Cultura

O inferno de Botticelli e o assombro dos faraós

A Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, entra num novo ciclo, com dois novos diretores, o CAM em processo de renovação e duas exposições que suscitam grande expectativa.

A passada segunda-feira, dia 17 de maio, marcou o início de um novo ciclo na Fundação Calouste Gulbenkian. Ao mesmo tempo que arrancavam as obras que vão dar uma nova vida (e uma outra leveza) ao edifício do Centro de Arte Moderna (CAM), eram apresentados, no exterior da cafetaria da sede, os novos diretores quer do CAM – o francês Benjamin Weil –, quer do museu – António Filipe Pimentel.

«Hoje começam as obras no novo CAM, um projeto lindíssimo, que é tudo aquilo que na minha cabeça deve ser um museu contemporâneo», anunciou Isabel Mota, presidente da fundação. «Tem um diálogo constante com a natureza, com os nossos belíssimos jardins, permite ter artistas mais consagrados, artistas mais emergentes... há uma panóplia de possibilidades», descreveu. «Pensámos que a fundação deveria ter um espaço onde a arte contemporânea pudesse florescer, um local onde os artistas e a população se possam encontrar, possam ver e discutir o que de mais importante há na arte contemporânea», resumiu.

Há cinco anos, em fevereiro de 2016, a Gulbenkian tinha optado por integrar as duas estruturas sob a mesma gestão, ambas sob a direção da então recém-chegada Penelope Curtis. O museu passou a chamar-se Coleção do Fundador e o CAM mudou a designação para Coleção Moderna.

Aparentemente os resultados não foram satisfatórios e agora volta a um modelo bifurcado – uma espécie de regresso ao passado que mostra ambição para os tempos vindouros. «Decidimos fazer aquilo a que eu chamo uma aposta maior na área da cultura, com a escolha destes dois senhores», disse Isabel Mota. «É um modelo que já houve na fundação, é um novo modelo na forma como agora o perspetivamos», resumiu, sublinhando que cada um dos espaços tem uma vocação e uma identidade distintas.

«A cultura continua a ser a nossa primeira prioridade e o rosto da Fundação Calouste Gulbenkian. Não somos só arte ou museus, mas a prioridade da fundação é a cultura», concluiu.

 

Ribeiro Telles ‘muito satisfeito’

Os trabalhos que agora se iniciaram contribuirão para fazer do CAM, nas palavras de Isabel Mota, «um centro de arte moderna aberto, com lugar para todos». Mas as grandes mudanças não se resumem ao edifício de Sir Leslie Martin inaugurado em 1983 e que será agora intervencionado pelo japonês Kengo Kuma. Uma das novidades para 2022 é a expansão dos jardins, em cerca de 8 mil metros quadrados, que promete alterar a relação da arquitetura com os espaços verdes mas também a própria dinâmica das visitas. «Finalmente temos a posse do jardim que vai até à Rua Marquês de Fronteira», explicou Isabel Mota. «Significa contribuir para uma cidade mais próxima das pessoas e em que a cultura e a arte vão estar mais acessíveis».

Essa parcela de terreno tinha sido adquirida em 2005 pela Gulbenkian a Maria Teresa Eugénio de Almeida, condessa de Vill’alva e viúva de Vasco Maria Eugénio de Almeida, que manteve no entanto o usufruto integral da propriedade a título vitalício. Só em julho de 2017, com o falecimento da condessa aos 95 anos, a Gulbenkian tomou posse. Em março de 2019, depois de as duas fundações terem chegado a acordo quanto aos limites das respetivas propriedades, a Gulbenkian lançou um concurso internacional para a expansão dos jardins. O projeto de Kengo Kuma, com arranjos paisagísticos do libanês Vladimir Djurovic (autor dos espaços exteriores quer do MAAT quer da sede da EDP), foi selecionado por unanimidade.

«Pouco antes de nos deixar, o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles disse-me pessoalmente que estava muito satisfeito porque se reconstituía aquilo que ele pensava que devia ser o parque Gulbenkian», notou Guilherme d’Oliveira Martins. O administrador da fundação ressaltou ainda a importância de «pôr a cultura na ordem do dia e garantir a recuperação no domínio da cultura». E deixou um compromisso: «A Fundação Gulbenkian não se poupará a esforços nesse sentido».

 

‘Preciosidades’ de Botticelli e Faraós Superstar

Depois da experiência de ter uma diretora estrangeira – a escocesa Penelope Curtis (que após a sua saída disse ao Público que «a administração tomava decisões sem consultar o museu») –, a fundação volta a apostar num diretor português, o historiador da arte António Filipe Pimentel, que esteve durante uma década à frente do Museu Nacional de Arte Antiga. Pimentel perspetivou já o que trarão os próximos meses, depois do ‘sufoco’ provocado pela pandemia.

