Entrevista

Álvaro Carvalho: "A cegueira nos idosos é um drama e as pessoas estão resignadas"

Há pessoas que não nasceram para estar quietas. É o caso de Álvaro Carvalho, médico aposentado, ex-diretor do Garcia da Orta, que depois de mais de quatro décadas no SNS, se recusou a largar o estetoscópio. Não é um citadino, traz a sua aldeia, que é a sua casa, às costas e criou uma fundação para combater as desigualdades na saúde entre o interior e o litoral do país. Além disso, é escritor e utiliza a palavra com a mesma perícia com que faz diagnósticos. Que se diz serem certeiros.


Os seus amigos chamam-lhe ‘João Semana’, personagem contraditória de As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, que era um médico octogenário sensível às misérias do povo e exercia a medicina de borla. Dizem que são muitas as centenas de doentes que também já tratou gratuitamente. Encaixa-se nesta figura?

Tenho um lado em que estou nos antípodas do João Semana (risos). Ele desconfiava da Ciência e eu sou um médico da medicina de ponta, trabalhei com a tecnologia mais avançada. Mas a ideia de cobrar diretamente dinheiro a um doente é para mim uma violência e por isso sempre fui um médico do Serviço Nacional de Saúde. Talvez o facto de ter nascido numa aldeia da Beira, Mata de Lobos (concelho de Figueira de Castelo Rodrigo), onde os cuidados de saúde sempre foram muito precários, e onde as pessoas viviam com rendimentos baixíssimos, tenha despertado em mim essa solidariedade, a que chamo mesmo necessidade. E, apesar de ter exercido durante mais de quatro décadas a atividade em hospitais públicos da zona metropolitana de Lisboa, sempre mantive o vínculo à terra. Por isso, é natural que já tenha perdido a conta aos doentes que fui tratando gratuitamente.

Nasceu no hospital ou em casa?

Quase nasci na eira (risos). Aliás, há um episódio engraçado em torno da minha data oficial de nascimento que é revelador desses tempos. Naquela altura, não se ia à vila só para registar um filho, mas o prazo máximo para fazê-lo era um mês, ou então pagava-se multa. Nos meus documentos, constava que tinha nascido a 10 de agosto de 1948, mas um dos meus colegas meteu-me na cabeça, a certa altura, que eu tinha nascido a 9 de junho e que os meus pais só me tinham registado quando foram à feira de Figueira de Castelo Rodrigo.

Andei com isto atravessado muitos anos porque naquela altura havia coisas que não se falavam em família, eram segredo. Muitos anos mais tarde, lá tive coragem para tirar teimas com a minha mãe e ela, de memória afiada, disse: «Não, filho, isso é conversa fiada. Sabes porquê? Estávamos na eira a trilhar o trigo, quando tive as dores de parto e perdi as águas. Sabes bem que a debulha só começa em agosto! Ao fim da tarde, tive as dores e fui a correr para casa. Se demorasse mais meia hora tinha-te na eira». Depois desta explicação pormenorizada, não tive dúvidas.

O parto foi com ajuda de um médico ou de uma parteira?

Foi uma ‘curiosa’ que assistiu ao parto. Naquela altura só se recorria ao médico se havia problemas complicados e era necessário utilizar os ferros para retirar a criança.

Nasceu ‘em águas correntes’, como se dizia, um rapagão enxutinho?

Mas olhe que isso encerrava grandes perigos. Por exemplo, quando havia hemorragias no cordão umbilical, as curiosas colocavam teias de aranha para estancar o sangue. Iam buscá-las debaixo de pedras, na terra, o que trazia riscos de infeção muito grandes, como o tétano. Ao aplicarem aquilo no cordão umbilical, as bactéria podiam ir até à veia porta, que leva o sangue da barriga para o fígado. Se isto acontecesse podiam desencadear fenómenos trombóticos grave podendo mesmo levar à morte. Mas, às vezes, resultava porque facilitava a cicatrização. A seda da aranha tem um produto que é anti-hemorrágico que podia controlar a hemorragia.

