Cultura

Bob Dylan. 80 anos de vida de uma lenda, década a década

600 canções, 39 álbuns de estúdio, um romance, um livro de memórias, um filme como realizador, meia dúzia de documentários, inúmeros concertos, um esconderijo de pinturas, um Óscar... e 300 milhões de dólares. Propomos-lhe uma viagem, década a década, pela vida de Bob Dylan: a inquietude, a procura pela identidade e a carreira magnífica embrulhada em crises existenciais.

por Sara Porto

Dos zero aos dez. O Som do rádio na cama

Uma criança deitada na cama a ouvir o som saído de um rádio. Era assim que Robert Allen Zimmerman passava as suas tardes. Na altura, não conseguia associar um rosto nem um nome a cada uma dquelas vozes, por isso pareciam-lhe quase “entidades místicas que passavam a mensagem do além”. O que aquela criança, na altura, não podia saber era que ela própria se transformaria dali a não muito tempo numa dessas “entidades místicas”, mas com um rosto e um nome conhecidos em todo o mundo. “Bobby”, como era apelidado em pequeno, teve um “início de carreira prematuro”. Segundo o biógrafo Robert Shelton, aos três anos de idade começou a realizar as suas “primeiras apresentações em público” no escritório do seu pai, onde falava e cantava diante de um gravador dictaphone.

Nascido na  cidade de Duluth, no estado de Minnesota, no dia 24 de maio de 1941, apaixonou-se pela música muito cedo e ainda em plena infância, com apenas 10 anos, iniciou a sua trajetória poética. Aliás, quando chegou a altura de escolher o seu pseudónimo artístico, foi buscá-lo justamente a um poeta: o galês Dylan Thomas, que morreu em Nova Iorque aos 39 anos depois de ter bebido, ao que se diz, 18 uísques.

Dos dez aos 20. O autodidata

Os seus pais (o pai era descendente de judeus russos fugidos dos pogroms de Odessa em 1905 e a mãe era descendente de judeus lituanos) faziam parte de uma pequena comunidade judaica e demoraram a acreditar que o seu filho conseguisse viver da música. Mas Bob desde cedo mostrou uma inclinação invulgar, tendo aprendido durante a adolescência a tocar piano e guitarra sozinho (houve até quem julgasse que Dylan tinha feito um pacto com o diabo, mas na verdade conseguiu-o graças a uma dedicação e um empenho extraordinários).

Logo na escola o jovem começou o seu percurso musical com a formação de várias bandas, como The Shadow Blasters, que pouco tempo durou, e The Golden Chords, com a qual participou no programa de talentos Rock and Roll Is Here to Stay. Com a explosão do rock and roll na década de 1950, sonhava seguir os passos de Little Richard e Buddy Holly. Porém, ao migrar para a Universidade de Minnesota, em Minneapolis, Zimmerman passou a interessar-se pela música folk, a mais tradicional vertente da canção norte americana.

Dos 20 aos 30. O nascimento do artista

Foi nesta época, quando estudava no Minnesota, que nasceu o pseudónimo por que viria a ser conhecido em todo o mundo. “A primeira vez que me perguntaram o meu nome em Saint Paul [a segunda maior cidade daquele Estado], instintiva e automaticamente soltei: “Bob Dylan!”, contou na sua Autobiografia.

A descoberta por parte do produtor musical John Hammond Jr., valeu-lhe editar o seu primeiro disco, em 1962. Face ao insucesso, a Columbia Records pensou seriamente em rasgar o contrato, mas Hammond Jr. insistiu para que não o fizesse. E tinha razão: 1963 e 1964 foram marcados pelas canções Blowin’ in the Wind e The Times They Are a Changin, que se tornaram hinos dos movimentos pelos direitos civis e de oposição à Guerra do Vietname.

Mas pouco tempo depois, o artista cansou-se do papel de “profeta geracional com a viola ao ombro” e, em 1965, começou a realizar concertos onde era acompanhado por uma banda de rock, algo que foi visto como uma traição por parte da comunidade folk: o concerto no Free Trade Hall, em Manchester, em 1966 ficou marcado por um grito de um fã desiludido que lhe chamou “Judas!”, por ter substituído a viola acústica pela guitarra elétrica.

Dylan rompeu com tudo aquilo que se conhecia sobre si: desistiu dos jeans e das camisas ao xadrez, para se render às roupas justas que os Beatles tinham tornado moda. Em simultâneo com a mudança de estilo, “demitiu-se da política”. Na realidade, segundo o seu amigo Dave Van Ronk, Bob “nunca teve interesse em representar uma geração, muito menos um movimento ideológico”. As suas músicas começaram a voltar-se para temas de cariz mais pessoal, introspectivos. Lançou Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, em 1965, e o duplo Blonde on Blonde, em 1966, onde apareceram músicas como Subterranean Homesick Blues, Gates of Eden, Mr. Tambourine Man e Like a Rolling Stone.

Em 1966, quase terá partido o pescoço num misterioso acidente de mota, na região de Woodstock, em Nova York. A sua voz tornou-se mais grave e Dylan afastou-se dos palcos durante algum tempo. Em 1969 recusou o convite para atuar no Festival de Woodstock mas acabou por aparecer, poucos dias depois, no Festival da Ilha de Wight em Inglaterra.