«Precisamos de respirar, até porque, nas próprias palavras do Sr. Gulbenkian, a arte serve de consolo», considerou. Por isso haverá uma campanha durante todo o verão, intitulada ‘Art Matters’, que culminará com a primeira summer school organizada pelo museu. Com 34 palestrantes, 19 dos quais estrangeiros, «destina-se questionar o papel dos museus na educação».

As grandes novidades, porém, serão no campo das exposições. A primeira já era conhecida: uma «micro-exposição», como o diretor lhe chamou, de dois desenhos de Botticelli. «Não é a escala que faz a diferença, mas a qualidade», assegurou. «É só uma vitrina no museu, mas dentro dessa vitrina está a matéria-prima para nos fazer parar. São as comemorações dos 700 anos de Dante e o museu tem o privilégio de acolher dois esplêndidos desenhos de Botticelli sobre o tema do inferno, em pergaminho. São duas preciosidades únicas que nos são cedidas pelos arquivos do Vaticano e que estarão apenas um mês, de 23 de setembro a 27 de outubro, acompanhadas de uma pequena exposição que vai ter manuscritos de Dante e de Bocaccio, quer da coleção do museu, quer da Biblioteca Nacional de Portugal. Vai ter também um link à arte contemporânea, com um desenho de uma peça de Rui Chafes», anunciou.

Se o nome de Botticelli, associado ao de Dante, promete atrair muitos amantes de arte e da cultura, a grande exposição agendada para 2022 tem tudo para ser um sucesso junto do grande público. O título é tão sugestivo quanto ousado: Faraós Superstar. Organizada em parceria com o Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo, de Marselha, «vai ser a maior exposição alguma vez feita sobre egiptologia em Portugal», garante Pimentel. «Também tem um quadro celebrativo – os cem anos da descoberta do túmulo de Tutankhamon por Howard Carter [em novembro de 1922]» e revisitará «a relação de Howard Carter com a Gulbenkian, matriz e fonte da coleção de egiptologia que o Sr. Gulbenkian reuniu. Gulbenkian só mais tarde, em 1934, vai pela primeira vez ao Egipto, mas tinha já nessa altura um notável conjunto de peças, em boa parte adquiridas com a colaboração de Howard Carter. E a exposição vai partir precisamente dessa visita – serão duas grandes exposições numa só – para tratar outro tema muito importante que é a egiptomania, com a sua história peculiar, que vem desde o século XVIII até aos dias de hoje».

 

Um ecossistema para a arte

A última intervenção do dia foi a de Benjamin Weil, o novo diretor do CAM. Nascido em Paris em 1962, Weil estudou e iniciou a carreira em Nova Iorque como crítico de arte e curador independente. Passou pelo San Francisco Museum of Modern Art e pelo ICA, em Londres. Antes de ser recrutado pela Gulbenkian, dirigia desde 2014 o Centro Botín, em Santander, ao qual deu, nas palavras de Vicente Todoli, «projeção e reputação internacional».

Em Lisboa vai poder estrear um edifício completamente remodelado, um projeto caracterizado pela grande transparência e por uma icónica pala de madeira e cerâmica. «O conceito deste projeto definido logo na proposta a concurso é o engawa, um conceito japonês de espaço interior-exterior, no fundo aquele espaço de meditação dos templos», como explicou ao SOL em finais de 2019 Teresa Nunes da Ponte, a arquiteta que está a coordenar o projeto por parte da fundação.

Benjamin Weil mostrou-se entusiasmado com o início das obras na passada segunda-feira. «Sabemos que, se há um início, vai haver um fim», gracejou. Em seguida, explicou como a intervenção de Kengo Kuma e Vladimir Djurevic vai transformar a identidade do CAM e a experiência da visita. «O jardim que vai ser acrescentado ao sul do edifício vai mudar completamente a forma como nos relacionamos com este espaço cultural. Até aqui, entrava-se no CAM pela rua, passava-se de um contexto urbano para um espaço cultural. Agora vamos ter de atravessar o jardim e ao fazê-lo talvez comecemos a desacelerar».

Uma questão essencial para o novo diretor é justamente o tempo de visita. A programação será pensada em função da disponibilidade de cada um. «Quanto tempo nos vão dispensar hoje? 10 minutos? Meia hora? Talvez duas horas. E dependendo de quanto tempo nos podem dispensar, vamos proporcionar uma experiência diferente», promete. O seu objetivo é que visitar o CAM se torne uma espécie de rotina para os lisboetas.

A importância dos jardins, que concluídas as obras vão interagir ainda mais com a arquitetura, parece estar no centro do pensamento de Weil para o CAM. «Fiquei fascinado quando ouvi Vladimir Djurovic dizer como é importante introduzir no novo jardim espécies autóctones, e pensar nele como um ecossistema. Eu gostaria de pensar que CAM também é um ecossistema». Um ecossistema cultural, espera-se, onde a arte e os artistas, depois do sufoco provocado pela pandemia, possam desenvolver-se e florescer.