Ainda é do tempo dos tratamentos com sanguessugas?

Sim. Na altura, até os médicos ainda prescreviam sangrias, uma prática terapêutica muito usada. E os charlatães, explorando a ignorância das pessoas, faziam sangrias por tudo e por nada.

Como arranjavam as vermes?

Iam buscá-las às ribeiras. Havia quem as tivesse em casa, num frasquinho com água doce, para qualquer eventual maleita, e até as alugavam quando alguém precisava.

Mas havia uns tratamentos bárbaros. Li no mais recente livro que coordenou – Da Raia Seca ao Pinhal – que as pessoas com sarna eram metidas no forno de lenha. Nunca ninguém morreu estorricado?

Que eu saiba, não (risos)! Ali a sabedoria popular funcionava. Só depois de tirarem o pão do forno, e quando este já estava morno, é que lá enfiavam o doente – o que não era descabido. É que os ácaros acumulam-se nuns ‘túneis’ que temos na pele e, com o calor, esses canais abriam-se e os parasitas viam-se obrigados a sair do sítio onde estavam anichados. O doente transpirava, abriam-se os poros e o bicho saía. Aliás, para a sarna também era usado o enxofre e, não é por acaso, que muitos dos compostos que se utilizam hoje para o tratamento desta maleita são feitos à base de enxofre. Neste caso, os curandeiros já andavam à frente da investigação clínica. Ainda não havia medicamentos investigados, mas as pessoas, por experiência própria, percebiam que o enxofre era bom para controlar a sarna.

Foi esta mundividência que o levou para medicina?

Não. Eu era de tal forma avesso à medicina que, quando comuniquei à minha mãe que ia tirar esse curso, ela disse-me espantada: «Ó meu filho, mas tu vais para medicina como? Tu cá em casa até foges quando vês sangue...». Respondi: «Pois é, minha mãe, mas hei de aprender a lidar com isso». Aliás, depois de terminar o liceu, vim para Lisboa trabalhar num tribunal que havia na Rua das Taipas, o Tribunal Coletivo dos Géneros Alimentícios.

Não devia ser fácil nesse tempo – anos sessenta do séc. XX –, dar estudos a um filho.

Impunha um grande sacrifício. Éramos três irmãos e eu fui o único a estudar. Foi preciso o professor primário convencer o meu pai que era um crime eu não seguir os estudos. Lá me viu algum talento (risos). Fiz o liceu na Guarda, onde viviam uns tios: não havia dinheiro para pagar uma pensão e fiquei na casa deles. O meu pai também conseguiu amealhar uns dinheiritos com o contrabando. Quem tinha a sorte de entrar nesse circuito, arranjava uma tábua de salvação. Mas era uma atividade dura e arriscada.

O que se contrabandeava nessa altura?

Isto foi depois da invasão do Norte de África e da tentativa do Mussolini para conquistar a Abissínia. A Liga das Nações decretou então sanções a Itália e a Espanha deixou de poder exportar para lá uma série de coisas, entre elas a amêndoa. O meu pai, que comandava um grupo de cinco homens, quando terminava os trabalhos no campo, ia ter com eles ao Rio Águeda. Isto fazia-se à noite, para escapar à guarda-fiscal que lhes andava sempre no encalço. Mas primeiro acautelava-se e, do topo da aldeia, fazia uns sinais luminosos para os espanhóis perceberem que se se podiam ou não pôr em marcha.

Isso devia de ser feito no recato da noite, não?

Sim. E os dias de chuva ou com nevoeiro eram os melhores porque ajudava a encobri-los. O meu pai trabalhava no campo, tinha um rebanho, e só quando acabava os trabalhos agrários é que se juntava aos outros, que o esperavam no rio. No inverno, este era muito caudaloso e arriscado. Chegou a vir de lá, por arribas muito inclinadas, com sacos de 45 kg de miolo de amêndoa às costas. Uma violência! Depois, havia todo um esquema para fazer chegar o produto de comboio até ao Porto e de lá seguia de barco para Itália. Isto, para famílias com muitos filhos e que viviam da agricultura, era uma ajuda importante.

