Falar Baixinho

Os rankings não deviam ser o fim mas o princípio

Estes rankings poderiam ser uma boa ferramenta– interna e não mediática – para perceber que jovens estão a ter mais dificuldade em aprender o que é esperado e porquê.


Não consigo encontrar grande benefício na publicação anual dos rankings das escolas. Sobretudo porque são entendidos como indicadores da qualidade de cada escola, o que não corresponde à verdade. Usados de outra forma, poderiam até ser uma ferramenta útil para analisar o que se pode melhorar em cada estabelecimento de ensino. Considero até ofensivo para algumas escolas com populações tão específicas que as tornam mais exigentes, com professores e pessoal dedicadíssimo, que prestam um acompanhamento próximo, muito para lá do suposto, verem-se nos últimos lugares do campeonato. 

Estes resultados que fazem rejubilar os ‘melhores’ colégios e humilham as ‘piores’ escolas públicas, o que só vem acentuar a discrepância entre diferentes realidades e contribuir para passar a ideia de que a escola se deve dedicar sobretudo aos resultados quantitativos, ser uma espécie de fábrica de testes e marrões, descurando tudo o que não sai nos exames.

Antes de mais, um colégio que ocupa os primeiros lugares no ranking – porque a ‘melhor’ escola pública vem em 41.º lugar  não é necessariamente a melhor escola. À partida os colégios não só têm uma população privilegiada em vários aspetos, como muitos escolhem os alunos – que são aqueles que os irão colocar no melhor lugar do dito ranking – e convidam a sair os que prejudicam a média ou dão demasiadas dores de cabeça. Não se pode no entanto negar que também oferecem melhores condições seja em termos de espaço, de oferta, de acompanhamento ou de atividades. O que deveria também fazer pensar a oferta do Estado. Quando comparadas com outras escolas que, provavelmente são atiradas para os últimos lugares, e têm como primeiro objetivo garantir as necessidades básicas dos alunos, como a alimentação e os cuidados de higiene, as diferenças são esmagadoras.

Muitos alunos tomam a sua única refeição quente na escola ou é nela que encontram um espaço organizado, acolhedor ou seguro. Há casas onde as crianças não têm sequer um sítio para estudar, crianças que saem da escola e vão ajudar os pais no trabalho, outras que ficam em festas pela noite dentro ou ainda as que vão elas próprias fazer pela vida a mando dos pais. Conheci algumas que têm o pai preso, cuja mãe trabalha dia e noite para as sustentar e ficam sozinhas ou ao cuidado de alguém pouco capaz. Muitas escolas ajudam de perto estas famílias e dão, por exemplo, um pequeno lanche à entrada para garantir que ninguém começa o dia de barriga vazia. Como é possível comparar o incomparável?

Há boas escolas que têm de fazer um longo caminho para responder às necessidades básicas das crianças e das famílias para só depois começarem a ensinar o que para outras é já evidente.

Estes rankings poderiam ser uma boa ferramenta – interna e não mediática – para perceber que jovens estão a ter mais dificuldade em aprender o que é esperado e porquê. Se o programa é adequado. De que forma estas escolas e famílias podem ser apoiadas e o que podemos fazer para que a diferença de resultados, sobretudo entre o público e o privado – um intervalo que vai de 8,55 a 18,03 valores na média dos exames nacionais – não seja tão gritante. Estes resultados só vêm mostrar o que sabemos mas não queremos ver: há muitas escolas e jovens que precisam de ajuda e nós não a conseguimos dar.