Internacional

Vingança do 'Rasputin' de Boris Johnson abala a política britânica

Dominic Cummings acusou Johnson de desvalorizar tanto a covid-19 que até sugeriu injetar-se com ela, alegando que houve negligência do Governo.

 


O vilão favorito da política britânica, Dominic Cummings, antigo conselheiro especial de Boris Johnson, que consegue ser tão odiado por críticos do Governo como conservadores, voltou à arena com uma vingança, esta quarta-feira, para testemunhar num inquérito parlamentar, que pretende avaliar a resposta britânica à pandemia,

Este consultor político - que durante anos foi considerado o arquiteto da campanha pelo Brexit, a eminência parda por trás de Johnson, controlando os jogos de bastidores em Westminster com mão de ferro - lançou acusações como quem lança granadas, desde o primeiro momento do seu testemunho. Como a alegação de que mal houve esforços do Governo para proteger lares de idosos e que, no início da pandemia, o primeiro-ministro estava tão cético da gravidade da covid-19 que sugeriu ser injetado com o vírus ao vivo, na televisão, para mostrar que não havia nada a temer. 

Contudo, nem sequer foi preciso Johnson ser injetado, foi mesmo por ser infetado com covid-19, em abril. Apanhando um susto de morte, precisando de ser hospitalizado em estado grave, acabando por ser salvo por uma equipa de enfermeiros que incluía um português.

Na imprensa britânica, esse momento foi visto como um ponto de viragem para o Governo, a altura em que este passou a levar a pandemia a sério, abandonando a sugestão de esperar pela imunidade de grupo, ou seja, deixar o vírus alastrar, para que os sobreviventes ficassem com imunidade. Mas essa é uma perceção errada, assegurou Cummings, contando que, quando chegou a terceira vaga, em outubro, ouviu Johnson dizer que preferia ver “corpos empilhados em altura” do que ordenar um terceiro lockdown - confirmando a notícia avançada pela BBC na altura. 

 

Zangam-se as comadres O confronto entre o Johnson e o seu protegido - ou vice-versa, diriam alguns - não é de agora.

Durante meses, mesmo com a imprensa britânica a atacar o primeiro-ministro como fantoche de Cummings, mesmo com o conselheiro especial sob fogo por violar as regras de confinamento, em maio do ano passado, Johnson resistiu a demiti-lo, mantendo-o em pleno controlo da rede de assessores do Governo. Até que uma amarga discussão em novembro - com Johnson e Cummings “aos gritos”, segundo o Sun - levou à demissão do último, no meio de uma disputa entre fações conservadoras.

Logo à partida, quando se soube que Cummings, conhecedor dos mais íntimos segredos de Downing Street, ia voltar à praça pública para testemunhar, houve receio em Downing Street, avançou o Guardian. Esses receios foram reforçados quando o conselheiro ressentido publicou no Twitter imagens de um quadro branco, datado de março de 2020, que dizia ser onde o Governo planeava a sua resposta à covid-19. Onde se liam perguntas por responder, como “quem é que não salvamos?”. Ou “quem olha pelas pessoas que não conseguem sobreviver sozinhas?”. 

Entretanto, Johnson já negou todas as alegações de Cummings, como “lixo total”, mas a extensão dos estragos ainda estão por saber. Por um lado, a oposição britânica - por mais que deteste Cummings - encontrou nestas audiências um testemunho de tudo aquilo de que vinha a acusar o Governo, e ainda mais. Por outro lado, não falta quem questione as motivações do antigo conselheiro ressentido. Como defendeu o ministro dos Transportes, Grant Shapps, no dia anterior, à BBC. “Deixo a outros o papel de decidir a confiabilidade da testemunha”.