Editorial

A magia da fada dos dentes


Sorte das crianças que ainda são crianças para celebrarem o Dia que lhes é dedicado. Até que idade se é criança ou quando se deixa de o ser pode ser difícil de estabelecer, mas viajar até à infância é rumar até aos três meses de férias sem fim, numa autoestrada com destino ao sul, sempre com pais e avós. Muitas vezes na inocência de contar os dias para voltar à escola e os anos para receber ordem de entrada no patamar dos programas dos primos mais velhos. 
Por falar nisso, vem-me à memória um episódio em concreto, depois da tarefa árdua que tivemos em convencer pais, tios e avós a autorizarem-nos, aos mais novos, a ir sair para a discoteca pela primeira vez. Recordo-me que nos foram impostas uma série de condições, com as horas de recolher obrigatório logo à cabeça. 

E assim o entusiasmo crescia e nós crescíamos com os saltos altos – e nem faltou o célebre truque do papel higiénico. Mal sabíamos que daí a uma década seria quase um crime desperdiçá-lo daquela forma. 

Mas a noite prometia ser memorável e envelhecer uns três anos em cerca de 50 minutos já era parte do programa. 

Chegados à porta da discoteca, e já não me lembrando bem como nem porquê (a falta de memória nada tem que ver com a bebida, cujas senhas viriam mais tarde a ser irmamente distribuídas para quem já podia consumi-las por lei), um dos tios achou por bem explicar ao dono que íamos com autorização dos respetivos pais e acompanhados pelos responsáveis primos-adultos. Desfecho: o senhor achou que não era aconselhável e não autorizou. 

Um balde de água fria, bem capaz de tirar de uma só vez toda a maquilhagem da nossa cara. Voltámos para casa e regressámos umas noites a seguir, já sem deixar os adultos sair do carro até receberem a mensagem a dizer que tínhamos entrado. O que se verificou.

Entretanto, perdi o fio à meada, mas ser criança era esta magia. E mais tarde perceber que esta também tem o seu tempo. Como a fada dos dentes. Que aparece quando temos 7 anos; mas esquece-se de voltar aos 70.