Cultura

Guilherme d’Oliveira Martins: "Não há sombra de saudosismo em Eduardo Lourenço"

Responsável pela seleção de textos ‘essenciais’ de Lourenço, para a qual também escreveu a introdução, Guilherme d’Oliveira Martins esclarece alguns equívocos sobre o pensador desaparecido em 2020 que teimam em persistir e evoca uma relação de amizade que atravessou décadas.


Uma boa parte do que escrevi é de circunstância e isso contribui, de facto, para acentuar o carácter dispersivo daquilo que eu nunca considerei uma obra. Vejo-o mais como uma errância. Deixei-me sempre levar pelas águas do tempo. E como não tenho projectos de estátua pessoal, é-me indiferente», disse Eduardo Lourenço ao jornalista Luís Miguel Queirós, do Público, em 2007.

Falecido a 1 de dezembro de 2020, aos 97 anos, Lourenço teve uma vida muito longa e deixou um legado a condizer. A Fundação Calouste Gulbenkian está a publicar esse legado na íntegra: até ao momento, já saíram nove volumes de grande porte – e vêm mais a caminho. Na Gradiva, a obra do ensaísta ocupa mais de vinte volumes. 

É um corpus imponente, quase intimidatório para o leitor comum. «A sua obra é um conjunto enciclopédico», resume Guilherme d’Oliveira Martins, jurista e administrador da Fundação Gulbenkian, que teve uma longa relação de amizade com o filósofo.

Mas, para aqueles que querem descobrir o pensamento de Lourenço e não sabem por onde começar, acaba de sair um pequeno volume, com prefácio de Tolentino Mendonça e introdução e seleção de Oliveira Martins, que torna a abordagem mais acessível: Ver é ser visto – Fragmentos essenciais (ed. Gradiva).

«Procurei que os textos aqui reunidos fossem daqueles que Eduardo Lourenço considerava que deviam ser lidos para abrir horizontes», explica Guilherme d’Oliveira Martins. As escolhas resultam de um trabalho recente, mas também de frutuosas trocas de ideias com Lourenço. Inclusive no gabinete onde nos recebe. «O professor Eduardo Lourenço tinha o gabinete ao lado do meu e às vezes, se precisava de arejar um pouco, vinha para aqui, sentava-se e falávamos», confidencia.

O volume de ‘fragmentos essenciais’ agora publicado foi o ponto de partida para uma conversa sobre o grande pensador desaparecido no ano passado, a sua obra e até os equívocos que suscitou.

Para antologiar um autor é preciso conhecê-lo bem. Lembra-se de quando teve o primeiro contacto com a obra de Eduardo Lourenço?

O primeiro contacto que tive com a obra de Eduardo Lourenço foi através da revista O Tempo e o Modo, e sobretudo através dos textos sobre a literatura contemporânea. A revista O Tempo e o Modo representou uma nova forma de abordar a questão cultural, uma perspetiva heterodoxa. Isso significa, na prática, demarcar-se de duas áreas: a área mais conservadora e a área neo-realista. O Tempo e o Modo representou isso mesmo, porque chamou a atenção para autores como Jorge de Sena, Agustina Bessa-Luís ou Herberto Helder – sublinho:Herberto Helder –, que representavam algo diferente do que era a perspetiva dominante.

Mas devia ser muito novo nessa altura…

Estamos a falar da minha adolescência. É aí que encontro Eduardo Lourenço. Houve dois autores que se me revelaram fundamentais – Eduardo Lourenço e António José Saraiva –, exatamente porque lançaram pistas novas relativamente ao pensamento político, abrindo o horizonte democrático pluralista. E, curiosamente, Eduardo Lourenço vai refletir em diálogo com António José Saraiva. Por isso, sendo diferentes, considero fundamental lermos em paralelo as suas obras publicadas, por coincidência, na mesma editora.

Referiu que Eduardo Lourenço se demarcava desses dois grandes campos – os conservadores, por um lado, e os neo-realistas, por outro. A certa altura ele diz que a opção pela heterodoxia vem com um preço a pagar: «A amargura e a solidão». Eduardo Lourenço era alguma destas coisas?

O professor Eduardo Lourenço não era uma pessoa depressiva. Via as coisas positivas – com uma certa ironia, claro… A minha interpretação quanto a essa afirmação, que ele tantas vezes fez, é que tem a ver com a incompreensão. Muitas vezes Eduardo Lourenço considerou que era visto de forma simplificada. No meu texto introdutório chamo a atenção para algo que é o próprio Eduardo Lourenço a dizer: ‘Muitas vezes leem-me de forma redutora.

