Politica

Marcelo põe os pés num país irmão

É a primeira visita oficial de um chefe de Estado português em 32 anos e não faltaram guineenses a saudar Marcelo à chegada a Bissau. Das ruas ao mercado, o entusiasmo é palpável. 


Com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa de pés bem assentes num país pelo qual se apaixonaram tantos portugueses, o entusiasmo é palpável. Não faltaram guineenses no caminho para o Aeroporto Osvaldo Vieira para saudar a primeira visita oficial de um chefe de Estado português ao país em 32 anos, desde os tempos de Mário Soares. E a Avenida dos Combatentes da Pátria – que fica bem no coração de Bissau, celebrando quem ofereceu a sua vida pela independência do império português – estava cheia de bandeiras de Portugal, lado a lado com a bandeira da Guiné-Bissau.

São dois países com um passado complicado, mas que aqui está muito bem resolvido, assegura Chauki Danif, que encabeça o encontro da comunidade portuguesa com Marcelo. Aliás, a sua própria história mostra isso. Nascido no norte da Guiné-Bissau, em Bafatá, filho de emigrantes drusos libaneses, Danif cresceu em Portugal, estudando em Tomar e na Faculdade de Medicina, antes de ir combater para Guiné-Bissau, como alferes nos paraquedistas portugueses. Após a independência, regressou a Portugal, restabelecendo-se de novo na Guiné-Bissau em 1996.

“Sabe, há um ditado popular que diz que quando se bebe a água do Pidjiguiti não se esquece”, explica Danif. Referia-se ao velho porto colonial português, onde os marinheiros se reabasteciam de água, antes de partirem carregados de ouro e escravos – mais tarde,  seria em Pidjiguiti que guineenses seriam massacrados pelas forças coloniais, durante um protesto em agosto de 1959 que acendeu a mecha da guerra de libertação.

De facto, Danif não conseguiu resistir a beber mais água de Pidjiguiti. “África é um chamamento incrível”, assegura, enquanto nos dirigimos ao hotel Coimbra, um dos grandes pontos de encontro da comunidade portuguesa em Bissau, umas horas antes da chegada de Marcelo, que planeava passar por lá, para visitar um alfarrabista português. Pelo caminho passámos pela Praça do Império, em frente ao atual Palácio da Presidência guineense, onde em tempos Danif foi ajudante de campo de um governador português. No centro da praça, um monumento a celebrar o império ainda se mantém, só que coroado com uma estrela, símbolo da independência.

“É uma vivência diferente que temos aqui”, continua o antigo alferes português. “Na Europa não há convívio, as pessoas vivem em prédios de 10, 12 andares, quando saem dizem ‘bom dia, boa tarde’, às vezes nem isso. Aqui é diferente, todos os fins de semana, todos os finais de tarde, há encontros para as pessoas beberem uns copos e conversarem. É uma vida social diferente e é durante o dia, não é durante a noite como lá”.

É isso mesmo que vemos à chegada ao Hotel Coimbra, com a rua pontilhada aqui e ali com gente sentada em cadeiras à sombra, a conversar alegremente e a partilhar uma cerveja. Por toda a cidade reina a Superbock, Sagres e Cristal – só aqui e ali é que se vê uma djumbai, ou convívio em crioulo, uma cerveja local.

“Todos os portugueses que vinham para cá ficavam por aqui. Os donos são muito simpáticos, estão aqui desde o tempo colonial”, diz Danif, enquanto subimos as escadas do hotel, para um agradável terraço, pintado de cor de rosa e escudado do sol por buganvílias.

“Aquilo que mais falta aqui é assistência médica. Isso sim faz muita falta ao país. Tirando isso não falta nada, desde que se tenha dinheiro consegue-se arranjar todo o tipo de produtos”, continua. “Com uma vantagem: em Portugal nós vamos comprar peixe congelado aos supermercados e nós aqui podemos comprar peixe fresco, pescado no dia. A própria população vai aí e põe umas redes, apanha o peixe, só tira o que precisa e o resto liberta. À noite volta lá e torna a apanhar outra vez. Isto é qualidade de vida”.

Para quem pode. “Agora, quem de facto não tem possibilidades financeiras, não consegue comprar determinadas coisas porque tem ordenados muito baixos. É mais complicado”, admite o antigo militar português hoje concessionário da Galp, que emprega 37 pessoas. Sobretudo mulheres.

“As mulheres de facto são melhor trabalhadoras aqui na Guiné. Os homens gostam mais de uma liderança tipo régulo, tipo califado, em que as mulheres é que têm de tratar de tudo”, diz, entre risos. “É uma cultura diferente”.

E que acolhe. “Qualquer pessoa que chega hoje ou no dia seguinte fica completamente integrado, se for um indivíduo aberto, sem preconceitos. Se se lembrar que a Europa é a Europa, África é África. Há modos de viver diferentes, temos é de nos adaptar”, conclui Danif.

Do outro lado da cidade, no Bandim, um dos maiores mercados informais deste lado do continente, no meio do bulício de sempre, há um novo burburinho. Entre bancas que vendem literalmente tudo – fruta, carne, sandálias, lanternas, pilhas, móveis, artesanato, roupa, cartões de telemóvel, tudo o que se possa imaginar – aguarda-se ansiosamente o Presidente português.

Daí a umas horas, chegaria Marcelo, para se encontrar com o seu homólogo, Umaro Sissoco Embaló. O Presidente irá visitar o cemitério municipal, cujos muros foram pintados de fresco, e onde estão os soldados portugueses deixados para trás, mas também colocar uma coroa de flores no túmulo de Amílcar Cabral e João Bernardo “Nino” Vieira, combatentes históricos do PAIGC, na terça-feira de manhã.

Antes disso, será recebido por uma multidão que incluirá Moro Sane, de 49 anos, que tem uma barraquinha de roupa no Bandim há mais de 16. “Daqui a duas horas vamos todos ao aeroporto”, assegura, oscilando ente o crioulo, o português e o francês.

“O Presidente português é um grande líder entre a CPLP”, salienta Sane. “Aqui tudo gosta de portugueses. Aqui foi colónia de português, não de francês ou inglês, por isso queremos recebê-lo”.