Hoje Escrevo Eu

O mel e o fel

Todos os partidos se afirmaram programaticamente à esquerda, sendo que o único que ousou colocar-se ao centro – o CDS de Freitas do Amaral e Amaro da Costa – logo foi rotulado de fascista e de extrema-direita (aliás, para o PCP, todos os simpatizantes de qualquer partido à sua direita eram logo assim rotulados, quais perigosos aliados do capitalismo e do imperialismo).


O Encontro das Direitas organizado pelo MEL (Movimento Europa e Liberdade) juntou na Aula Magna, embora em momentos diferentes, os líderes do PSD, do CDS, do Chega e do Iniciativa Liberal, respetivamente Rui Rio, Francisco Rodrigues dos Santos, André Ventura e João Cotrim Figueiredo. E o grande protagonista desta que já é a 3.ª edição do movimento que pretende dar uma nova agenda e um novo fôlego à Direita portuguesa foi... nenhum deles.

Rui Rio até fez questão de vincar na sua estreia nestes encontros que o partido que lidera não é de direita nem de centro-direita e que essa não é a sua «família política». Porque, para Rio, o PSD é ainda hoje o que afirmou ser quando foi fundado há quase 50 anos: «Quando nasceu, em 1974, não só era de centro, como era marcadamente de centro-esquerda». E citou Francisco Balsemão – com quem os sociais-democratas, num primeiro momento, passaram a integrar a Internacional Liberal.

Podia também ter citado Sá Carneiro, que ainda tentou entrar para a... Internacional Socialista. Como podia também ter evocado Pinto Leite ou Magalhães Mota.

Os fundadores do PPD em 1974 provinham da Ala Liberal, que desafiou o Estado Novo após as eleições de 1969, com três dezenas de deputados na Assembleia Nacional, e que defendia uma profunda liberalização do regime.

Em tempo de revolução, o PPD que haveria de ser mais tarde PSD não tinha alternativa a não ser de esquerda.

Todos os partidos se afirmaram programaticamente à esquerda, sendo que o único que ousou colocar-se ao centro – o CDS de Freitas do Amaral e Amaro da Costa – logo foi rotulado de fascista e de extrema-direita (aliás, para o PCP, todos os simpatizantes de qualquer partido à sua direita eram logo assim rotulados, quais perigosos aliados do capitalismo e do imperialismo).

Nada que impedisse, porém, o pragmático Mário Soares de poucos anos volvidos sobre o PREC (em 1979) fechar um acordo de Governo PS-CDS. Para Soares, à época, a única ‘linha vermelha’ que existia era à sua esquerda, o comunismo ortodoxo e antidemocrático do PCP – sendo que mesmo essa foi Álvaro Cunhal quem a impôs no 1º de Maio de 1974, no estádio que ficou com esse nome no bairro de Alvalade (em que o líder do PCP tentou a todo o custo, literalmente à canelada e à cotovelada, impedir Soares de falar no Dia do Trabalhador).

De então para cá, Portugal, a Europa e o Mundo mudaram imenso. Faz décadas que caiu o muro e a cortina de ferro.

E Rui Rio acha que o posicionamento do PPD em 1974 deve continuar a ser o mesmo do PSD quase 50 anos volvidos? De centro-esquerda?

Se calhar, à luz do que era a esquerda e a direita nos anos 70 até meados de 80 do século passado, sim – sendo que essa direita era o Antigo Regime e o Estado Novo e a esquerda todos os que defendiam a liberdade e a democracia.

Mas estamos em 2021!!!

50 anos passados, a questão não é essa. Ou melhor, mesmo que o fosse, teria no mínimo de ser reenquadrada, por forma a perceber-se quem, afinal, nos dias de hoje defende a liberdade e a democracia, respeita o pluralismo de opiniões e aceita a divergência política, a existência de modelos económicos alternativos (sobretudo ao Estado centralizador) e a afirmação de valores e princípios diferentes.

Ao não perceber isso e as razões dos críticos no seu próprio partido – que se tornou o maior partido português por conseguir reunir gente do centro-esquerda à direita liberal e mais conservadora – e afastar-se da ‘família política’ que deveria liderar, entregando de bandeja a André Ventura e ao Chega essa direita que deixa órfã, Rio hipoteca a hipótese de se constituir alternativa a António Costa, que, obviamente, agradece.

Costa sabe que um dos princípios da política moderna é o sentido da oportunidade (leia-se, oportunismo). Por isso, na primeira ocasião para apear a direita, pôs na gaveta divergências e retóricas ideológicas para conquistar o poder (em 2015, até com o Livre se sentou à mesa das negociações), mesmo quebrando a tradição de respeitar o voto popular e a entrega do Governo a quem indicado pelo partido mais votado.

Para Costa, as únicas ‘linhas vermelhas’ que existem são à direita. Com um único propósito: conservar o poder.

Ora, como se viu nos Açores, se a direita puder chegar ao poder pela soma dos mandatos conquistados, Costa pode bem tirar o cavalinho da chuva, porque, quando isso acontecer, já foi – como bem concluiu João Cotrim Figueiredo.

Daí o erro de posicionamento de Rio.

Como daí também a esterilidade de iniciativas como este Encontro das Direitas.

Que só veio provar que o que faz falta à direita é alguém capaz de a liderar e constituir-se como alternativa ao projeto da esquerda protagonizado por António Costa.

Que ele existe e até esteve na primeira fila da Aula Magna. Mas falta saber se o mel que tem no presente já dará para fazer esquecer o fel que ainda traz do passado.

E, enquanto não surgir esse (ou outro) líder carismático e federador, António Costa continuará a sorrir. E André Ventura também.