O que era o Tribunal de Coletivo dos Géneros Alimentícios, para onde veio trabalhar, em Lisboa? Um antecessor da ASAE?

De certa forma (risos). Julgava crimes antieconómicos: falsificações de carnes (como a carne de burro que foi introduzida no mercado), figos parasitados, azeite falsificado, vinho feito com baga de sabugueiro e por aí fora. Eu era muito bom a matemática e, como a Faculdade de Ciências era ali perto decidi enveredar por Engenharia. Punha-me lá num pulo e assistia a uma aula ou outra.

Mas o que fazia no tribunal?

Era escriturário, fazia notificações, acórdãos e até julgamentos. Só havia um juiz, que era um tipo porreiro e que, desde que eu tivesse o serviço em dia, deixava-me ir às aulas práticas. Mas confrontei-me com as matemáticas gerais, que era um mundo que até aí desconhecia, e desisti.

Como dá o pulo para a medicina?

Tinha muitos colegas da Guarda que andavam em medicina. Um deles, o José Manuel Barbas que foi dos melhores alunos de medicina dos últimos 50 anos e que tinha uns apontamentos excelentes. Quando os colegas dele descobriram que eu tinha uma máquina de escrever, pediram-me para os datilografar.

Daí o coup de foudre?

Fiquei fascinado com uma coisa em particular. Um certo dia estava a bater um texto sobre o Ciclo de Krebs, que é a descrição do metabolismo dos hidratos de carbono feito no fígado. Ou seja, como é que o fígado transforma hidratos de carbono e gorduras em açúcares. Li aquilo e fiquei encantado – e nessa altura tomei a decisão de ir para medicina. De facto, não podia ter escolhido melhor. Como trabalhava e a faculdade ficava longe, metade dos professores nem cheguei a conhecer, só ia às aulas práticas que eram dadas pelos assistentes. Mas estudava muito. Na véspera de exames, cheguei a estudar com a toga a tapar os livros, enquanto fazia julgamentos que duravam até às duas da manhã. Estava com ‘um olho no burro e outro no cigano’.

Mal acabou o curso, e apesar de colocado no Hospital de São José, em Lisboa, começou a ir à sua aldeia dar consultas gratuitas?

Não, não. Só ia lá de três em três semanas. Eu não conduzia. Saía de Lisboa pelas 16h00, numa carrinha toda podre, cheia de conterrâneos. Às vezes chegávamos a levar cadeiras porque a viatura só tinha dois assentos. Levávamos sete horas até chegar. Jantava-se e cama. No dia seguinte, logo às oito da matina, começava a fazer consultas.

Mas via os doentes em casa?

Por vezes, mas depois improvisei um consultório na Junta de Freguesia onde passava o dia e só tinha meia horita para almoçar. Quando partia, ao domingo, às vezes estava a subir para a carrinha e ainda aparecia gente que eu observava mesmo em pé, encostado à carripana.

Tem ideia de quantos doentes via nessas incursões à aldeia?

Muitos! Num fim de semana cheguei aos 95.

Isso é obra. Tudo isto sem meios?

A certa altura, a aldeia quotizou-se e comprou-se um aparelho para fazer eletrocardiogramas. Ensinei duas jovens a fazerem os exames e passaram a auxiliar-me enquanto eu fazia os relatórios e medicava os doentes. Aquela região é muito fria no inverno e não havia aquecimento. Mandar despir os doentes, quer para os observar, quer para fazer os exames era quase um crime. Então, tinha de ser tudo muito rápido para amenizar o sofrimento das pessoas.
Tanto quanto sei, a fama de ‘médico dos pobres’ espalhou-se e também dava consultas fora da sua aldeia!
(risos) Até do hospital da Guarda recebia doentes. Houve uma altura em que o único eletrocardiógrafo deles avariou-se e mandavam-me doentes. Muitas vezes, não tinha tempo para tudo e tinha de trazer os exames para Lisboa e mandar-lhes depois os relatórios.

