Politica

Maria Castello Branco desconfortável com Ventura rompe com o MEL

A dirigente da Iniciativa Liberal anunciou que não irá marcar presença no MEL. Mostra-se desagradada por o MEL dar um palco sem oposição a André Ventura. Afirma, ainda, que a Convenção é um "projecto de federação desenhado nas sombras". Leia aqui o seu comunicado na íntegra. 


No início desta tarde, Maria Castello Branco transmitiu, em exclusivo ao jornal i, que afinal não irá marcar presença na terceira Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL) - cujo início está marcado para amanhã às 09:00. Maria estava indicada como a keynote speaker do debate “Portugal e os Caminhos do Futuro” - o último do dia, no qual perfilarão sobretudo jovens. Entre eles, os líderes da JSD e da JP - Alexandre Poço e Francisco Camacho, respetivamente -, Rita Matias – jovem proeminente no CHEGA – e Nuno Carrapatoso.

No comunicado que acompanha esta notícia, Maria Castello Branco – membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal - deixa claro que não se obstaria à presença de Ventura caso esta fosse nos mesmos moldes que a do ano passado – isto é: integrando um painel de debate em que as suas ideias pudessem ser contestadas. Maria obsta-se a que o MEL dê voz a Ventura sem que as suas palavras possam ser rebatidas e, nesse sentido, de forma a “preservar a [sua] espinha dorsal” e “a defesa de uma direita de rosto humano”, recusa ir. Explica que tentou falar com vários painelistas para que estes tomassem uma posição “contra a elevação de um extremista a um palco sem oposição”, não obtendo, contudo, sucesso. Mostra-se também descontente com o facto de o MEL ter “abdicado de ser uma tertúlia” para passar a ser um “projecto de federação desenhado nas sombras”, dizendo que os discursos dos líderes partidários transformarão o “debate necessário num comício irrelevante — se não para as ambições políticas dos próprios”. Remata o comunicado de forma disruptiva, dizendo que recusa “consenso onde este não existe, acenando que sim para proveito próprio e desfruta[ndo] da paz dos silenciosos”.

Não é a primeira vez que Maria Castello Branco procura manter distância de nomes associados a uma Direita normalmente entendida como “reacionária”. Recordamos que, há pouco mais de uma semana, o Jornal Nascer do Sol noticiou que Maria Castello Branco “condenava veementemente” as declarações em que Fernando Figueiredo (candidato da IL a Viseu) considerava as feministas como “mal fod#!as” e “fachistas (sic) de género”. Hoje, num movimento idêntico, Maria, descola-se novamente da mesma Direita, explicando-se num longo comunicado que passamos agora a reproduzir na íntegra:

“Foi de bom grado que aceitei, no início deste ano, o convite para ser keynote speaker na 3ª edição do Movimento Europa e Liberdade, que se dizia ser uma força de centro, de “combate à captura de interesses” e de “resposta aos desafios das novas competências e desigualdades”. Não sabendo se André Ventura iria integrar a Convenção, bastou-me a memória da passada edição, que integrou Ventura num painel, para perceber que o MEL, “de centro”, não tinha problemas em abrir as suas portas a um partido cujos valores se opõem aos valores democráticos do centro-direita.

Não obstante, sempre defendi que a forma mais eficaz de combater partidos ou movimentos radicais é a exposição das suas ideias ao escrutínio democrático: o discurso populista é facilmente desmontável e, ademais, alimenta-se de uma vitimização que cresce se o excluirmos do debate. Assim sendo, e crendo que Ventura seria integrado uma vez mais num painel de discussão, continuei convencida de que poderia usar o microfone para combater uma direita obsoleta, cinzenta, sectária, pouco importada com temas de cidadania, pouco interessada em falar da necessidade de políticas inclusivas. Usaria a minha posição de keynote speaker para exaltar os partidos de direita europeus, como a CDU, que falam hoje de combate ao racismo e ao sexismo. Falaria do futuro, de feminismo e do combate ao sectarismo.

Apercebi-me, depois, que o MEL abdicara de continuar uma tertúlia à direita, para se transformar na antecâmara de uma putativa coligação. A Convenção, que começará amanhã, terá os quatro líderes partidários da “direita” a discursar sem oposição, com a elevada posição de encerramento das manhãs e tardes, longe do escrutínio, transformando o debate necessário num comício irrelevante — se não para as ambições políticas dos próprios. Isto não é uma discussão dos valores, é o início de uma tentativa de federação das direitas, que normaliza um discurso que fere o respeito pela liberdade e pela pessoa humana que foram caracterizando os partidos do centro-direita no pós-25 de Abril.

A direita que estará presente amanhã tinha a responsabilidade de denunciar os ataques à democracia e de confirmar que os valores do tal infame partido português são antagónicos aos valores liberais, sociais-democratas e democratas-cristãos. Tentei, sem sucesso, falar com vários painelistas, incitando a uma tomada de posição contra a elevação de um extremista a um palco sem oposição. Pensei, depois, que poderia estar sozinha, em palco, a denunciar a hipocrisia e a combater a normalização de um discurso que desprezo, numa sala onde não seria bem-vinda. Mas decidi que não posso participar numa Convenção que parece querer federar as direitas, sem primeiro colocar a nu as posições dos seus vários constituintes e sem lançar os seus líderes em franco debate. Ao invés, parece querer forçar respostas claras ao que se nos apresenta como um projecto de federação desenhado nas sombras.

Para preservar a minha espinha dorsal, tenho de recusar participar numa Convenção que, mais do que normalizar um discurso extremista e populista, lhe dá palco e aplausos sem contraditório. E recusei. Não estarei amanhã presente, nem discursarei. Manterei a minha espinha dorsal, e manterei a defesa de uma direita de rosto humano, ciente do passado, mas com os olhos no futuro, onde todos, independentemente da sua raça, etnia, género, nacionalidade, morada, orientação sexual ou credo, podem em liberdade desenvolver o seu projecto de vida. Não será promovendo o saudosismo bafiento a parceiro credível, nem mantendo a direita num condomínio fechado — que alinha posições à revelia de tudo­ —, que a direita retornará a governar.

Nos próximos dias serei bombardeada por todo o tipo de ataques, seja dos autointitulados “donos da nossa direita”, seja dos seus minions e trolls, que transpõem o ódio em palavras e ameaças por interposto dos seus capatazes. No entanto, se a decisão for entre uma carreira política fácil, procurando o consenso onde este não existe, acenando que sim para proveito próprio e desfrutando da paz dos silenciosos, ou entre manter a minha integridade, sozinha em casa de consciência tranquila, sei que um dia poderei contar às minhas filhas que estive do lado certo da barricada.

Lisboa, 24 de Maio de 2021"