Política a Sério

De boas intenções está o inferno cheio

Sempre achei que a implementação de políticas para combater a pobreza é um erro. Em nenhuma parte do mundo deram certo. O foco não pode estar no combate à pobreza – tem de estar na promoção da riqueza. E não se trata de um jogo de palavras.

A Cimeira Social da União Europeia, que teve lugar no Porto, estabeleceu um acordo para a próxima década que prevê, entre outras medidas – como o aumento da formação profissional e a promoção do emprego –, a diminuição de 15 milhões de pobres.

Há muito que nos habituámos a estas bonitas declarações de intenções que acabam por não ser mais do que marketing político.

Os eleitores precisam de promessas – e cabe aos políticos esse papel.

Os jornalistas das televisões, das rádios e dos jornais precisam de temas – e compete aos políticos organizar estas encenações.

Mas a realidade é outra coisa.

Até porque entretanto vem outra crise, vem outra pandemia, ocorre uma desgraça, e o que era verdade ontem deixa de o ser – e os objetivos anunciados com pompa têm de ser ‘inevitavelmente’ revistos.

Quantas vezes já não vimos este filme?

Sendo isto sabido, a minha questão é outra e de diferente natureza.

Não tem que ver com o cumprimento ou incumprimento de metas, mas com a filosofia que presidiu à definição dos objetivos.

Sempre achei que a implementação de políticas para combater a pobreza é um erro.

Em nenhuma parte do mundo deram certo.

O foco não pode estar no combate à pobreza – tem de estar na promoção da riqueza.

E não se trata de um jogo de palavras.

Combater a pobreza tende ao nivelamento por baixo.

Significando, na prática, tirar aos ricos para dar aos pobres, o combate à pobreza desincentiva o esforço individual.

A sociedade mais dinâmica do mundo até há pouco – os Estados Unidos – funcionava com base na ideia de que todos podiam ser ricos.

Era o ‘sonho americano’.

Nos EUA não se combatiam os ricos, não se enxovalhavam os ricos, não se carregavam de impostos os ricos – como se ser rico fosse um crime; pelo contrário, criava-se a ideia de que todos podiam subir na vida, chegar ao topo.

E isso era um poderoso incentivo à superação, ao espírito de iniciativa, ao empreendedorismo.

Donald Trump, embora desajeitadamente, tentou fazer renascer esta ideia.

Mas a América já está noutra.

Quem domina hoje na América são as populações urbanas – e essas já estão próximas da forma de pensar dos europeus.

Não querem o risco – querem a segurança.

Querem a estabilidade no emprego, as férias pagas, a saúde e a educação gratuitas, etc.

A ideia do esforço para alcançar um objetivo está a perder-se, substituída pela ideia de que o cidadão tem o direito de exigir tudo ao Estado.

E por isso os EUA vão entrar em declínio – como a Europa já entrou há muito.

O self made man começa a ser uma relíquia do passado.

A última proposta de Joe Biden, de querer acabar com as patentes das vacinas, é bem ilustrativa desta nova mentalidade.

À primeira vista, é uma proposta racional e altruísta.

Quem se atreve a discordar da ideia de acabar com as patentes para acelerar a vacinação no mundo inteiro?

E, no entanto, tratar-se-ia de um tremendo erro.

Seria abrir uma caixa de Pandora, com consequências imprevisíveis.

Nestas coisas, o grande problema é abrir exceções.

Se hoje o pretexto é lutar contra a covid-19, amanhã poderia ser a resposta a outra epidemia, ou a um cataclismo, ou a uma emergência sanitária.

Admitido o precedente, aberta a porta, outras exceções surgiriam, a propósito disto ou daquilo.

E a certa altura, a exceção tornar-se-ia a regra.

Ora, isso seria dramático.                             Admitido o fim das patentes, quem se disporia a investir milhões na investigação de novos fármacos?

Quem gastaria fortunas a descobrir um novo medicamento – se, uma vez descoberto, todos o pudessem fabricar?

‘Que investiguem os outros’ – era o que todos diriam.

Há ideias que parecem muito bonitas numa apreciação superficial – e que depois de aplicadas se revelam desastrosas.

De boas intenções (ou de demagogia) está o inferno cheio.

Deixem as patentes sossegadas.

E percebam que o Ocidente está no caminho errado.

Com tudo tendencialmente garantido – saúde, emprego, habitação, etc. – o Ocidente aburguesou-se e amoleceu.

Com as suas políticas assistencialistas, com a sua crença no welfare state, está a matar o dinamismo da sociedade.

As pessoas já não aceitam sacrifícios, exigem facilidades.

Inversamente, o Oriente, sobretudo a China mas também a Coreia do Sul, o Vietname, etc., estão num caminho ascendente.

Eles já perceberam o trajeto que trilha o Ocidente – e de dia para dia exploram mais essa fraqueza.

Enquanto nós falamos no combate à pobreza, eles promovem a riqueza, crescem, e em cada ano ganham novas posições no mercado do mundo inteiro.

E se é certo que numa primeira fase as políticas agressivas, mais liberais, fazem aumentar as desigualdades, numa segunda fase criam mais riqueza.

E onde há mais dinheiro há mais investimento, mais emprego, mais progresso.

O capitalismo, que esmorece a Ocidente, renasceu a Oriente com outro élan, outra energia, e dentro em pouco dominará o mundo.