma singela forma de justificar a radicalização islamista que o fez passar ao ato monstruoso. Stéphanie M. trabalhava na polícia há 28 anos, tinha 49 anos e dois filhos de 13 e 18 anos. O mais triste é que os ataques terroristas em França são tão frequentes que quase não provocam comoção. 

Fecho esta cronologia com uma nota positiva. Na manhã de 23 de abril, na Florida, o astronauta francês, Thomas Pesquet, embarcou na cápsula Crew Dragon Endeavour para explorar a adaptação do corpo humano no espaço. A missão Alpha vai durar seis meses e Pesquet, que já integrou outras missões, é a coqueluche do país que vê nele o herói capaz de devolver a esperança à nação. A estrela internacional, fortemente elogiada pela NASA, tem um vasto clube de fãs que vão dos 5 aos 101 anos. Mas enquanto todos estão com a cabeça na Lua e a sonhar com Marte, quem é que se preocupa com o sofrimento na Terra?