Opiniao

Causa Maior

É que nós, os portugueses, sempre convivemos com a diferença. No nosso ADN estão gentes de diferentes origens geográficas e foi sempre quando nos voltámos para o Atlântico ou para o Mar que descobrimos a nossa verdadeira vocação e nos soubemos reinventar.


por Teresa Côrte-Real
Presidente da Causa Real

Num quadro em que a desorientação e a descrença alastram na vida coletiva, importa clarificar o ideário monárquico e, sobretudo, justificar a sua validade e eficácia perante os desafios que o país hoje tem de enfrentar apresentando uma alternativa de futuro. Ao fazê-lo, mobilizar todos os portugueses, canalizando a adesão afetiva, racional ou ideológica para a participação ativa nas tarefas de construção de uma reserva e de uma alternativa política para o nosso país. Monárquicos e não monárquicos. Porque a Causa Maior que defendemos é Portugal e é de um espírito de cidadania consciente, pró ativo e de serviço que queremos falar.

Uma missão maior, a de uma refundação das bases do sistema de representatividade em Portugal baseada em princípios fundamentais e causas permanentes.

Dando voz à sociedade civil em causas compatíveis com o interesse do todo e contribuir para uma nova organização dos poderes do Estado nas áreas de soberania, da economia e da promoção do bem estar da sociedade em todas as suas dimensões.

Fazer pensar o que é a soberania na Europa do século XXI e o que queremos que ela seja, refletir sobre a identidade nacional e defender o Estado de Direito. Saber que a coesão nacional se promove com sustentabilidade do território e com mais justiça social através de um compromisso com uma ecologia que preserve a relação do ser humano com o ambiente e em que que o municipalismo, pela sua proximidade com as populações, ganha mais força e, por isso, responsabilidade; em que cada um de nós se sinta representado na sua diversidade sem esquecer a promoção global da cultura e de um modo de ser Lusíada como comunidade natural e de reforço da importância da língua portuguesa e do interesse estratégico nacional.

É que nós, os portugueses, sempre convivemos com a diferença. No nosso ADN estão gentes de diferentes origens geográficas e foi sempre quando nos voltámos para o Atlântico ou para o Mar que descobrimos a nossa verdadeira vocação e nos soubemos reinventar.

Internamente exige-se assim uma maior reflexão sobre a integração e condições de vida, nomeadamente a nível educativo dos cidadãos oriundos desse tal mundo que fala português e cujas riquíssimas e enriquecedoras experiências são para todos nós uma mais-valia e tem que ser valorizada. Sem pruridos, pre conceitos e tendo por base dados sócio demográficos objetivos. O problema existe, não o do suposto racismo, mas o das discrepâncias ou disparidades no acesso a condições sanitárias e habitacionais básicas (que a pandemia veio reforçar) e que tem também reflexo como todos sabemos, no sucesso escolar dos mais jovens independentemente da sua origem étnica. Não há verdadeiro desenvolvimento sem coesão e esta não acontece sem que uma inclusão equilibrada aconteça e que certas barreiras existentes de um lado e outro passem a ser vasos comunicantes de uma comunidade que se vai reconstruindo no respeito pela diversidade e numa afirmação da portugalidade.

E para isto precisamos de repensar todo o sistema de representatividade política de que uma chefia de estado monárquica será o culminar. Depositária de uma representatividade única com vocação e aptidão naturais para preservar essa independência e compreender a forma de alcançar essa coesão nacional. Preparada e imparcial na defesa do bem comum. A evolução na continuidade na defesa dos interesses nacionais. Em Monarquia, a Chefia de Estado deixa de concorrer com assuntos da vida da comunidade política e de programas partidários, permitindo a defesa imparcial e permanente de um projeto que se garante e é garantia do Estado de Direito.

Em épocas de crise e de transformação como a que vivemos, reforça-se a importância poder moderador do chefe de Estado e, como tal, a necessidade da sua não eleição nem dependência de nenhuma das partes, tal como sucede com outros poderes arbitrais como o poder judicial que também não é eletivo no quadro da democracia representativa. É impossível ser-se árbitro de um jogo de que se faz parte. E os últimos tempos demonstram que assim não tem sido em Portugal.

A representatividade dos órgãos de soberania eleitos é, por definição, uma representatividade temporária e circunstancial, representando quando muito uma geração; a Instituição Real, detém uma representatividade histórica, de natureza transgeracional e intemporal, que complementa e dá profundidade à representatividade eleitoral projetando o atual interesse do país e o das próximas gerações. É essa simbiose que está também na base da tradicional e obrigatória aclamação do Rei em Cortes nas quais estão representados os escolhidos pelo povo português e aquando da sua entrada em funções. Em total liberdade.

A solidificação da identidade coletiva necessita deste motor de unidade entre norte e sul; interior e litoral, mundo rural e centros urbanos capaz de ir contra interesses que dividem os portugueses, atentam contra a nossa soberania e delapidam o património humano do nosso país. E isso, e a afirmação deste Portugal Atlântico nesta Europa tão cheia de incógnitas e tão longe de si própria faz, uma e outra vez cada vez mais sentido.

Assumindo o grande desafio de nos redescobrir a nós próprios, à nossa história e a quem nos representa, voltando a fazer esse caminho do Mar que é também o da afirmação da língua portuguesa enquanto elemento congregador de uma comunidade maior.

Um e outro levam a uma verdadeira visão ou revisão estrutural do Futuro português.