Politica

Rio e Ventura: "Nem contigo, nem sem ti"

O MEL convidou Isabel Díaz Ayuso a participar no encontro da Aula Magna, mas a líder da Comunidade de Madrid declinou por razões de agenda. Tal como Carlos Moedas.


A estrela em ascensão da direita espanhola, Isabel Díaz Ayuso, foi convidada para a 3.ª Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL). Mas ‘questões de agenda’ impediram a vencedora quase triunfal das recentes eleições na Comunidade de Madrid, que em dois anos duplicou a votação, a sua e a do Partido Popular, na capital espanhola, de estar presente. A participação de Ayuso, no essencial e no que tem que ver com a direita portuguesa, não mudaria nada, quando muito acrescentaria ao que se disse e se escreveu que o PSD não é o PP ou que o Chega não é o Vox ou ainda, e noutras circunstâncias, que Cecília Meireles poderia ser Isabel Ayuso. Enfim, estaríamos só um pouco mais entretidos.

A terceira convenção do MEL, ou Congresso das Direitas, ficou entregue a outros protagonistas, esmagadoramente masculinos, que, e quase sem surpresa, cumpriram o seu papel. Ninguém saiu do MEL melhor ou pior do que entrou, nem mesmo Rui Rio, mas também é verdade que do MEL não saiu nada.

Paulo Carmona, um dos anfitriões claramente satisfeito com o resultado de dois dias de debate, garantiu ao Nascer do SOL que não era suposto sair mais do que saiu e que também, no tempo em que decorreu a convenção, não se pretendia criar ou vislumbrar um projeto agregador das direitas nem uma coligação pré-eleitoral qualquer, nem uma plataforma programática comum, nem uma agenda comum da direita... nada. Não era suposto e não aconteceu.

A direita portuguesa não tem uma liderança ou um líder – não é André Ventura, por muito que insista; e não é Rui Rio, porque, e justamente, não insiste. Tem Pedro Passos Coelho, que, por agora, não quer passar da primeira fila da plateia para o palco. Presente mas evanescente.

Rui Rio subiu ao palco e disse: «Sinceramente, olhando para a plateia, não sei do que estão à espera que eu venha dizer. Eu sei o que venho dizer». Agora também nós sabemos o que ele não disse.

Rio, com o que não disse, fez lembrar uma personagem de um filme de Truffaut, que de tão repetida se tornou num cliché: «Nem contigo nem sem ti».

Rio e o PSD-que-não-é-de-direita acabarão por ter de fazer o que agora Rio não consegue dizer que fará: pedir ou aceitar o apoio da extrema-direita. 

E Ventura só não se diverte com isso, porque está ocupado em parecer sério com o seu discurso, relativamente previsível, de bordões e jargões que culmina com a mais vibrante das tiradas: «Não haverá governo de direita sem o Chega».

A 3.ª Convenção do MEL foi uma oportunidade perdida para a direita portuguesa. Por muito que os organizadores queiram ver a convenção como um espaço de debate da sociedade civil – a tal, como ironizou Nogueira Pinto citando Hegel, que não sendo família ainda não é o Estado – à direita do PS, o que todos veem, tanto à esquerda como à direita, é que os partidos são individualmente caóticos e que, enquanto não se arrumarem, não conseguem tomar o poder e, se não tomarem o poder, correm o risco de se desarrumarem ainda mais.

Moedas não respondeu a convite para palestra

O PSD está fragmentado entre os que estão com Rui Rio, e que não estiveram presentes; os que estão contra, e que estiveram presentes, o que se notou; e os que nem sequer foram convidados – como, por exemplo, Paulo Rangel, Teresa Leal Coelho, Jorge Moreira da Silva ou José Pacheco Pereira – que não sabemos se estão contra ou a favor ou consoante. 

Carlos Moedas foi convidado pela organização para participar como orador, mas, em entrevista à Renascença, disse que não poderia estar presente (tal como Ayuso) por uma ‘questão de agenda’, que de outra forma teria muito gosto, até porque havia participado na edição anterior – o Nascer do Sol sabe que à organização do MEL, que de facto o convidou, Moedas não disse nada.

Quanto ao CDS, confirmou no MEL a sua quase irrelevância, apesar do esforço de Cecília Meireles – mas, claro, ela é quase uma bête noir para um partido sem sombra do passado.

