Sociedade

Champions. "Houve ordens superiores para que se deixasse os adeptos aproveitar, beber e contribuir para a economia portuguesa"

Depois dos festejos da Liga dos Campeões, no Porto, há quem demonstre revolta pela não realização das marchas populares pelo segundo ano consecutivo.


Durante três dias, as instruções foram muito claras: o Corpo de Intervenção da PSP não devia estar debaixo dos holofotes da comunicação social. E, por isso, raramente entraram em ação e só o fizeram quando alguém corria perigo de vida. “Nunca vimos nada assim”, comenta ao i um dos elementos do Corpo de Intervenção. “Nem sabíamos como atuar, pois a nossa principal preocupação era não aparecer. Só o podíamos fazer quando alguém estivesse em perigo de vida”.
“Houve ordens superiores para que se deixasse os adeptos aproveitar, beber e contribuir para a economia portuguesa”, acrescentou a mesma fonte. 

“Acho que, em primeiro lugar, havia uma organização muito deficiente porque o pessoal só no próprio dia, pelo menos ao nível da UEP, foi chamado a intervir em dois subgrupos, depois em três e, a seguir, em quatro”, explica. 

Já Ricardo Mexia, médico de saúde pública e epidemiologista, garante ao i que não entende como é que a final da Champions foi celebrada enquanto as marchas populares foram canceladas.

 

A reposição da ordem pública

“O grupo que tinha estado a trabalhar na sexta, saiu no sábado às 9h e devia ficar dispensado. Entretanto, foi-lhes dito que tinham de recomeçar a trabalhar às 12h, depois de terem trabalhado 16 horas de seguida. A ideia é que fossem descansar e regressassem no domingo e, por isso, contaríamos com o pessoal de Lisboa”, afirmou o profissional da PSP, lamentando que os colegas tenham acabado por fazer mais um turno e somente tenham saído às 2h de domingo, exercendo assim funções por 24 horas.

“Notou-se que houve dificuldade no planeamento. Normalmente, sabemos as horas que vamos trabalhar com muita antecedência. Desta vez, foi em cima da hora. É raro isto acontecer. Penso que não estavam à espera de tanta gente ou houve algo que correu mal”, adiantou João que não esconde que tanto ele como os colegas tiveram dificuldade “em perceber que a única orientação que existia era para questões de ordem pública”. 
Quando questionaram os superiores hierárquicos acerca daquilo a que deviam prestar atenção, como a utilização de equipamentos de proteção individual ou o respeito pelo distanciamento social recomendado, receberam como resposta: “Isso é para esquecer”.

Esta reação foi justificada pelo facto de que foi dada prioridade à reposição da ordem pública e não às restantes vertentes relacionadas com as regras em vigor no âmbito da pandemia. “A orientação foi: ‘A PSP, quanto menos agir, melhor. Só em situações em que a vida de alguém estiver em causa ou a sua integridade física é que devemos intervir” e foi por este motivo que “só quando o pessoal andava à pancada e à cadeirada” é que o Corpo de Untervenção dava um passo em frente para travar os desacatos.

“Até aí, empurrões, pessoas a despejar a cerveja umas por cima das outras... Não fazíamos nada por orientações superiores. Basicamente, aquilo que queriam era facilitar ao máximo”, desabafou João, adiantando que os spotters, que trabalham com organizações de adeptos, sendo o “departamento da polícia que é especializado em preparar as deslocações das claques”, lidavam diretamente com os spoters ingleses e estavam coordenados com os mesmos.

 

“Laissez faire et laissez passer”

“Tinham as coisas mais estruturadas e andaram sempre com os spotters portugueses. Por exemplo, quando um grupo se exaltava, os ingleses eram os primeiros a agir. Sugeriam que tivessem cuidado, serenavam os ânimos. Havia um laissez faire et laissez passer para lá daquele que é habitual”, afirmou o polícia, para quem o diretor nacional da PSP, Manuel Magina da Silva, não tomaria uma decisão destas. 

“Julgo que foi uma orientação mais política do que outra coisa. Pior estiveram os membros da equipa de intervenção rápida que, em alguns casos, trabalharam mais do que 24 horas. Aliás, em 48 horas, tiveram um interregno de duas ou três horas”, informou João, que não deixou de sublinhar que “houve situações em que devia ter sido tudo feito de forma diferente”, como na zona dos Aliados ou na da Ribeira, onde não existiu qualquer confronto, embora tenha havido detenções realizadas pelas equipas de intervenção rápida.

“Acima de nós, do corpo de intervenção, não há mais ninguém, e percebemos que a intervenção rápida tentou sempre não nos chamar. Houve a tentativa de transmitir a imagem de que tudo correu bem. Por exemplo, houve tantos problemas com os adeptos do Sporting e, de repente, os ingleses vêm para cá e fazem tudo aquilo que querem”, frisou o polícia, referindo-se aos festejos da vitória do campeonato do Sporting, onde acabou por haver confrontos de adeptos e polícias.

 

Regras claras para todos

A 7 de maio, a Câmara de Lisboa anunciou o cancelamento do concurso das Marchas Populares, que decorreriam em junho, pelo segundo ano consecutivo, devido à pandemia. No entanto, para compensar o impacto económico da não realização do evento, informou que iria atribuir 15 mil euros a cada entidade organizadora.  

“A CML está ciente do impacto não apenas económico, mas também social e emocional, nas famílias e comunidades diretamente envolvidas, que provoca a não realização deste momento ímpar na vida cultural da cidade”, admitiu a autarquia, num comunicado então divulgado.

