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Costa acerta agulhas com João Lourenço em Paris

Em plena presidência portuguesa da União Europeia, a França promoveu uma cimeira africana em Paris, onde António Costa acertou agulhas com o Presidente angolano, João Lourenço.


António Costa foi a Paris para se sentar à mesa com mais de uma dezena de líderes africanos, e, entre eles, João Lourenço e Filipe Nyusi, com quem teve encontros bilaterais. É certo que Macron, ou mesmo Merkel, lideram o diálogo com os países do continente africano, mas, em tempo de presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, Portugal podia ter feito mais. Em julho celebram-se 25 anos da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), assinalados, em Luanda, na mesma altura em que a presidência rotativa da comunidade passa de Cabo-Verde para Angola.

Para a capital angolana está marcada uma reunião presencial, que conta com a participação de todos os chefes de Estado e de Governo da CPLP. Marcelo Rebelo de Sousa, em recente entrevista, deixou no ar a ideia de que a cimeira de Luanda pode traduzir, em termos muito concretos, um trabalho de meses, nomeadamente, no que tem a ver com a mobilidade no espaço da lusofonia.

Em Paris, aconteceu a Cimeira sobre o Financiamento das Economias Africanas, organizada pela França, mas em resposta a um apelo lançado em abril e maio de 2020 por líderes africanos, através do Financial Times e da Jeune Afrique, preocupados com os efeitos da pandemia nos seus mais do que frágeis sistemas de saúde e com consequências económicas e sociais em países com um elevado índice de pobreza – segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), 39 milhões de africanos podem cair na pobreza extrema em 2021 – desenvolvimento económico aos solavancos e muito dependentes de ajuda externa.

O continente africano precisa de 200 mil milhões de dólares para as economias poderem voltar ao nível da atividade que existia antes da crise, disse, muito recentemente, Carlos Lopes, antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África, professor da Nelson Mandela School of Public Governance da Universidade da Cidade do Cabo e conselheiro da União Africana (UA). Através do primeiro-ministro português, António Costa, ficou a saber-se que esse valor é de cerca de 100 mil milhões de dólares.

E o Presidente francês explicou, no final da cimeira, que também ficou conhecida por Cimeira França-África, que este valor passa por conseguir que os países mais ricos deixem para os países africanos 100 mil milhões de dólares em Direitos Especiais de Saque do FMI até Outubro. A França está pronta para o fazer, Portugal também e «o trabalho nas próximas semanas será o de convencer outros países a fazerem o mesmo esforço que a França, começando, naturalmente, pelos EUA», acrescentou Emanuel Macron.

Quanto à reunião com o Presidente angolano, o primeiro-ministro português informou que Portugal desbloqueou duas linhas de crédito para duas grandes obras em Angola, a circular de Lubango e a infraestrutura da Muxima, o santuário mariano de Nossa Senhora da Muxima, para «além das linhas de crédito disponibilizadas no Soyo» – confirmou após o breve encontro bilateral com João Lourenço, acrescentando que «todas as questões de crédito que estavam pendentes com Angola estão neste momento ultrapassadas e em condições de os investimentos poderem avançar».

 

Caso São Vicente

Dias antes deste encontro em Paris, entre António Costa e João Lourenço, a família do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, enviou ao primeiro-ministro português uma carta com um pedido para que intercedesse junto do Presidente João Lourenço no caso de Carlos São Vicente, preso desde Setembro de 2020 na Cadeia de Viana (arredores de Luanda).

São Vicente é um empresário luso-angolano que durante anos teve o monopólio do resseguro do setor petrolífero em Angola, filho do falecido jornalista Acácio Barradas, casado com a filha mais velha de Eugénia e Agostinho Neto, Irene, acusado de fraude fiscal, entre outros ilícitos, num processo que está agora em fase de instrução em Angola, mas com as contas da família bloqueadas tanto em Luanda como em Lisboa e, principalmente, na Suíça, onde estão congelados 900 milhões de dólares numa só conta pertencente ao Grupo AAA, de São Vicente.

À saída do encontro foi perguntado ao primeiro-ministro português se tinha falado do assunto com o Presidente angolano. António Costa respondeu que «não».

Numa em breve conversa com o Nascer do SOL, a mulher de São Vicente, Irene Neto, disse que admite que a carta não tenha chegado em tempo útil ao gabinete do primeiro-ministro. No entanto, não deixou de acrescentar que «as autoridades portuguesas estão omissas» relativamente a este assunto, que diz respeito a um cidadão que também é português.