Mente (In)quieta

Tontinhos e em liberdade condicional

Num cenário em que cumprimos o que nos pedem, com sacrifício pessoal, evitamos estar com familiares e amigos, fugimos a reencontros tão desejados, recusamos atividades de que sentimos muita falta, e tomamos todas as precauções no dia-a-dia para nos mantermos em liberdade condicional, não é razoável que nos peçam compreensão se nos voltarem a aprisionar por negligência do governo


por Sofia Aureliano

1. Quem goza com quem? De cada vez que um excerto de um testemunho de um depoente numa comissão de inquérito é o mote para uma rábula humorística – e têm sido muitas – devíamos refletir sobre quem está, afinal, a ser alvo de chacota. Porque antes de gozarmos com o depoente, ele já gozou connosco, ao alegar falhas de memória constantes, ao contrariar o óbvio e já manifestamente provado ou a fingir esquecimentos estratégicos que ferem a dignidade dos deputados que se preparam exaustivamente para aquelas audições, e da Casa da Democracia, onde uma Comissão de Inquérito deve ser encarada como um assunto muito sério. Por isso, por mais que protagonizem qualquer sketch a fazer de tontinhos inábeis e aparvalhados e nos façam soltar umas gargalhadas, a verdade é que nos foram (e ainda vão), alegadamente, ao bolso e “não se lembram”. Depois da audição, vão tranquilamente para casa e os tontinhos somos nós. 

2. Aplauso ao “Basta”. Fernando Negrão, presidente da comissão parlamentar de inquérito às perdas registadas pelo Novo Banco, repôs a dignidade que se impunha, pondo fim à audição de Nuno Vasconcellos que, para além de também sofrer de amnésia seletiva, mentiu descaradamente e assumiu um tom beligerante contra a deputada que o inquiria da única forma que se inquire numa comissão de inquérito: com perguntas diretas e timbre sério. Mariana Mortágua não foi agressiva. Foi assertiva e até paciente. Como Fernando Negrão, até dizer o “basta”. Um “basta” que era necessário para salvaguardar o respeito pelo trabalho dos deputados, pela Assembleia da República e pela honra dos portugueses que o parlamento representa. Poucos teriam a coragem de dar este murro na mesa, sabendo que essa passaria a ser a manchete (desagradável) do dia. Uma vénia a Fernando Negrão por fazer parte dessa elite que conhece o seu papel e assume-o, sem medos e a qualquer custo.

3. Lisboa recua, Cabrita avança. Lisboa está no limbo, novamente, em risco de ter recuar no desconfinamento. O número de casos de infetados com Covid-19 tem subido de forma preocupante e, ainda que se esteja a planear acelerar a vacinação numa faixa etária mais jovem, essa medida não chegará a tempo de impedir a propagação do vírus. Porque essa já aconteceu.

Num cenário em que cumprimos o que nos pedem, com sacrifício pessoal, evitamos estar com familiares e amigos, fugimos a reencontros tão desejados, recusamos atividades de que sentimos muita falta, e tomamos todas as precauções no dia-a-dia para nos mantermos em liberdade condicional, não é razoável que nos peçam compreensão se nos voltarem a aprisionar por negligência do governo.

Podem falar de um, vinte ou cem casos de infetados com covid-19 detetados na sequência dos festejos da vitória do Sporting a 11 de maio. Sejam quantos forem, eram evitáveis. E, na realidade, ninguém os pode contabilizar. Podem pintar o arco-íris e desenhar cenários com unicórnios e borboletas, mas só quem não tem dois palmos de testa não associará o crescimento dos números de infetados às imagens que viu na televisão de aglomerados de centenas de pessoas, durante horas a fio, sem qualquer distanciamento social ou cumprimento de regra de segurança mínima, como a simples utilização de máscara.

Se um de nós circular na rua sem máscara, o Cabrita assegura-se de que pagamos uma multa “pedagógica”. Mas com os milhares de adeptos em festa previsível reinou a incompetência. Nem um comunicado ao país a pedir um comportamento responsável Cabrita foi capaz de fazer. Ainda que não fosse suficiente, fazia prova de vida. Mas nem ele se avistou, nem a pedagogia.

Por isso, revolta-me a possibilidade de voltar a confinar por negligência do governo. Indigno-me com a hipótese de os restaurantes voltarem a ter de fechar portas porque Eduardo Cabrita não soube planear. Ou que o comércio local possa ter de encerrar porque as forças de segurança são comandadas por um “não-ministro”, que há muito já não devia estar onde está.

Que o primeiro-ministro tenha o pejo de não voltar a falar maravilhas do seu ministro da Administração Interna se tiver de fechar Lisboa à custa da sua incompetência.

4. Privado e Público. A pandemia obrigou a restruturações em vários setores, a reflexões que se previam adiadas, e antecipou a necessidade de ver o mundo de outra forma. O mundo do trabalho, por exemplo, foi um dos que foi empurrado para uma discussão forçada, que um país amplamente polarizado na dicotomia entre público e privado não acomoda com facilidade.

A chamada esquerda – conceito, para mim, vazio, que apenas utilizo de forma instrumental – embandeira em arco a defesa da igualdade de direitos e de oportunidades no trabalho. Defende que não há portugueses de primeira nem de segunda. Mas, ao mesmo tempo, cultiva uma acérrima separação entre os trabalhadores do setor público e do setor privado, alimentando e defendendo a aplicação de regras díspares que não são próprias de uma sociedade desenvolvida, próspera e preparada.

A atual reflexão sobre o trabalho, nomeadamente sobre o teletrabalho, pode ser uma oportunidade única para rever paradigmas como a uniformização de setores público e privado, a criação de valor e a implementação de uma metodologia baseada na produtividade, que avalie o desempenho e premeie o mérito.

A progressão automática de carreira não é promotora de brio, empenho ou superação. Os anos em funções não fazem de nós melhores profissionais. Fazem de nós profissionais com mais anos em funções. Apenas isso. E todos nós ganharíamos com uma mentalidade transversal mais empreendedora, produtiva e empenhada, que recompensasse os bons, uniformemente, fossem do setor público ou do privado.

Este pode ser o momento de implementar, no setor público, uma cultura de desenvolvimento de competências e de qualificações que pode seguir como boas práticas o que já se faz em algumas bem sucedidas empresas do setor privado. Não é necessário inventar a roda. Basta não fazer “finca pés” ideológicos, que nos deixarão sempre na cauda da fila da competitividade, encurralados preconceituosamente no tempo.

Libertemo-nos desse garrote fundamentalista e Portugal estará ao nível dos melhores. É a diferença entre contentar-nos com um Suficiente ou posicionarmo-nos ao nível da Excelência. Esta é uma escala bem entendível para os nossos alunos que vão trabalhar lá para fora. Porque, preparados e competentes, vão sem rede e não falham.