Cultura

Napoleão Bonaparte. Nem o mais brilhante dos generais venceu as areias do deserto

Comandando 400 navios e mais de 54 mil soldados, o imperador da França – cuja morte se deu há exatamente 200 anos – lançou sobre o Egipto uma invasão que ia muito para além da mera ambição militar. Os cientistas que o acompanharam deram origem à egiptologia.

No dia 1 de julho de 1798, Napoleão desembarcou no Egipto. Ia ao comando de 400 navios e de um exército que ultrapassava os 54 mil homens. Acabara de subjugar a Itália, pelo menos em parte, e caminhara para sul, para esse chamado do Nilo ao qual ninguém consegue resistir. Mas havia algo para além da guerra e dos combates. Napoleão Bonaparte, nascido em Ajaccio, na Córsega, no dia 15 de agosto de 1769, vinha absorvido por uma curiosidade mórbida sobre a velha civilização egípcia. Juntamente com as suas tropas, chegaram ao norte de África um grupo de 150 dos melhores cientistas franceses, a sua grande maioria perita em egiptologia. Nunca se vira uma invasão com tais características. Não se resumia à conquista do solo desse país fascinante; era altura para desvendar os segredos de um culto milenar que mantinha os estudiosos em constante fascínio.

Enquanto as escaramuças militares se multiplicavam por aqui e por ali, os sábios do imperador espalharam-se de Gizé a Abu Simbel. Os registos topográficos foram tão meticulosos como nunca até aí, o registo sobre tudo o que era animal e plantas tornou-se de uma precisão impressionante, minerais foram recolhidos e classificados, os trilhos comerciais foram escrutinados, os templos de Luxor, Philae, Dendera e do Vale dos Reis foram medidos, mapeados e desenhados até ao mais pequeno dos seus detalhes. Nunca o mundo soubera tanto sobre o Egipto dos faraós. E essa foi a maior conquista de Napoleão.

Há que acrescentar que o pelotão de cientistas que acompanhou o exército francês, tomou a decisão prévia de começar a publicar em cadernos universitários e em revistas históricas, toda a panóplia de objetos que fosse trazendo à luz do sol. De certo modo pode dizer-se que foi uma das primeiras reportagens perfeitamente organizadas da história do jornalismo. Mesmo depois do seu regresso a França, avançaram para a publicação de Description de l’Égypte, uma obra gigantesca dividida em 23 volumes e, fisicamente, alguns dos maiores livros editados até então, com mais de um metro de altura de capa e contendo, em média, cerca de 800 gravuras.
Claro que, apesar da importância científica deste avanço de Napoleão pela zona do Egipto e, sem seguida, pela Síria, não tinham como objetivo primordial o altruísmo do conhecimento popular de uma das mais antigas civilizações do mundo. Bonaparte era bem mais ganancioso do que isso, como está bem de ver. A estratégia era de tal forma ambiciosa que o Grande Corso imaginou atingir as fronteiras da Índia para, aí chegado, obter um contrato comercial com o poderoso Tipu Sultan de forma a ocupar o espaço que os ingleses tinham ocupado nessa rota comercial.

Do alto destas pirâmides...

A aventura de Napoleão Bonaparte na sua campanha do norte de África daria para encher vários livros do imarcescível Júlio Verne. A começar pela universal frase que dirigiu aos seus soldados à sombra da pirâmide de Keops: «Soldados, do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam!»
A expressão tem tudo o que pode sublinhar o homem que submeteu os hititas, mas está longe da grandiosidade prometida nas entrelinhas. O Egipto acabaria por se tornar um inferno e a segunda maior derrota napoleónica depois da campanha da Rússia. Os historiadores ainda hoje lhe apontam um erro fatal, um daqueles erros que Napoleão nunca aceitava como seus tal a enormidade do seu ego. Ao fazer com que 37 mil dos seus soldados atravessassem o deserto em vez de seguirem pelas margens do Nilo a partir de Alexandria, condenou-os aos efeitos devastadores do sol e das tempestades de areia, à desidratação e à desorientação próxima da loucura. Claro que, perguntareis vós, e a Batalha das Pirâmides? Como falar de um derrotado quando se escreve sobre o grande vencedor da Batalha das Pirâmides?