Eu abro vários horizontes e não me atenho apenas a uma perspetiva estrita’. Um exemplo disso: o tema Portugal. Eduardo Lourenço diz: ‘Refleti sobre Portugal mas não é esse tema que fundamentalmente me ocupa’. Outra ideia errada é pensar-se que se demarca completamente de António Sérgio. Não. O que critica é a ideia de mito cultural… que Eduardo Lourenço, aliás, receia também relativamente a si mesmo... [risos] Quanto à sua questão, a minha resposta é que Eduardo Lourenço sentia que pagava um preço pela heterodoxia e esse preço era uma menor compreensão e uma simplificação.

Em tempos recentes víamos muitos a citá-lo, até políticos em discursos, imagino eu que sem o compreender ou compreendendo apenas de forma muito superficial. Ele queixava-se disso?

Queixava-se, claramente. A preocupação dele era esta: ‘Leiam-me’. [risos] ‘Leiam-me e, lendo, perceberão’. Para demonstrar essa incompreensão, ele muitas vezes dizia: ‘Quando saiu o livro Pessoa Revisitado vi algumas recensões’ – superficiais, como é evidente – ‘Pessoa Revisitada’. [risos] O fascismo nunca existiu foi outro título irónico que muitos não compreenderam.

Pergunto-lhe agora o que se pretende com este volume. Ter uma primeira introdução ao pensamento de Eduardo Lourenço, uma amostra da sua obra, dos temas que o ocuparam?

Uma amostra, claramente, e por isso usámos a expressão ‘fragmentos’. Diria que o objetivo é justamente abrir perspetivas e evitar a simplificação. Por isso os textos são diversos nas suas temáticas e estão identificados. Não estão organizados de forma sistemática, mas têm uma coerência de linha, vemos uma caminhada. Indiscutivelmente Eduardo Lourenço considera que a sua reflexão mais importante é a de Pessoa Revisitado, e portanto a sua interrogação sobre a raiz dos heterónimos e a própria importância, em termos da cultura europeia, de Fernando Pessoa e daquilo que ele significou na sua pluralidade.

Esse [’A existência mítica ou a porta aberta’] será então o texto-chave deste volume?

Sim, sim, indiscutivelmente – porque Eduardo Lourenço o considerou assim. Muitas vezes fala-se do Labirinto da Saudade. Esse é um título que foi dado na edição da Snu Abecasis, na D. Quixote, mas o texto principal não se chama assim: chama-se ‘Psicanálise mítica do destino português’. Só que isto não é título para um livro que se venda...

Não é publicitário o suficiente!

Se virmos bem, O Labirinto da Saudade é um texto que depois Eduardo Lourenço, sobretudo em 98, vai revisitar a propósito da mitologia da saudade, clarificando um bocadinho as coisas. Devo dizer, a esse propósito, que não há sombra de saudosismo em Eduardo Lourenço.

É um traço que as pessoas lhe associam mas que ele está constantemente a recusar.

Está constantemente a demarcar-se dessa ideia. Porque o texto principal nunca se chamou O Labirinto da Saudade. Esse foi o título que lhe puseram e, enfim, ele aceitou… Mas estou convencido de que Eduardo Lourenço talvez não usasse esse título, até por causa da confusão com o volume de ensaios de Octavio Paz, El Laberinto de la Soledad. Acontece que o livro de Octavio Paz não tem nada a ver com essa reflexão de Eduardo Lourenço – e ‘soledad’ não é saudade, é solidão.

Só que soa muito parecido.

Exatamente. Mas, ainda relativamente à intenção deste volume, os textos principais estão aqui. Em 1998, para a Expo 98, Eduardo Lourenço vai justamente complementar e clarificar as coisas e demarcar-se do sebastianismo. E isso está aqui, assim como a entrevista que dá à revista Relâmpago, onde claramente explica que escreveu sobre temas muito diversos, autores muito diversos e que por ter escolhido determinados autores houve quem entendesse que estava a identificar-se com eles.

Não – estava a identificar-se com a cultura portuguesa, que é uma cultura multímoda, não é uniforme. E por não ser uniforme é que temos em Camões, em Antero e em Pessoa as três referências fundamentais em torno das quais Eduardo Lourenço vai refletir. Depois, obviamente, teve o cuidado de dizer: não podemos falar de Fernando Pessoa sem falar de Cesário e de Camilo Pessanha, não podemos falar de Camões sem falar de Sá de Miranda. E finalmente o Antero, em toda a sua complexidade pessoal. Antero tem muitas coisas importantes – quer Eça, quer Oliveira Martins consideraram que ele era um homem da Idade Média vivendo na modernidade.