Houve até um colega seu que se queixou à Ordem dos Médicos por concorrência desleal. Já nem se pode ser generoso!

Isso foi o delegado de saúde do concelho. Fez uma exposição à Ordem, a dizer que eu fazia concorrência desleal, mas aquilo foi logo arquivado. Pois se eu não levava um tostão às pessoas!

Quais eram as doenças típicas da zona?

Havia de tudo. Mas dada a atividade económica que prevalecia (agricultura e pastorícia), encontrava-se muitos casos de febre de Malta e de febre da carraça. Um dia, chego à aldeia já de noite, ainda sem jantar, e o professor Manuel Braga da Cruz, que tem uma propriedade numa aldeia vizinha, apanha-me e diz: ‘Eh pá, ó Álvaro, o meu caseiro está muito mal, está a delirar. Não se importa de o ir ver?’. Chegámos lá, batemos à porta e nada. Era meia-noite, toda a aldeia dormia. E eu disse-lhe: ‘Será que o homem já morreu? Então e a mulher, fugiu?’(risos).

Com o barulho, acordámos o presidente da Junta, que veio com um lampião para nos ajudar a arrombar a porta. Informou-nos que o homem era muito surdo e que a mulher, como ele delirava com a febre durante a noite, tinha ido dormir para um anexo. Entrámos, mas ele estava confuso e nem conseguia dar a história clínica. Pensei que podia ser febre da carraça, pois estava na altura dela. Mas não havia luz para lhe observar o corpo. Fui de lampião à procura de lesões cutâneas e lá encontrei as manchas típicas.

Ou seja, não ia à aldeia para descansar, estar com a família, mas para arranjar mais lenha para se queimar?

Também não era bem assim. Porque tudo isto tem uma envolvência social muito grande. Aproveitavam-se todos os momentos: viam-se doentes, comia-se um chouriço acompanhado de um copo, combinava-se uma ida ao rio para apanhar uns peixes ou uma ida à caça e matar um coelho para pôr no tacho. Agora, eu deparava-me com pessoas fragilizadas, sem recursos, sem dinheiro para ir ao médico.

Como não tinham meios de transporte, esperavam pela feira que havia na Vila, onde existia um hospital da Misericórdia, com meia dúzia de camas e dois médicos que faziam consultas e internavam um doente ou outro. Perante isto, não ia ficar de braços cruzados. Mais tarde, nos anos oitenta, quando a medicina já dispunha de alguns meios técnicos, como radiologia e análises, e as doenças eram mais complicadas trazia-os para Lisboa para os estudar e tratar.

Era grande a miséria no interior do país.

Dou-lhe um exemplo. Um dia disseram-me que um pastor, um jovem de 28 anos, casado e com uma filha pequenina, estava paralítico, não conseguia andar. Fui vê-lo a Escalhão, uma aldeia próxima, fiz-lhe a história clínica e a observação que é o mais importante em medicina. Também era pastor. Na altura, havia muita brucelose naquela região. Suspeitei logo do que era e que estava num estádio avançado com lesões vertebrais. Trouxe-o para Lisboa. Nessa altura, eu trabalhava no Hospital de Cascais. Fiz-lhe as análises e confirmei o diagnóstico: ficou internado seis semanas, tratei-o de acordo com o estado da arte. Um dia, pensando que ele ficaria todo radiante, disse-lhe que ia ter alta. Mas percebi que ficou muito aflito, até lhe vieram as lágrimas aos olhos.

Porque no hospital, pelo menos, podia comer três vezes ao dia…

Não, pior: não tinha dinheiro para apanhar o comboio para ir para a Guarda. Então, meti-lhe uma determinada quantia num envelope e disse-lhe: «Tem aqui dinheiro para a viagem e para refazer a sua vida quando chegar à aldeia». Para que não parecesse que era uma esmola, disse-lhe que me pagaria quando pudesse. O coitado resistiu imenso até aceitar. Uma semana depois, vou à aldeia e ele aparece-me com o dinheiro. Disse-lhe: «Ó homem, você numa semana não conseguia arranjar isso. Não me diga que foi roubar!», disse a brincar. Respondeu que tinha sido um primo que o emprestara. Insisti para que o restituísse e que me pagaria quando ganhasse.