Talvez tenha sido esse momento de inusitada euforia que colocou, em seguida, Napoleão Bonaparte perante dilemas que não conseguiu resolver com o discernimento necessário. Não sobram dúvidas que a Batalha das Pirâmides, ou Batalha de Embabeh, no planalto arenoso de Gaza, foi um dos maiores feitos de Napoleão e do seu génio como estratega militar. A sua inédita conversão do movimento de cavalaria num quadrado em movimento permanente serviram-lhe para derrotar os até aí invencíveis mamelucos. 21 mil soldados egípcios tombaram perante a superioridade tática do imperador dos franceses. Mas a brilhante vitória teve o seu lado negro. Gravemente preocupados com os seus interesses comerciais na região e, a partir daí, na velha Rota da Seda, os ingleses fizeram partir para o Mediterrâneo uma esquadra preparada para os combates mais violentos. Ao mesmo tempo que os franceses derrotavam e humilhavam os mamelucos, os seus navios, estacionados no porto de Aboukir, eram atacados pelos barcos de bandeira britânica. À frente da esquadra inglesa estava outro daqueles homens que a história carrega carinhosamente ao colo: Horatio Nelson, 1.º Visconde Nelson, uma das mais fascinantes personagens das guerras napoleónicas. Nelson, ao desfazer a esquadra francesa, reduziu os soldados de Napoleão aos confrontos em terra, tapando-lhe ao mesmo tempo a saída pelo mar.

Regresso à ciência

Dando a si próprio o título de Senhor do Egipto, Napoleão voltou a debruçar o seu interesse pela história da civilização dos faraós. É preciso acrescentar que estava basicamente bloqueado na região e que não via grandes soluções para resolver o problema que ele próprio tinha criado.
A despeito da dolorosa derrota de Aboukir, que os ingleses preferem chamar de Batalha do Nilo, não perdeu a confiança. Era demasiado orgulhoso para ser derrotado e mais orgulhoso ainda para ser capaz de aceitar uma derrota. Depois de ter estudado pormenorizadamente a situação em que se encontrava, resolveu tomar medidas drásticas. Em 1799, acompanhado pelo seu braço direito egípcio, Raz Roustan, e levando consigo várias centenas de prisioneiros mamelucos, abandonou o Egipto. A maioria da sua frota já tinha sido empurrada para longe pela armada inglesa de Nelson.

O regresso a casa de Napoleão Bonaparte foi visto por muitos como uma enorme conquista. A cerca de centena e meia de cientistas que levara consigo, e que consigo voltaram a França, formada por arqueólogos e arquitetos, médicos e geógrafos, engenheiros e especialistas em lexicografia, desvendara muitos dos segredos do Nilo. Roubara a Pedra de Roseta,  fragmento de uma estela de granodiorito erigida no Egipto Ptolemaico, cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios e deu início a um novo ramo do conhecimento, a egiptologia. Foi através dela que um jovem professor chamado Jean-François Champollion e nascido na mesma altura em que Napoleão derrotava os mamelucos, conseguiu a fantástica proeza de traduzir os hieróglifos egípcios. Champollion era um fenómeno intelectual da maior grandeza. Com dezasseis anos dominava uma dúzia de línguas, e com vinte anos controlava por completo o latim, o grego, o hebreu, o amárico, o sânscrito, o árabe, o siríaco, o caldeu, o  persa e o chinês, sem contar naturalmente com o francês, sua língua materna. Na fase em que era  professor de História da

Faculdade de Letras de Grenoble, teve acesso Pedra de Roseta que Napoleão trouxera do Egipto e dedicou-se por completo, com um fascínio incontrolável, pela compreensão do funcionamento da escrita egípcia antiga, acabando por decifrar os hieróglifos em 1922.

O regresso de  Napoleão

Quando Napoleão Bonaparte decidiu que não havia nada mais para fazer no Egipto, a França esperava-o e, com ela, novos planos ambiciosos para o alargamento do império. Depois de uma reunião levada a cabo com o exército britânico e que levou a uma troca de prisioneiros, assumiu a retirada. Pelas notícias entretanto recebidas através de um informador particular conhecido simplesmente por Sidney Smith, não lhe restaram dúvidas que a França precisava urgentemente da sua presença. A ordem estava posta em causa, os conflitos internos pareciam intermináveis, vários territórios anteriormente conquistados tinham-se libertado do jugo do império, o país estava à beira do caos.

