Sociedade

Mutação na variante indiana detetada em Portugal (e no Reino Unido) na base da decisão inglesa

Em causa na exclusão de Portugal da lista verde de Inglaterra está uma mutação adicional na variante indiana, agora classificada de delta. Estão identificados 90 casos em todo o mundo, 12 em Portugal e 36 em Inglaterra. “Fazem de fumo um incêndio enorme”, diz ao i João Paulo Gomes, responsável pelo estudo da diversidade genética do vírus no INSA.


A notícia caiu como uma bomba nos operadores de turismo, descarrilou as ações das companhias aéreas e confirmou-se ontem a meio da tarde: dias depois da final da Champions entre duas equipas inglesas no Porto, Inglaterra tirou Portugal do “corredor verde” para turismo, com efeitos a partir da próxima terça-feira. Pelo menos até ao fim do mês, altura da próxima avaliação, os planos de retoma com turistas ingleses ficam em banho-maria, com a obrigação de quarentena de dez dias e dois testes PCR após estadias em Portugal, que até aqui era o único destino europeu com luz verde para os britânicos.

As justificações, dadas pelo Governo inglês e num comunicado em que apesar de haver mais mexidas nas listas se foca em Portugal, foram mais específicas do que aconteceu no passado: em causa não esteve a incidência de novos casos, que apesar de estar a aumentar em Portugal continua a ser baixa comparando com outros países da UE, mas dois aspetos: por um lado, aumentou a taxa de positividade em Portugal (número de positivos entre testados) e também entre os ingleses que regressam a Inglaterra após estadias em Portugal. Na última avaliação, em 501 testes, tinham sido confirmadas três pessoas infetadas, com uma taxa de positividade de 0,6%, que agora duplicou. As autoridades inglesas não divulgaram ontem números ao certo nem especificaram se a avaliação teve já em conta o regresso de adeptos, embora na imprensa inglesa tenham surgido relatos de passageiros de diferentes voos a receber mensagens para se isolarem durante uma semana. Por outro, as autoridades britânicas justificaram a decisão com o facto de terem sido identificados casos da variante indiana, agora classificada de delta, com uma mutação adicional, “potencialmente prejudicial”.

À BBC, o ministro dos Transportes britânico, Grant Shapps falou de uma “espécie de mutação do Nepal”. Em causa, confirmou ao i João Paulo Gomes, responsável pelo estudo da diversidade genética do SARS-CoV-2 no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, estão casos da variante indiana (B.1.617.2) associados à mutação S:K417N. A questão já estava a ser seguida pela comunidade científica, como explicitou ontem nas redes sociais por exemplo Jeffrey Barret, especialista em genómica do Sanger Institute no Reino Unido, salientando que nada tem a ver com o Nepal, dado que não são conhecidos casos lá. Em todo o mundo estão sequenciados 90 casos, o que levou este investigador britânico a reconhecer que a mutação pode ser problemática pela maior transmissibilidade mas que não é, nesta fase, “algo com que as pessoas tenham de se preocupar”.

O Reino Unido, onde a variante indiana já é dominante, é de resto o país que tem mais casos da variante B.1.617.2 com esta mutação específica (36), seguindo-se o Japão (14) e Portugal com 12 casos confirmados, isto de acordo com as bases de dados internacionais de informação genómica, onde investigadores de todo o mundo descarregam dados, incluindo Portugal. O Nepal não tem nenhum e a OMS confirmou ainda ontem que não tem conhecimento de qualquer variante nepalesa. João Paulo Gomes sublinha que esta não é nova mutação, já estava identificada e em vigilância e explica que os casos que têm vindo a ser detetados em Portugal são classificados como variante indiana (agora delta), que continua a ser a referência dos investigadores. Essa aumentou na última semana e são agora 74 casos confirmados no país, revela, mas ainda com uma prevalência de 4,8%, inferior ao que se passa no Reino Unido, onde representa 75% dos casos. “Todas as variantes vão sofrendo mutações ao longo o tempo. Esta (S:K417N) é seguida porque já tinha sido identificada na variante sul-africana e porque é uma proteína do vírus que se liga às células e que por isso poderá levar a que haja uma maior transmissibilidade, mas neste momento isso é tudo pura especulação”, diz o investigador ao i, mostrando incredulidade com a decisão inglesa. “De fumo fazem um enorme incêndio”, diz, considerando a reação desproporcional: “O maior erro epidemiológico da pandemia foi cometido pelo Reino Unido, quando em dezembro comunicou a variante inglesa à OMS quando já tinha uma prevalência de 65% no país. A variante do Reino Unido dominou todos os países onde entrou e agora nós temos 12 casos da variante indiana com uma mutação e fazem isto”, critica. “Penso que é um pretexto para o Reino Unido atingir um objetivo qualquer que ainda não percebi qual é. Estou incrédulo, como acho que todo o país está incrédulo”, afirma.

Sobre o aumento de casos da variante indiana em Portugal, de 46 na semana passada para 74 agora – dados que serão divulgados esta sexta-feira no habitual relatório de monitorização das linhas vermelhas de controlo da epidemia – João Paulo Gomes considera que é cedo para perceber qual será a evolução e o contributo na transmissão do vírus. “Temos de deixar o tempo correr. A variante de Manaus há dois meses atingiu um pico de 4% dos casos e no mês a seguir caiu. Não sei se é isso que vai acontecer, mas tal como a de África do Sul, são variantes que levantaram preocupações por causa da potencial falência vacinal. Sobre a variante indiana ainda há poucos estudos”, admite.

O i tentou perceber junto da Direção Geral da Saúde quantos testes positivos de adeptos ingleses que estiveram em Portugal foram reportados mas não teve resposta. Também não houve uma posição sobre a questão da evolução da variante indiana suscitada publicamente agora pelo Reino Unido. O balanço de ontem da DGS mostrou mais uma vez uma subida dos diagnósticos, que acelera também no Norte do país.