Internacional

Palestina. Não é o fim da tragédia

As condições em Gaza são ‘horrendas’. Face às tensões da ocupação, teme-se que seja uma questão de tempo até à próxima escalada nas hostilidades.


Após dias de terror, a população da faixa de Gaza finalmente pode sair à rua sem medo de que uma bomba israelita os despedaçasse, celebrando o cessar-fogo acordado sexta-feira de madrugada, entre Israel e o Hamas. Carros inundaram as ruas deste enclave palestiniano, com buzinões e gente a acenar bandeiras, enquanto se ouviam gritos de «vitória» dos megafones das mesquitas e disparos para o ar, segundo a Reuters. Também houve festa, até com lançamento de fogo-de-artifício, no bairro de Sheik Jarrah, em Jerusalém, onde a expulsão de palestinianos das suas casas, por colonos israelitas, desencadeou toda a crise.

Mas, para lá das celebrações e do alívio com o fim das hostilidades – que deixaram 243 mortos, 66 deles crianças, e mais de 19 mil do lado palestiniano, com 12 mortos e centenas de feridos no lado israelita, segundo dados oficiais – não há grande indícios que a realidade da ocupação israelita se altere. Ou que tão cedo a faixa de Gaza deixe de ser uma prisão a céu aberto, onde mais de dois milhões de pessoas são mantidas cativas, numa das região mais sobre populada do planeta, sem acesso aos bens mais essenciais devido ao duro bloqueio israelita.

E, há medida que Israel vai acelerando os planos para agarrar terra palestiniana – segundo o acordo de Oslo, em 1993, ratificado por ambos os lados – à margem da lei internacional, torna-se cada vez mais impossível estabelecer o prometido Estado palestiniano. Teme-se que a questão não seja se haverá uma nova escalada nas hostilidades, mas quando.

«As condições na faixa de Gaza são horrendas», salienta Ben White, autor de livros como Cracks in the Wall: Beyond Apartheid in Palestine/Israel, e ativista do BDS (Boycott, Divestment, Sanctions), um movimento que pede um boicote internacional a Israel, semelhante ao que se viu contra a África do Sul nos tempo do Apartheid.

«Mesmo antes dos bombardeamentos israelitas, esta já era uma população vivia em condições que desafiam a compreensão, sob bloqueio, com apoios muito fracos ou não existentes, a nível infraestrutura básica ou cuidados de saúde, com desemprego crónico entre a maioria dos jovens» , salienta o jornalista britânico, ao Nascer do SOL.

«Claro que, além disso, também têm estado a enfrentar a covid-19», acrescenta. Aliás, a vacinação mal começou na faixa de Gaza, enquanto, ali ao lado, Israel – que mantém uma ocupação militar de facto no território, e como tal é responsável pela sua saúde, segundo a ONU – se tornou o país com a mais bem rápida campanha de vacinação do planeta, com mais de 56% da população completamente imunizada. Pelo meio, Israel ainda entupiu mais os hospitais de Gaza, com a enxurrada de feridos dos bombardeamentos a somar-se aos pacientes com covid-19, chegando a destruir o único centro de testes no enclave.

Mesmo este cessar-fogo pode ser sol de pouca dura, ameaçou o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que – apesar do seu país estar escudado pelo Iron Dome, um dos mais avançados sistemas antiaéreos do planeta, capaz de destruir a vasta maioria dos projéteis do Hamas, lançando mísseis para os intercetar, falhando apenas quando sobrecarregado por uma quantidade enorme de disparos simultâneos – declarou: «se o Hamas pensa que vamos tolerar um chuvisco de rockets, está errado». Prometendo «um novo nível de força», apesar dos militares israelitas já terem arrasado edifícios residenciais em plena luz do dia, incluindo os escritórios da Al Jazeera e da Associated Press em Gaza.

«Com o cessar-fogo que acabou de acontecer, importa lembrar que o status quo para os palestinianos na faixa de Gaza continua a ser uma punição coletiva, continua, por parte dos israelitas», recorda White. «Um relatório recente da Human Rights Watch descreveu Israel como cometendo o crime de Apartheid, e, creio que intencionalmente, incluí a faixa de Gaza como parte deste crime. Porque, muitas vezes, a situação ali é analisada isoladamente do resto da Palestina».

De facto, a ligação entre o cerco a Gaza à situação na Cisjordânia – onde israelitas que acusados de um crime enfrentam os tribunais civis, e os palestinianos tribunais militares – ou mesmo dentro de Israel, onde cidadãos israelitas palestinianos vivem num Estado declarado judaico, é cada vez mais notória.

Aliás, foi no seguimento dos enormes protestos contra os despejos no bairro de Sheik Jarrah – e de uma invasão israelita da mesquita santa de Al-Aqsa, em Jerusalém, em plena festa de Ramadão, onde duzentas pessoas foram feridas com balas de borracha e granadas atordoantes – que o Hamas começou a lançar rockets, enfrentando uma retaliação israelita demolidora.

E, enquanto a ofensiva israelita em Gaza durava, cidadãos israelitas palestinianos amotinavam-se em protesto dentro de Israel, sobretudo em Lod e Acre. Já em Bat Yam, a sul de Telavive, uma multidão de nacionalistas judaicos – reunidos para uma manifestação de um partido aliado de Netanyahu – linchou um palestiniano, em plena vista das câmaras de televisão e da polícia, havendo relatos de ataques semelhantes por todo o país. Um dos slogans mais comuns era de «morte aos árabes» – coincidentemente, um dos cânticos favoritos das claques do Beitar Jerusalém, orgulhosamente o mais racista de Israel, de que Netanyahu é um confesso fã.

Se «a extrema-direita dominará o futuro de Israel», como previu um artigo de opinião recente da Times, esse futuro também poderá ser marcado por crescente unidade entre Palestinianos, fora e dentro de Israel. «Tem havido uma mobilização sem precedentes de cidadãos israelitas palestinianos nas últimas semanas», afirma White.

«Isso mostra grande unidade, sobretudo entre a juventude, em todas as partes da Palestina. Uma preparação para se protegerem e confrontarem o Estado israelita», considera o jornalista. «Do ponto de vista do Estado israelita, isso representa um desafio significativo, porque estas são pessoas que realmente os expõem, às contradições e tensões inerentes com o objetivo de ser um Estado ‘judeu e democrático’», explica. «É uma fonte de grande ansiedade para o Estado israelita». Sobretudo numa altura em que, nos Estados Unidos, o histórico aliado de Israel, o público vira-se cada vez mais contra a ocupação da Palestina.