Para Napoleão, o abandono do Egipto era, no mínimo, frustrante. Por esse motivo não comunicou ao exército a decisão de partir e manteve-a guardada no seio de um grupo de amigos mais íntimos. Invocando uma viagem pelo delta do Nilo, tomou o caminho de França no início de Janeiro acompanhado simplesmente pelos professores Monge e Berthollet, pelo pintor Denon, que guardara na tela a sua célebre imagem em frente das pirâmides de Gizé, e pelos generais Berthier, Murat, Lannes e Marmon. Tomaram o seu lugar a bordo da fragata Muiron e largaram do porto de Alexandria pela calada da noite. Cercados por navios ingleses, Napoleão ainda teve tempo para uma das suas fanfarronadas: «Chegaremos ao nosso destino. Mesmo apesar dos ingleses. Afinal, a sorte nunca nos abandonou».

Uns meses mais tarde, a notícia de que o imperador se voltara a instalar em França, deixando o exército egípcio sob o comando do general Kléber, ergueu um movimento de revolta terrível. Sentindo-se abandonados pelo homem a quem sempre estiveram dispostos a entregar a vida dispuseram-se a uma revolta que teria posto em causa toda a estrutura do exército francês. Mais uma vez, Bonaparte via-se obrigado a mentir para manter unidos aqueles que o seu egocentrismo separara. O boato correu rápido pelas margens do Nilo e pelas areias do deserto do Sara: Napoleão iria regressar acompanhado por reforços e tomar o Egipto definitivamente.

Todos sabemos que não foi nada disso que aconteceu.

Relativo fracasso

A viagem entre o Egipto e França levou 41 dias. Em momento algum, a embarcação que transporta Napoleão Bonaparte foi incomodada por navios ingleses o que levou à suposição de que o imperador havia comprado a tranquilidade do seu regresso na última reunião de Abukir, graças a um pacto feito com Horatio Nelson. No dia 1 de outubro, a pequena flotilha que acompanhava Napoleão, entrou no porto da sua cidade natal, Ajaccio. Durante oito dias, mantiveram-se cativos na Córsega por via de uma tempestade que os impediu de regressar ao mar. O Destino tem destas coisas: confinado a Ajaccio, sem poder sair, Napoleão Bonaparte nunca mais voltaria a pôr os pés no lugar onde nasceu.

O passo seguinte foi o porto de Fréjus onde conseguiu lugar numa carruagem que partia na direção de Paris. A seu lado tinha um dos mais indefetíveis dos seus soldados, Berthier. Do Egipto chegavam notícias pavorosas de uma praga que tomara conta do exército francês, dizimando homens atrás de homens. Até nisso, Napoleão tivera sorte, abandonando o norte de África seis meses antes do início da propagação da doença. 

Na sua rota de regresso a Paris, Bonaparte fez questão de parar em Saint-Raphaël, uma comuna da região do Var, departamento de Provence-Alpes-Côte d’Azur. Aí deu ordens para que se erguesse uma pequena pirâmide que ficaria como recordação da sua invasão do Egipto. Apesar do relativo fracasso da expedição, a campanha napoleónica do norte de África teve um enorme impacto no Império Otomano e no mundo árabe em geral. Além de demonstrar cabalmente que o ocidente estava militarmente muito avançado em relação ao médio oriente, diversos objetos chegaram às margens do Bósforo com foros de ineditismo, como a máquina de impressão, e ideias de liberalismo floresceram ao ponto de conduzirem a futura revolução levada a cabo por Muhammad Ali Pasha. 15 mil soldados franceses morreram em combate; outros 15 mil morreram devido a problemas de saúde. Graças à propaganda semanal levada a cabo por um periódico chamado Courier de l’Égypte, a reputação de NapoleãoBonaparte como militar e estratega único nunca foi posta em causa. Teria tempo para deixar a Europa a ferro e fogo...