O destino trágico de Antero [que desde novo aludia a uma doença misteriosa e se suicidou num banco de jardim em Ponta Delgada] também tocava Eduardo Lourenço?

Tocava particularmente, embora fazendo a crítica daquilo que Unamuno dizia – Portugal, país de suicidas [o filósofo espanhol assinou um livro a que deu o título Os Portugueses, povo de suicidas]. Eduardo Lourenço considera que não. Quando lemos as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares – e temos aqui um magnífico texto introdutório a essa conferência do casino – vemos que Antero olha para a modernidade e diz: ‘A decadência não é uma condenação. A decadência é um estímulo para qualquer coisa’.

Perante a constatação da decadência, é necessário ter um sentido positivo e recusar a tentação fatalista. De resto, Eduardo Lourenço lembrou muitas vezes que a expressão ‘Vencidos da Vida’ é irónica. Foi uma expressão que o Ramalho Ortigão tirou de um grupo que existia em França, que se chamava ‘Battus de la Vie’. ‘Battus’ não é vencidos – ‘battues’ no sentido de que tinham tido uma vida bastante atribulada.

Deixou que o seu gosto pessoal interferisse na seleção dos textos?

Tive a preocupação de que interferisse o menos possível. E, tendo conversado muitas horas com Eduardo Lourenço, procurei que os textos que aqui estivessem fossem daqueles que ele considerava que deviam ser lidos para abrir horizontes. Este livro não é um livro fechado, é um livro aberto. Até porque, tratando-se de um ensaísta com a enorme produção que Eduardo Lourenço tem, é muito difícil fixarmo-nos neste ou naquele texto.

O que temos aqui é um bocadinho a ponta do icebergue?

Claramente.

Um dos textos incluídos é um prefácio a uma biografia, assinada por si, do historiador – e não só – Joaquim Pedro de Oliveira Martins, seu tio-bisavô. Essa biografia é de 1986. Isso foi há 35 anos, mas presumo que nessa altura já se conhecessem bem. Gostava que me evocasse a vossa relação pessoal.

Iniciou-se por uma relação puramente do leitor e do autor, e depois de encontro mútuo. Eu era então um jovem e pedi a uma referência da nossa cultura esse texto. Incluí-o aí porque é um texto que Eduardo Lourenço considerava especialmente importante porque é uma chave, uma chave que tem a ver não só com a importância que o Oliveira Martins tem na relação com o Antero de Quental, mas simultaneamente porque Oliveira Martins é talvez o autor que, sem ter sido citado expressamente por ele, mais influenciou Fernando Pessoa. Lembro-me de uma célebre visita que fizemos juntos ao Prado em que Eduardo Lourenço falou comigo durante cerca de uma hora sobre os autores não citados que influenciaram Fernando Pessoa. Eduardo Lourenço considerava que Fernando Pessoa é profundamente influenciado pela perspetiva histórica de Oliveira Martins.

Curioso: estavam num museu mas Eduardo Lourenço puxou a conversa para a literatura…

É verdade.

Ele era aquele tipo de intelectual ‘com a cabeça nas nuvens’, como se costuma dizer, que só pensava em coisas mais abstratas ou era uma pessoa com os pés na terra?

Muito com os pés na terra. Era um verdadeiro, como se costuma dizer, ‘camponês do Danúbio’. Era um beirão que não esquecia as suas raízes. Era alguém que gostava da vida, da terra, das raízes.

Dos prazeres?

Também. E da amizade.

Disse-me que Eduardo Lourenço recusava o saudosismo. Criticou os excessos, os empolamentos, as ilusões de grandeza, mas também o autoamesquinhamento. Podemos dizer que tentou mostrar-nos as coisas como elas são?

Ele tinha muito a ideia de que não somos melhores nem piores do que os outros. Lídia Jorge dizia num ensaio, durante o tempo da troika, que nós não podemos andar entre a glória e o lixo. Eduardo Lourenço também pensa isso. Não somos uma coisa nem outra. Tinha muito a ideia da naturalidade e da imperfeição.

E de sabermos conviver com ela?