Imagino que a história não acabe aqui…

Noutra semana volto lá e deu-se a mesma coisa. Só que desta vez trazia o dinheiro e um borrego. Falamos de pessoas que vivem muito mal, mas que têm um conceito da honra muito diferente do que existe na cidade. Percebi que não me via livre dele tão cedo e propus-lhe um acordo: eu ficava com o borrego e ele com o dinheiro. Foi um regateio muito renhido, mas acabou por aceitar.

Em contrapartida, devia de receber muitas galinhas.

Quer falar nisso? (risos) Oferecem-me galinhas, couves, batatas tremoços e azedas selvagens, pois sabem que eu gosto. A oferta maior que recebi foi um cabrito. E vá lá negar-se uma oferta destas! É uma ofensa. Isto antes do 25 de Abril. Já com o interior a caminhar para a desertificação, com muita gente a emigrar precisamente para escapar à vida dura do campo. Depois de acabar o curso, no internato policlínico tínhamos de fazer um estágio de saúde pública num centro de saúde. Optei pelo Fundão, por várias razões, uma delas porque estava próximo da minha terra. Andei em campanhas de vacinação por todas as aldeias da região, até as mais incrustadas e escondidas nos contrafortes das serras da Gardunha e do Açor. Uma das coisas que me impressionaram foi, nas escolas, ver crianças paradas e abúlicas, que estavam ao cuidado das avós porque as mães tinham emigrado. Lembro-me que muitos tinham grandes bócios pendurados nos pescoços curtos.

E isso porquê?

Porque ali não chegava o iodo vindo do mar e a sua suplementação através do sal iodado não encontrava aderência nas populações sem que se soubesse bem porquê. E essa falta levava a perturbações do funcionamento da glândula tiroideia que já se fazia notar naqueles miúdos.

Por que anda sempre com a mala e estetoscópio atrás?

Porque para todo o lado onde vou há doentes. (risos) Uns querem que eu os veja, outros querem receitas.
Os seus colegas de caça dizem que até aí dá consultas e que espanta as perdizes, porque está sempre ao telemóvel!
São uns venenosos! Eu orientava, e oriento, muita coisa pelo telefone. Mas durante as caçadas também tratei muitos doentes, até espanhóis. Vou contar-lhe uma história. Um dia, vamos caçar para Espanha e, quando termina a largada, voltamos para o almoço. Mal chego, deparo-me com o dono do couto com um esfacelo que tinha feito no dedo com a arma. Era fim de semana e não havia nenhum centro de saúde perto.

Aquilo era um lanho grande e o homem tinha de ser cosido. Comigo estava um otorrinolaringologista e um urologista. Ambos fazem cirurgia. Mas os cirurgiões viram a mesa cheia de petiscos e foram-se alambazar. Eu levava a minha mala, mas não tinha material para coser. Porém estava lá a costureira do couto e peço-lhe linha e agulha, tinha de me desenrascar. Mas espreito para a caixa da costura e não é que estava lá um fio de sutura! E assim despachei o assunto a sangue frio e a cicatriz nem ficou mal de todo. O homem ficou todo contente e leva-me à mesa para me banquetear. Não é que eles tinham comido tudo? Não sobrou nada. Apanhei uma barrigada de fome. Foi a minha recompensa!

Quem o conhece bem diz que é infalível nos diagnósticos, que parece um bruxo.

Na medicina, não há bruxedos. Para se fazer o diagnóstico correto das doenças é necessário ouvir e ver o doente, ter perspicácia clínica, estudar muito, adquirir experiência e ser dotado de uma boa memória. Depois de me formar fui colocado no hospital do Capuchos e fazia urgência no de São José, que era caótica. Mas eu adorava trabalhar ali, onde aprendi imensas coisas. Dava comigo a ir à procura das doenças.