Dos 30 aos 40. De judeu a cristão

Depois da frenética década de 60 (de que o realizador D. A. Pennebaker deixou um elucidativo registo através do documentário Don’t Look Back, de 1967, onde mostrava a histeria das fãs em Inglaterra), Dylan fez uma pausa na carreira – pelo menos na musical.

Em 1974 passou dois meses a estudar pintura com Norman Raeben, uma atividade que tinha começado na década de 60 (o álbum Music from big pink’, de 1968, já tinha uma pintura sua na capa).

Também nesse ano de 1974 regressou às tournées, acompanhado pelo grupo The Band. No ano seguinte, produziu Blood On Tracks.

O ano de 1977 ficou marcado pelo seu divórcio de Sara Lownds, com quem era casado desde 1965 e que lhe servira de inspiração para canções como Lay Lady Lay, de 1969. A separação fez com que o artista mergulhasse numa grande crise existencial. Nascido e criado na fé judaica, converteu-se ao Cristianismo, passando a gravar álbuns de música gospel, com o objetivo de difundir a mensagem cristã. Nessa altura declarou que “renasceu” e fez registros com o tema do evangelho, “alguns brilhantes, outros infames”.

Apesar das críticas lançou álbuns como Slow Train Coming, de 1979, que lhe valeu um Grammy. Shot of Love, de 1981, encerrou essa fase, acabando depois por renunciar ao cristianismo. A nível artístico, voltou aos sons crus e aos velhos temas: como a solidão e os desgostos de amor.

Dos 40 aos 50. A reconciliação com o público

O afastamento da fé cristã coincidiu com a reconciliação com o público. Em 1985, participa do especial ‘We are the world’ com outros 40 grandes nomes da música, na campanha organizada por Bob Geldof contra a fome em África. Algum tempo antes, já circulava a informação de que Dylan se encontrava dependente de heroína, facto que se veio a comprovar nas gravações.

Os álbuns que se seguiram, onde tentou preservar o seu estilo mais sóbrio, passaram despercebidos e algumas das suas prestações ao vivo na época foram consideradas pouco menos do que desastrosas, com o cantor a não acompanhar os compassos. Embora na década de 90 tenha gravado alguns dos melhores álbuns em trinta anos, a fama de figura irreverente, se não de lunático, manteve-se. Para isso muito contribuía a forma como interpretava as músicas nos concerto, muito distante daquela a que o público estava habituado.

Dos 50 aos 60. Sucessos ininterruptos

A partir de Time Out of Mind, lançado em 1997, iniciou uma série ininterrupta de álbuns com sucesso tanto junto da crítica como do público, que lhe renderam uma série de prémios e até um Óscar de Melhor banda sonora original, com a música ‘Things have changed’, do filme Wonder Boys. Precisamente no infame dia 11 de setembro de 2001, coincidindo com os ataques às Torres Gémeas em Nova Iorque, lançou Love and Theft, o seu 31.º álbum de estúdio, considerado pela Rolling Stone um dos 500 melhores álbuns de sempre.

Dos 60 aos 70. Uma lenda no passeio marítimo de Algés

A quebra na criatividade neste período não afetou o prestígio do artista, cuja lenda, pelo contrário, continuou a crescer e a consolidar-se. A saída de No Direction Home, o documentário de seis horas de Martin Scorsese, em 2006, contribuiu para esse processo. Em 2008, Dylan foi cabeça de cartaz do festival Optimus Alive, no passeio marítimo de Algés. A expectativa era grande. Porém, como em tantas outras ocasiões, desiludiu os fãs ao não cantar algumas das suas músicas mais conhecidas. E outras – como Don’t Think Twice, It’s All Right, Highway 61 Revisited ou Ballad of a Thin Man – estavam tão diferentes que o público demorou a identificá-las. A voz, em especial, parecia apenas sussurrada e não revelava qualquer empenho do músico.

Após algumas demonstrações de descontentamento por parte da assistência, Dylan regressou ao palco para apresentar a banda. E muitos sentiram-se recompensados com o final do concerto, em que cantou Like a Rolling Stone.

Dos 70 aos 80. O Nobel da Literatura e os 300 milhões de dólares

O anúncio de Bob Dylan como vencedor do Prémio Nobel da Literatura, em 2016, apanhou todos de surpresa. O facto de o músico e poeta ter ficado em silêncio após o anúncio do prémio e de não ter respondido às insistentes chamadas valeu-lhe inúmeras críticas e acusações de arrogância, inclusive por membros da Academia Sueca. Só duas semanas depois o artista quebrou o silêncio, afirmando ser algo “difícil de acreditar”. Ainda assim, não compareceu à cerimónia de entrega do prémio, alegando ter “outros compromissos”.

Em 2020, aos 79 anos, Bob Dylan voltou a ser notícia com a venda dos direitos de todas as suas mais de 600 canções ao grupo Universal Music por mais de 300 milhões de dólares. Segundo o The New York Times foi “o maior negócio único de sempre na aquisição de direitos de autor musicais”. Apesar da Universal ter comprado os direitos de todo o catálogo já gravado e editado até aqui por Bob Dylan, o músico ficará como dono dos direitos de quaisquer canções originais que revele futuramente.