Exatamente. Por isso até usa a expressão ‘maravilhosa imperfeição’. E recusa a lógica fatalista. Nem eleitos, nem condenados. Talvez esse distanciamento resultasse também de ter uma perspetiva abrangente da história. Há sobressaltos, mas na longa duração notam-se mais as permanências, as continuidades. Sobretudo numa sociedade que tem a perspetiva das cidades e o Portugal profundo. A realidade de Portugal é tudo isso. Em momentos cruciais como a guerra civil, entre os liberais e os absolutistas, vemos que é muito a cidade contra o campo. A sociedade rural e a sociedade urbana – as duas coexistem.

E entram em tensão…

Não é por acaso que, só no tempo de D. Maria II, temos três guerras civis. Três guerras civis que em determinado momento permitem um consenso. Esse consenso leva a que haja o rotativismo, que é uma ideia de Alexandre Herculano. Quando vence o golpe de Estado da Regeneração, em 1851, o Herculano diz: ‘Não vamos só criar um partido. Vamos ter de criar uma oposição’. Como é evidente, lembrava-se da sua experiência em Inglaterra.

Nos últimos anos Eduardo Lourenço era uma espécie de monumento nacional ou ‘monumento vivo’, o que se via na forma como as pessoas se lhe referiam e dirigiam. Ele tinha consciência disso?

Ele compreendia bem que isso era circunstancial e que o julgamento do tempo é que viria a seguir. Tinha inteligência suficiente para perceber que a crítica ou o acordo são faces naturais de quem pensa.

Como é que ele assistia às mudanças do mundo? As redes sociais, esta ânsia do imediato, a tecnologia...

Com grande atenção, mas com grande distância. Por exemplo, o mundo das redes sociais foi sempre um mundo – felizmente – um bocadinho estranho para EL. Digo felizmente porque muitas vezes ele teria dificuldade em lidar com isso.

Às vezes sentia-se de algum modo ultrapassado ou desgostoso com o estado das coisas?

Não. Ele continuava a ser um homem da leitura, dos livros, dos grandes autores, isso era para ele suficiente. Por isso lhe digo que lidaria certamente mal com o curtíssimo prazo das redes sociais.

Os livros serviam-lhe de barreira de proteção, de muralha contra certas realidades?

De barreira mas também de ligação com o mundo. Com o mundo que lhe interessava.

O que aconteceu à sua biblioteca?

A biblioteca está na Guarda. Já o seu espólio está na Biblioteca Nacional. Tem sido tratado e servido de base para a coleção da Gulbenkian. Não há uma arca escondida, e felizmente um conjunto vasto de investigadores, conhecedores da obra, quer em Portugal quer no Brasil, tem tido um papel muito importante. É uma personalidade extraordinária e felizmente podemos contar com a sua biblioteca na Guarda e o seu espólio na Biblioteca Nacional, portanto há matéria muito vasta para estudo.

Eduardo Lourenço morreu em finais de 2020…

No 1.º de dezembro.

No ano anterior perdemos Agustina. E há dias também evocou o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, que nos deixou há menos de um ano. Como vê estas perdas para o país e para a cultura, como devemos lidar com elas?

Como lidamos com a vida. Hoje, com a minha idade [68 anos], a maior parte dos meus amigos já cá não estão, a maior parte dos meus amigos são de memória. Temos que lidar positivamente com isso. Muitos desses meu—s amigos deixaram exemplo, deixaram a escrita, deixaram reflexão. E isso é o mais importante – preservarmos e honrarmos a sua memória. Um povo sem memória é um povo suicida.

Mas a memória de Eduardo Lourenço está muito próxima. Ele tinha o gabinete ao lado do meu e às vezes, se precisava de arejar um pouco, vinha para aqui, sentava-se e falávamos. Ainda há pouco estava a olhar para o sítio onde você está sentado e é difícil eu próprio realizar que ele agora não bate aí à porta e entra. É difícil, mas as coisas são assim. Por isso é que digo: a maior parte dos meus amigos já cá não estão. Isso é inexorável. E um dia eu também não estarei.
Certamente conhece aquele provérbio africano, ‘Um velho que morre é uma biblioteca que arde’. No caso de Eduardo Lourenço isso devia poder ser quase levado à letra.

É verdade. Mas como escreveu muito essa sensação atenua-se. A minha preocupação é lermos com olhos de ver. Foi isso que ele nos ensinou. E não nos ficarmos pelo elogio mútuo. Poderia haver quem pensasse que o Professor Eduardo Lourenço gostava de ser glorificado. Não. Tinha uma perspetiva muito rigorosa, muito serena, relativamente àquilo que representava. Incluindo a sua imperfeição natural, que não podia deixar de aceitar.