Agora, depois de a Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte ter aconselhado, este domingo, a vigilância e redução de contactos nos próximos 14 dias a quem frequentou no sábado, no Porto, locais relacionados com a final da Liga dos Campeões, o médico de Saúde Pública e epidemiologista Ricardo Mexia disse, em declarações ao i, que “existem vários fatores” em jogo no que diz respeito à formação de mais cadeias de transmissão do coronavírus resultantes de festejos de grande escala.

“Há o exemplo dos festejos do Sporting, com outra magnitude, que acabou por ter impacto. Apesar de tudo, alguns dos festejos terão estado ligados a cadeias de transmissão”, explicou o também membro do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, salientando que “é plausível que isso aconteça em Inglaterra quando os adeptos regressarem ao país de origem e aqui também”.

Ainda assim, Ricardo Mexia, que se dedica ao estudo das doenças transmissíveis, tendo estado envolvido na investigação e controlo de diversos surtos - como o surto de sarampo de 2016 e de Doença dos Legionários no Hospital de São Francisco Xavier em 2017 - afirmou que há que ter em conta que "a maior parte das interações aconteceu ao ar livre, onde a disseminação é mais difícil”, e sublinhou também o facto de os adeptos terem sido sujeitos a um teste de covid-19 antes do embarque.

“Sem prejuízo disso, penso que pode haver cadeias de transmissão originadas pela ausência de máscaras e pelo não cumprimento do distanciamento”, indicou, assumindo que “o maior problema é a questão comunicacional porque é incompreensível entender que para uns há umas regras e para outros há outras”.

“Sabemos que as marchas foram canceladas”, salientou, e o i sabe que esta situação está a criar revolta entre marchantes que, apesar disso, não quiseram prestar declarações. “Temos de ter regras claras em relação a eventos com grande concentração. Tal como as marchas não foram autorizadas, penso que havia agora uma final do campeonato de rugby que teria muito menos pessoas do que aquelas que foram ao Estádio do Dragão. E também não acontecerá”, recordou Ricardo Mexia. E acrescentou: “É fundamental que se perceba quais são as regras porque isso ajudaria muito a comunicação e o próprio controlo da disseminação do vírus”, continuou o médico, concluindo que “até agora, o impacto dos indicadores que mais preocupam, os internamentos e internamentos em Unidades de Cuidados Intensivos, na prática, estão a sofrer um impacto relevante”. 

É de lembrar que o número de internamentos aumentou e há, segundo o boletim da DGS deste domingo, 271 pessoas com covid-19 nos hospitais portugueses, mais 27 do que no sábado. Destes, 54 estão em cuidados intensivos, mais cinco do que no último balanço.

Por este motivo, sublinhou ainda o epidemiologista, é essencial que  “não haja exceções que colidam com as normas em vigor”.

 

Portugueses de primeira e de segunda

Daniel Serra apontou o dedo às comemorações em torno do jogo de futebol. Ao i, o presidente da PRO.VAR aponta para “dualidade de critérios”, ao lembrar que no caso da Champions “houve uma total liberdade, em que foram permitidos muitos exageros”, enquanto aos portugueses e aos empresários nacionais “são exigidas o cumprimento de regras sob fortes coações”. E deu como exemplo, a aplicação de coimas. “Somos sujeitos a medidas muito restritivas e a coimas para quem não respeita as regras, sem haver, na maior dos casos, qualquer dia de tolerância”.

O responsável foimais longe e deixou uma garantia: “Este caso mostra que há portugueses de primeira e de segunda”, acrescentando que “no caso dos estrangeiros podem andar à vontade, logo são de primeiro, enquanto, os portugueses são de segunda e, como tal, são mais sacrificados”.

Face a este cenário, – em virtude dos acontecimentos relacionados com os eventos futebolísticos e em face das incongruências entre as restrições impostas pela DGS, que foram ontem de novo mantidas, a imposição de regras e o tratamento diferenciado – já veio solicitar em carta aberta e caráter urgente uma reunião com António Costa. “O setor da restauração foi um dos mais fustigados nos últimos quinzes meses, com a imposição de regras muito apertadas e muitos restritivas para a atividade da restauração. Cumpriu com a sua parte, esteve e estará a trabalhar com lotação reduzida, aumentou os custos com as regras de higiene e segurança, encerrou totalmente nos dois períodos mais críticos, esteve e ainda se mantém limitado nos horários”, referiu.

De acordo com a entidade liderada por Daniel Serra, “o setor assiste agora, incrédulo, a milhares de pessoas sem máscara, sem distanciamento e misturados com os Portugueses, por sua vez, as Autoridades de segurança, assistem ao comportamento desviante da maioria dos adeptos, uma permissibilidade incompreendida por parte dos empresários do setor da restauração. Estes dois pesos e duas medidas, estão a gerar um sentimento de indignação e revolta, no setor”.
 O responsável disse ainda estar preocupado com as consequências e impacto deste tipo de eventos e de modo a evitar que todos os estabelecimentos de restauração, de todo o país, fiquem em risco, pretende apresentar num pedido de revisão das regras da matriz de risco, para permitir que, nas regiões com menor pressão pandémica, possam beneficiar, do alargamento dos horários dos estabelecimentos e a promoção do fim do teletrabalho.

“Pretendemos também apresentar propostas para assegurar que as empresas que mais perdem neste primeiro trimestre (perdas superiores a 40%), sejam devidamente compensadas, com reforço do APOIAR.PT e Apoiar rendas, até ao final do ano”.