Quando não conseguia chegar a elas pedia ajuda aos colegas mais velhos: ao gastrenterologista, ao internista, ao cardiologista, ao cirurgião. Cheguei a uma altura, em que não podia viver sem o hospital e foi isso que me dava traquejo. Um dia chegue à Unidade de Cuidados Intensivos, onde também fazia o meu turno de urgência semanal, e chamou-me a atenção uma jovem que tinha cor de ferro e estava em falência renal. Lembrei-me de um artigo editado pelo Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Santa Maria, que falava sobre a hemólise intravascular disseminada.

O que é isso?

É uma destruição de sangue dentro do vaso sanguíneo, provocada por uma bactéria que só sobrevive em meios sem oxigénio e ocorre muito nos abortos, séticos, feitos por curiosas. Perguntei à doente se tinha feito algum e em que circunstâncias. Ela confirmou o que eu já suspeitava.

Mas porque é que a senhora estava da cor do ferro?

Porque a destruição dos glóbulos vermelhos espalha ferro por todo o corpo e vai entupir os tubos renais. Falei com o diretor do serviço que mostrou reservas contra o meu diagnóstico e até foi um bocado áspero no diálogo. Dizia que tinha trabalhado muito tempo no serviço de hematologia e nunca tinha visto nada de semelhante. Nessa altura não havia meios técnicos para isolar a bactéria no sangue.

Então, virei-me para a colega, a Margarida Cancela de Abreu, que estava comigo de banco, e disse-lhe: ‘Só temos uma solução: isto tem de ir com penicilina em doses cavalares e fazermos uma ex-sanguíneo-transfusão. Vamos passar a noite toda à seringada! Teve de se remover o sangue da doente: num braço tira-se o sangue infetado e no outro mete-se o bom. Tempos depois, estava no hospital dos Capuchos, vem uma jovem a correr na minha direção: abraça-me e beija-me, agradecendo por lhe ter salvado a vida.

Era essa doente?

Sim. Mas não a reconheci porque ela era muito branca e quando a vi estava da cor do ferro.

Portanto, não recebia só galinhas e couves?

Os abraços e os afetos são bem melhores. Mas foi através de casos como este que a consciência me disse que estava predestinado para exercer o ramo da Medicina vocacionado para fazer uma abordagem global do organismo humano.

A Medicina Interna, em que se especializou? E o que é isso da Medicina Interna?

Digamos que é a especialidade generalista dentro de um hospital. O médico de Medicina Interna abarca toda a patologia médica, só não faz cirurgia. Há quem diga que é a clínica geral dos hospitais. O médico internista deve fazer o diagnóstico de doenças que nunca viu mas que sabe existirem.

Além de toda esta labuta também é escritor. O que leva um médico a escrever?

Sempre gostei de escrever. Na instrução primária deliciava-me a fazer redações. Enquanto funcionário judicial tinha de elaborar documentos, como notificações e acórdãos. Como médico ficava entusiasmado quando havia casos clínicos raros ou didáticos que merecessem publicação e também fazia revisões de temas para apresentar. Aperfeiçoava-me ao máximo nestas tarefas! Mas a ideia de dar livros à estampa é tardia. Aconteceu já neste século. Explico melhor: em 2006 fui desafiado a escrever uns textos para o jornal da minha região – Ecos da Marofa.

A maioria deles era sobre temas relacionados com a Medicina. Mas não resisti e acabei por alargar o âmbito da minha intervenção a questões antropológicas, que tinham a ver com vivências da minha infância e juventude. Como me alargava na escrita, os escritos não cabiam numa página de jornal. Por isso, a edição de um livro tornou-se quase obrigatória. É assim que nasce o Rio de Memórias. Depressa voltei às origens para escrever o Às Oito Menos um Quarto.

