Desporto

Roland Garros. O fascínio das asas...

O homem que deu nome ao grande torneio francês, não ligava muito ao ténis. Era, isso sim, um ás da aviação que acabou abatido nas Ardenas na véspera do seu 30º aniversário.


A pequenina bola amarela já saltita sobre a terra de Roland Garros nesta aventura que nasceu nos idos de 1891 com o nome programático de Championnats de France sur Terre Battue. E se essa é uma das suas características mais significativas o primeiro grande nome deste torneio centenário foi o de Maxime Omer Mathieu Decugis, o filho de um comerciante de Les Halles, o grande mercado de Paris entretanto desaparecido, que cometeu o exagero de vencer a prova em 1903, 1904, 1907, 1908, 1909, 1912, 1913 e 1914, somando-lhe igualmente 14 vitórias em pares e sete vezes em pares mistos. Um monstro. Se, por outro lado, o leitor resolver ir à procura dos feitos de um tal Roland Garros no torneio que leva o seu nome, aviso já que é tempo desperdiçado.

Roland nunca foi muito interessado pelo ténis e limitava-se a uma partida aqui e ali com o seu grande companheiro de farras, Émile Lesieur, que além de ser internacional de râguebi pela França, foi diretor do recinto aquando da sua construção, em 1925, e abriu a porta aos estrangeiros passando a competição a chamar-se Internationaux de France.

Émile Lesieur foi um atleta notável. Não se resumia a ser um grande jogador de râguebi nem um craque nos campos de ténis. Foi também um sprinter formidável e todos esses feitos conduziram-no à presidência da Federação de Atletismo de França.

Roland

Eugène Adrien Roland Georges Garros nasceu na Ilha da Reunião, na capital Saint-Dennis, no dia 6 de outubro de 1888. Aos 12 anos foi atacado por uma fortíssima pneumonia e os pais mandaram-no para Cannes com a confiança de que as temperaturas amenas da Côte d’Azur serviriam para lhe recuperar as maleitas nos pulmões. Dedicou-se ao ciclismo. E tornou-se amigo de um sujeito bem famoso na altura, o italiano Ettore Bugatti. De tal forma que se foi o primeiro francês a conduzir o apaixonante Bugatti Type 18, conhecido por Black Bess, pelas estradas do Hexágono.

Roland e o seu grupo de compinchas tinham tudo para desfrutarem de uma vida feliz e despreocupada, mas a I Grande Guerra Mundial rebentou precisamente a tempo de lhes destruir os sonhos. Garros tinha outra atração incontrolável: os aviões. Num período de vilegiatura do Verão de 1909, em Sapincourt, próximo de Reims, assistiu fascinado à Grande Semaine d’Aviation de la Champagne que decorreu entre 22 e 29 de agosto. A partir daí a sua decisão foi irreversível: seria aviador.

Começou a carreira nesse mesmo ano, pilotando um frágil aparelho chamado Demoiselle e tirou o brevet em julho de 1910. Subiu de escalão e passou para os Blériot XI, um avião bem mais potente, participando em várias provas um pouco por toda a Europa central. Nasceu o mito.

No dia 4 de setembro de 1911, bateu o recorde de voo em altitude atingindo os 3.950 metros. No ano seguinte, no dia 6 de setembro, depois de ter assistido à forma como o aviador austríaco Philipp von Blaschke ultrapassava a sua marca, chegando aos 4.360 metros, encheu-se de brios, meteu-se no cockpit e fez ainda melhor – 5.610 metros
Roland nunca estava satisfeito. Em 1913 a sua máquina voadora era um potente Morane-Saulnier. Foi num desses monoplanos que, no dia 23 de setembro, realizou o primeiro voo sem escalas através do Mediterrâneo, levantando de Fréjus-Saint Raphaël, no sul de França, para pousar em Bizerte, na Tunísia. A travessia acabou por ser um martírio de oito horas durante as quais Roland teve de se haver com problemas mecânicos que lá foi resolvendo como pôde.

Mal a guerra começou, todo o tipo de histórias foram nascendo em redor do piloto mais famoso de França, uma das quais relatando que teria resolvido atirar o seu avião contra um zepelim alemão, destruindo o monstro dos ares e morrendo na iniciativa. No dia seguinte, os jornais tratavam de mostrar Roland feliz da vida em Paris, na companhia do seu parceiro Émiçle Lesieur.

Em abril de 1915, depois de se ter despenhado para lá das linhas inimigas, foi feito prisioneiro e sofreu horrores até conseguir escapulir-se juntamente com o seu colega Anselme Marshall. Não tardou a reunir-se ao exército e a fazer estragos nos esquadrões inimigos. No dia 5 de outubro de 1918, a boa estrela abandonou-o. Foi abatido na zona de Vouziers, nas Ardenas pelo terrível ás dos ares alemão Hermann Habich que pilotava um Fokker D.VII. Corria a véspera do seu 30º aniversário. Lesieur não descansou enquanto não fez o seu nome durar para sempre. Neste caso nos courts de ténis.