Porém, se esta direita ainda não tem uma identidade comum, ela tem, pelo menos, um pai. Algures entre o elogio evidente a Salazar de Fátima Bonifácio, perante um José Miguel Júdice vagamente incomodado e um Nogueira Pinto quase divertido, e uma outra interpretação de Nuno Palma de um Estado Novo reformista, eis que bem mais perto, na primeira fila, estava Pedro Passos Coelho. Mas aí temos uma direita que quer ganhar o futuro com os olhos postos num líder do passado. A nostalgia é perturbadora. Sim, talvez Isabel Ayuso tivesse feito alguma diferença. Mas também diferente é a situação espanhola, em que o PSOE e o PP têm, mais coisa menos coisa, e desde 1982, o mesmo tempo na liderança do Governo central. Em Portugal, não é assim nos últimos 25 anos: o PS governou 18 e o PSD sete, sendo que três foi com a troika, ouviu-se no auditório da convenção.

Quem esteve na sala percebeu que o discurso de Ventura foi interrompido, diversas vezes, por aplausos de grupos da plateia, e não de toda a plateia, e percebeu que Rio só arrancou aplausos uma única vez, quando criticou o PS. 

Quem esteve na sala percebeu que Ventura incomoda a direita, os intelectuais e as elites da direita, para usar a expressão do politólogo António Costa Pinto. E foram os intelectuais e as elites da direita que dominaram a sala e os discursos, entre o mais chegado ao Chega, como o de Miguel Morgado, e os mais distantes do Chega, como o de Miguel Poiares Maduro. 

Poiares Maduro, projeto de poder e projeto para o país

Aliás, foi Poiares Maduro que assinalou a diferença entre um projeto de poder e um projeto para o país. Ventura tem um projeto de poder –‒«Não haverá governo de direita sem o Chega», afirmou mais do que por uma vez –; Rio tem um projeto para o país –‒o tal que o PS não quer, o país não entende e ele próprio admite que sem o PS é impossível. E um projeto que se entenda, porque não é com um partido ou dois, com um deputado cada um, que se constrói uma alternativa de poder ao PS. 

Mas a realidade é dinâmica –‒outro lugar-comum –‒e a direita estava ali para discutir o futuro, e Rio, já que lá foi, tinha de dar esse arremedo de futuro, tinha de deixar claro que com ele a direita chegava ao poder. Porém, só correspondeu às expectativas de todos os que dentro do PSD acreditam que com Rio o partido não voltará a ser poder. 

Custa a perceber por que razão Rio é incapaz de agregar a direita ao centro e de maximizar os votos no PSD, e só parece apostado na erosão do PS, o que teima em não acontecer.

«Excluir o Chega do diálogo é fazer a vontade ao PS, é fazer a vontade ao BE e é fazer a vontade ao PCP. Assim, como o PS não faz a vontade à direita, tanto é que não deixou governar Passos e Portas e foi fazer uma geringonça à sua esquerda, não pode vir agora exigir que o PSD sistematicamente viabilize o PS e coloque fora do arco do poder o Chega», defendeu, no segundo dia, Nuno Garoupa, outro dos participantes na convenção a partir dos EUA.

A ovação a Sousa Pinto

No primeiro dia, na sala, quando Luís Mira Amaral terminava de discursar, alguém na plateia gritou: «Haja quem passe esse discurso ao Rui Rio!». Mira Amaral disse, entre outras coisas, que no tempo dele, e de Cavaco, se podia falar com o PS, com a ala social-democrata do PS. Hoje, o diálogo com o PS de Costa é impossível. As lideranças do centro-direita têm dificuldade em falar com o PS, acrescentou. Mais adiante, Rui Ramos veio dizer que «ainda há liberdade», mas ela está «constrangida» numa «cultura de cancelamento». 

No dia seguinte, Sérgio Sousa Pinto pegaria no assunto e faria uma das mais notáveis e aplaudidas intervenções da convenção. Mas Rui Ramos ainda acrescentou na sua intervenção: «Nós somos melhores, somos capazes e estamos prontos».

Talvez não. É que nem Pedro Passos Coelho está pronto para voltar. A direita, como disse Francisco Mendes da Silva, também ele presente na convenção, continua a receber «Passos com aplausos, lamentos de orfandade e suspiros de saudade», mas, «goste-se ou não, Pedro Passos Coelho não é uma figura do passado: é, ainda, o líder natural da direita portuguesa». No entanto, não deixa de notar que, «se quiser regressar, uma coisa Passos terá por certa: tal como está, a direita toda junta já não é suficiente para vencer eleições e, muito menos, para formar um governo reformista que valha o esforço». Passos fez o esforço de estar durante dois dias a assistir ao que se passou na 3.ª Convenção do MEL, tal como tinha estado em anteriores edições, e portou-se como um anfitrião afável mas reservado, simpático mas contido. E esse, por agora, parece ser o único esforço que ele está disponível a fazer pela direita.

Fica uma última ideia, ainda de Francisco Mendes da Silva: «Se voltar, Passos une o PSD, acaba com o Chega e com a Iniciativa Liberal e, provavelmente, absorve o CDS».