Este romance tem muito a ver com a emigração interna e externa daquela região. Entretanto, como tinha muitas histórias para contar relacionadas de alguma forma com o meu percurso pela Medicina, aventurei-me à escrita de Nas Margens da Medicina. Só lhe dei este título porque o Fernando Namora já tinha roubado o que eu gostaria com Retalhos da Vida de Um Médico. (risos) 

Mas também tem o gostinho pelo policial. Num dos seus livros ficciona o caso do gangue do multibanco sobre o trágico sequestro e morte de Ana Cristina, no início dos anos noventa pelo conhecido Gangue do Multibanco que assaltava mulheres e obrigavam-nas a fornecer o código do multibanco e a levantar dinheiro. Há aqui um claro afastamento da Medicina.

Pelo contrário. Descobrir um criminoso é semelhante à descoberta de uma doença que martiriza um ser humano.

Passou por cargos de chefia nalguns hospitais até chegar a diretor do Hospital Garcia de Horta, em Almada. Teve uma carreira preenchida e, depois de se aposentar, não conseguiu ficar quieto e criou uma fundação com o seu nome. Qual é a função social da FAC (Fundação Álvaro de Carvalho)?

Quando me reformei do serviço público, alguns amigos e colegas acharam que eu ainda tinha muito para dar à Medicina. Certo dia, o Dr. Luís Queirós, o fundador da Marktest, o verdadeiro mentor desta ideia, desafiou-me para criar uma fundação que tivesse por missão social prestar cuidados de saúde a populações carenciadas, preferencialmente no interior do país, sobretudo nas Beiras. Aceita a ideia, o maior problema para mim foi mesmo chegar ao nome da fundação. Tinha sugerido algumas hipóteses como Haja Saúde, mas a maioria dos curadores entendeu que deveria ficar com o nome do fundador porque era a minha imagem que estaria ali representada.

O problema nas coisas começa sempre pelo dinheiro. Como esteve dos dois lados, médico e gestor, isso deve-lhe ter facilitado a vida.

Esse foi o primeiro passo, mas nunca tive problema com dinheiros (risos). E ainda espero chegar ao Ronaldo… Arranjei vários beneméritos que se quotizaram e ultrapassou-se o primeiro passo – a angariação dos fundos necessários para constituir uma entidade destas, em que é preciso ter um património de 250 a 300 mil euros. Por outro lado, cedo percebi que era fundamental articular esta iniciativa com o SNS, instituições locais e estabelecer parcerias com as Câmaras.

Assim, tão fácil?

Também não parei. Candidatei-me a um prémio do BPI e ganhei um prémio no valor de 55 mil euros. Tenho um casal que vivia em Londres que sempre que tem uma ‘dor de barriga’ vem ter comigo e já deram à fundação umas centenas de milhares de euros. Tenho também um amigo, que tem um carinho especial por uma aldeia da Beira onde a mãe e a avó foram professoras. No Natal costumava oferecer um cabaz às pessoas mais carenciadas da terra. Quando soube das ações da fundação, propôs-me substituir-se à câmara para custear as cirurgias. Já foram operadas nove pessoas. 

A oftalmologia foi o primeiro problema a ser atacado pela sua fundação, porquê?

Fui para o terreno ver quais eram as principais necessidades e verifiquei que as listas de espera em oftalmologia eram enormes. Havia pessoas que esperam 1.500 dias para ter uma consulta. Operações às cataratas nem se fala: nunca chegam a ser operados porque o SNS não tem resposta.

Ou seja, o interior estava quase cego?

Sim, estamos a falar de uma população muito idosa, que já não consegue ver as cores da televisão. Tropeçam com regularidade e fazem roturas do colo do fémur ou fraturas cranianas. Conheci uma senhora de Vilar Formoso, que tropeçou numa vela e incendiou a casa.

E, com os filhos emigrados, não devem ter ninguém que os encoraje à operação.

É um drama. A iniciativa não parte delas e é preciso encorajá-las porque as pessoas estão resignadas. Havia gente que ainda andava na apanha da azeitona e deixou de trabalhar porque já não conseguia ver. Apanhei até um motorista de pesados, com 55 anos, que estava parado há um ano porque já não via. Ora, um homem não pode deixar de trabalhar por falta de uma operação que se faz em 20 minutos. Mesmo pessoas muito idosas, por mais curta que seja a sua esperança de vida devem de ser operadas. Isto não é um luxo, é uma prioridade.

