Politica

Remodelação: Marcelo quer, Costa resiste

Os migrantes em Odemira e as festas ‘leoninas’ juntam-se à lista de manchas no currículo de Eduardo Cabrita. António Costa não mostra sinais de querer trocar o seu ministro da Administração Interna... nem qualquer outro. Para o PM, remodelações só em caso de emergência.


por Henrique Pinto de Mesquita e Luís Claro

O gabinete de António Costa está, mais uma vez, debaixo de fogo, e Marcelo Rebelo de Sousa juntou-se ao coro de críticos da inamovibilidade dos ministros e secretários de Estado envolvidos em sucessivas polémicas. Os erros acumulam-se nos mais variados ministérios do Executivo socialista – desde o envolvimento de Francisca Van Dunem na polémica candidatura de José Guerra para procurador europeu à falha de Tiago Rodrigues Brandão na entrega dos computadores aos alunos do ensino básico e secundário – e, por isso, a continuidade de vários membros do Governo de  António Costa está novamente a ser questionada. E, mais uma vez, o nome de Eduardo Cabrita surge no top dos ‘remodeláveis’.

O Presidente Marcelo não poupou todos os responsáveis que não previram e não evitaram os aglomerados que resultaram dos festejos dos adeptos sportinguistas na madrugada de quarta-feira, entre as quais se inclui o próprio ministro  da Administração Interna. Apesar de Marcelo, em entrevista à RTP, ter garantido não saber «se houve intervenção do ministro da Administração Interna ou se isso não foi tratado a nível de outras estruturas», avançando unicamente acreditar que «não há dados de que tenha havido intervenção do ministro nesta matéria». Ainda assim, o Presidente aproveitou o tempo de antena para deixar a previsão de que António Costa irá fazer mudanças no seu Executivo após as eleições autárquicas, o que parece ir contra as declarações do primeiro-ministro no plenário do Parlamento, onde reiterou a sua satisfação com o trabalho de Eduardo Cabrita, garantindo, em resposta aos deputados, ter «um excelente ministro da Administração Interna», com o qual vive «bem», apesar das vozes críticas do Chega e do CDS-PP que se fizeram ouvir a pedir a demissão do ministro da Administração Interna durante o debate, acusando, entre outros assuntos, a «desastrosa intervenção em Odemira revertida pelo Supremo Tribunal».

 

Desastre nas ruas de Lisboa

Depois das várias polémicas ao longo dos últimos anos, com a compra de golas antifumo que afinal eram inflamáveis ou a morte de Ihor Homeniuk às mãos de inspetores do SEF, juntam-se agora duas novas manchas ao já extenso repertório do vulnerável ministro da Administração Interna: a situação em Odemira com o surto do novo coronavírus entre a comunidade de trabalhadores agrícolas no concelho – maioritariamente imigrantes – e a requisição civil do complexo turístico Zmar, e os desastrosos festejos do título de campeão nacional do Sporting, na noite de terça-feira, ignorando por completo as regras de higiene sanitária impostas e obrigando a violentas intervenções da Polícia de Intervenção (que chegou a disparar balas de borracha sobre adeptos que apedrejaram e jogaram garrafas de vidro sobre os agentes da Polícia).

O ministro da Administração Interna ainda não disse uma palavra sobre os festejos do Sporting. Foi António Costa e Mariana Viera da Silva que deram a cara pelas falhas no planeamento e a confusão que se instalou à porta do Estádio de Alvalade. O primeiro-ministro anunciou, na Assembleia da República, no dia a seguir à festa, que o Governo pediu a abertura de um inquérito à atuação da PSP e sobre o planeamento entre todas as entidades envolvidas. A ministra Mariana Vieira da Silva assumiu que «algo não correu bem».

Os deputados socialistas contactados pelo Nascer do SOL preferem não comentar as evidentes falhas de planeamento. O PS está a gerir esta polémica com todas as cautelas, porque envolve um ministro fragilizado e o presidente da Câmara de Lisboa – inda por cima a meses das eleições. Mas Ana Catarina Mendes reconheceu que «este passa-culpas» não é bom para ninguém. A líder parlamentar do PS não deixou, por exemplo, de afirmar a sua estranheza com a instalação de um ecrã gigante junto ao estádio. «Não consigo perceber como é que, num contexto em que não é possível haver espetáculos de outra natureza, se pode permitir e autorizar a colocação de um ecrã gigante nas imediações do estádio», disse no programa da TVI Circulatura do Quadrado.

Fernando Medina ficou no centro da polémica e procurou sacudir a água do capote, afirmando que «a Câmara não tem nenhum poder de autorizar nem manifestações, nem reuniões, nem organizações».

Mas Carlos Moedas não largou o assunto durante a semana e colou-se à expressão utilizada pelo Presidente da República para responsabilizar o principal adversário: «Aconcentração de centenas de milhares de adeptos resulta da leveza excessiva de Fernando Medina».

Medina, por seu lado, garantiu desconhecer a existência de um parecer da PSP a desaconselhar a realização da festa junto ao estádio. E Carlos Moedas respondeu, esta sexta-feira, em comunicado, considerando que o o autarca «ou está a faltar à verdade ou então revela incompetência e ausência de liderança».

 

Remodelação à vista?

Segundo um estudo de opinião entretanto divulgado pela RTP e pelo Público, a maioria dos portugueses defende uma remodelação do Governo, colocando no topo da lista o nome de Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna.

Nesta legislatura, António Costa mudou apenas um ministro, com a saída de Mário Centeno do Ministério das Finanças para governador do Banco de Portugal, que abriu espaço para a promoção de João Leão. De resto, mantêm-se todos os ministros apesar de todas as polémicas.

Agora, uma remodelação mais alargada é considerada quase inevitável, faltando apenas saber qual o timing escolhido pelo próprio primeiro-ministro.

A maioria dos analistas políticos concorda com a leitura de Marcelo segundo a qual só deverá ocorrer depois das eleições autárquicas, em jeito de refrescamento do_Executivo precisamente a meio da legislatura.

Mas há quem defenda que as mudanças deviam ser feitas antes, ou seja, logo após o fecho da presidência portuguesa da União Europeia, em julho deste ano.

O politólogo João Pereira Coutinho já em março adiantava ao Nascer do SOL que acreditava que até às eleições autárquicas, seria improvável uma mexida no Executivo, até porque «António Costa sempre gostou de manter uma fachada de unidade nos momentos mais difíceis». Agora, e mesmo depois das novas polémicas com os festejos do Sporting e com o caso de Odemira, o politólogo mantém a opinião, até porque Costa é «avesso a pôr na rua ministros sob fogo, e não faz as honras à oposição».

Já o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, também em declarações ao Nascer do SOL, considerou que António Costa age como uma «avestruz»: «Só o primeiro-ministro é que finge que não se está a passar nada».