À Esquerda e à Direita

Deixem-se de bichices

Devo repetir que me estou perfeitamente borrifando para o que as pessoas são: hetero, homo, bi e demais denominações! :) Antigamente dizia-se que havia heterossexuais, homossexuais e bissexuais, rapaziada que gostava de ser Maria à noite e Manuel de dia. Ou vice versa. Cada um fazia o que queria da sua vida e ninguém tinha nada a ver com isso, mas também ninguém se andava a vangloriar das suas opções. Ok, havia o Zéze Camarinha...


No passado fim de semana fui ao aniversário de uma amiga, a quase 300 quilómetros de Lisboa, e desliguei um pouco as antenas da informação. Apesar disso, sou ‘obrigado’ a estar sempre contactável e procuro só preocupar-me com alguma coisa, profissionalmente falando, que necessite muito da minha presença. Independentemente disso, vou tomando conhecimento (pouco, é certo) dos fait divers que animam a rapaziada mais histérica das redes sociais.

À medida que me iam chegando WhatsApps a falar da polémica que incluía Eduardo Cintra Torres e bichas, achei que era mais do mesmo e que o crítico de televisão ia ser atacado sem dó nem piedade pelas figuras do costume. Percebi que a polémica dizia respeito ao Festival da Eurovisão e que Cintra Torres teria chamado ao evento EuroBichas. Claro está que os polícias do pensamento, com esse guru das redes sociais chamado Bruno Nogueira, não iam descansar e iam bater no homem para terem milhares de likes. E assim foi.

Devo repetir que me estou perfeitamente borrifando para o que as pessoas são: hetero, homo, bi e demais denominações! :) Antigamente dizia-se que havia heterossexuais, homossexuais e bissexuais, rapaziada que gostava de ser Maria à noite e Manuel de dia. Ou vice versa. Cada um fazia o que queria da sua vida e ninguém tinha nada a ver com isso, mas também ninguém se andava a vangloriar das suas opções. Ok, havia o Zéze Camarinha...

Brincadeiras à parte, quando voltei da festa de aniversário fui ver o que Eduardo Cintra Torres tinha escrito na sua crónica semanal Panóptico no Correio da Manhã, algo que faço com frequência. O texto principal, que andará à volta dos dois mil carateres, tinha o sugestivo título: ‘Tudo pelos poderosos, nada contra eles’, e versava sobre a ‘censura portuguesa aos direitos humanos na era digital’. Cintra Torres dizia de sua justiça e falava do perigo da censura que se anuncia, embora pense que isso seja um pormenor sem qualquer importância para os novos polícias do pensamento, pois é algo que dão como adquirido. Digamos que é uma não notícia, na opinião dessa rapaziada.

No segundo destaque na coluna Panóptico aparecia o seguinte assunto. ‘Polígrafo: Caso de Polícia? Uma organização obscura e censora’. Penso que o texto terá à volta de 600 carateres. Mais uma vez, Cintra Torres é incisivo a falar desse guru do jornalismo que dá pelo nome de Fernando Esteves. Vejam o texto e perceberão do que fala Cintra Torres com toda a propriedade. Fernando Esteves é um farol nas redes sociais e lá em casa dele. No jornalismo só é juiz naquele terreno que me recuso a classificar...

Finalmente, o colunista, no apontamento mais pequeno da página, que não deve ultrapassar os 250 carateres, escreve sobre o ‘Maravilhoso Festival de Luz e Bichas’. Foi o suficiente para incendiar as mentes mais sensíveis, com a tal luminária que dá pelo nome de Bruno Nogueira, um rapaz que gosta muito de gozar com o que lhe apetece, mas é um dos maiores polícias de costumes que há memória. O homem só quer a verdade a que temos direito: a sua. Pobre humor o nosso, onde os palhaços são uns pequenos ditadores.

Se concordo que o Festival da Eurovisão é dominado pelas ‘bichas’ ou não, é indiferente. Cada um que pense o que quiser. Agora que estes, repito, novos polícias do pensamento nos queiram impor a sua doutrina é que não. Por este andar, não podemos dizer que Bruno Nogueira é um magricelas e que eu sou um gorducho. E até parece que bichas é sinónimo de homossexuais – é o mesmo que dizer que camionistas, será que posso dizê-lo?, são sinónimo de heterossexuais. Isto é: camionistas são figuras que identificamos como arruaceiros que mandam bocas ordinárias a mulheres. E isso nada tem a ver com os largos milhares de camionistas que o não fazem. Da mesma forma que quando se fala em bichas se está a falar no lado exibicionista, nada tendo a ver com o facto de a pessoa gostar de outra do mesmo sexo. Não nos queiram obrigar a falar no idioma politicamente correto dos novos estalinistas.

vitor.rainho@sol.pt