Envolvendo cirurgias, deve ter sido complicado de levar o projeto por diante.

Consegui parcerias com algumas autarquias, de forma a custear metade das cirurgias. A fundação paga o resto. E agora, outras que não se envolveram de imediato, ao verem os resultados, começam a estar interessadas. Estabeleceram-se protocolos com todas as entidades envolvidas e as operações são feitas no Hospital da Cruz vermelha, em Lisboa, e na Clínica COBI, em Castelo Branco.

Quantas operações às cataratas já foram feitas pela FAC?

Em dois anos e meio (porque a pandemia atrasou-nos imenso), foram feitas 330 cirurgias. Mas, no terreno, percebi que outras das grandes carências era a dermatologia. Em Castelo Branco, não havia especialistas e os doentes tinham quando muito direito a teleconsulta. Então, arranjei um dermatologista, um general da Força Aérea aposentado que passou a ir comigo. No centro de saúde e no hospital, por cada ida, num fim de semana, fazia 40 consultas. Lembro-me de serem diagnosticados três melanomas, uma doença altamente maligna e que, se se diagnosticada no início, tira-se e acabou. Caso contrário evolui rapidamente para a morte. Três diagnósticos certeiros significaram a vida de três pessoas.

Isso é um ritmo imparável! Não faz férias?

As férias para mim são uma sensaboria (risos). Nessas zonas interiores também havia problemas na área da cardiologia. Arranjei também uma cardiologista: ela dava as consultas, fazia ecocardiogramas e eu os eletrocardiogramas.

Mas as ambições da fundação não ficam por aqui.

A fundação pretende ter um âmbito nacional, embora com especial incidência nas zonas deprimidas do interior do país. E já estamos a trabalhar noutras áreas, como as doenças crónicas, sobretudo do foro oncológico, cardiovascular, hipertensão arterial, diabetes, demências, e apostamos também em ações de educação para a saúde, de prevenção, e medicina de reabilitação. Por exemplo, nos lares, percebemos que era fundamental dar formação às funcionárias. Então levo daqui um grupo de cinco fisioterapeutas, todas formadas no Alcoitão, para as ensinar a forma correta de posicionar os doentes, levantá-los, deitá-los e evitar acidentes. Porque o doente não é nenhum saco de batatas. Por outro lado, essa formação também evita acidentes às próprias funcionárias, como lesões no ombro e na coluna, que são muito frequentes.

A covid-19 vai ser a doença do século?

Acho que a doença do século vai ser a demência.

Por que diz isso?

Hoje há muitas demências e a maioria dos diagnósticos é feita tardiamente. Como as pessoas têm uma esperança de vida muito maior, vão desenvolvendo outras doenças – nomeadamente, demências, como Alzheimer, que é terrível e a nossa sociedade não está preparada para ela.

Quer dizer que, com o desenvolvimento da ciência, o corpo pode ir resistindo às maleitas, mas o cérebro é o primeiro a ceder?

É isso. Hoje, transplanta-se tudo: ancas, pulmão, rim, coração… Antevê-se um futuro risonho nalguns aspetos, mas muito desumanizado. As pessoas vivem mais, mas nós perdemos por dia milhares de neurónios e os que restam têm de ser estimulados para poderem cumprir o máximo de funções possíveis – por exemplo, a ler ou a cuidar de um jardim o que desperta os neurónios que vão restando. A demência está a provocar problemas sociais tremendos. A maior parte das famílias não tem capacidade para poder ter estes doentes em casa e não existem estruturas adequadas para os receber. Neste contexto, atiram-se os idosos todos para o mesmo saco.

Ora, uma doença vascular não é o mesmo que o Alzheimer e estas pessoas não podem estar entaladas entre betão. A nossa sociedade tem de criar estruturas para estes doentes terem um espaço apropriado. E nos períodos em que melhoram poderem ir a casa e receber cuidados domiciliários. Gostaria muito de contribuir para a construção de uma estrutura assistencial destas nas Beiras.