Economia

Incertezas comprometem crescimento económico

A OCDE melhorou as previsões para Portugal e viu o PIB crescer 3,7% este ano. Ministro das Finanças aplaudiu as novas contas e já veio admitir que será possível ultrapassar as metas. No entanto, os economistas ouvidos pelo Nascer do SOL mostram-se menos otimistas. A opinião é unânime junto de João César das Neves, Nuno Teles, António Bagão Félix e Eugénio Rosa: as incertezas são muito elevadas e as perspetivas ‘valem o que valem’. 


A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) melhorou as projeções para a economia portuguesa, estimando agora um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,7% este ano e de 4,9% no próximo, mas fica abaixo das expectativas do Governo, que estima um crescimento de 4% para 2021 e de 4,9% para 2022.

As previsões económicas mundiais divulgadas pelo ‘Economic Outlook’ representam uma melhoraria face às publicadas em dezembro, quando a organização estimava um crescimento do PIB em 1,7% para 2021 e em 1,9% para 2022.
Uma revisão que foi aplaudida pelo ministro das Finanças ao lembrar que «a OCDE, que era a instituição mais pessimista, reviu em alta os números, aproximou-se muito das previsões do Governo e para 2022 tem a mesma estimativa do Governo, de 4,9%», levando João Leão a falar de uma fase de «viragem» e de «forte recuperação» que se está a observar. 

Na base desta melhoria está o crescimento do consumo, com uma redução gradual da poupança, à medida que a situação sanitária vá melhorando e as medidas de contenção forem eliminadas. «A forte atividade no setor transformador e a absorção de fundos da União Europeia apoiarão o investimento e as exportações», já o turismo e os serviços vão recuperar «apenas gradualmente, até que a pandemia esteja totalmente sob controlo», refere.

No entanto, a organização lembra que a política orçamental deve manter-se favorável até que a recuperação esteja firmemente em andamento, mas garante que «o apoio financeiro deve ser direcionado às empresas em dificuldades que ainda têm perspetivas viáveis». E vai mais longe: «Acelerar a implementação do Plano de Recuperação e Resiliência [PRR], ao mesmo tempo que se promove uma regulamentação favorável à concorrência, ganhos de eficiência nos serviços públicos e investimento verde, será fundamental para uma recuperação forte e sustentável».

Mas vamos a números. A OCDE prevê que a taxa de desemprego em Portugal seja de 7,4% este ano (contra 6,8% em 2020) e desça para 7% em 2022. E aponta para uma dívida pública de 133,4% do PIB em 2021, apenas duas décimas abaixo dos 133,6% do PIB registados em 2020, o que contrasta com a expectativa do Governo de reduzir a dívida para os 128% do PIB este ano. Em 2022, a OCDE vê a dívida nos 130,2% do PIB, também bastante acima dos 123% projetados pelo Programa de Estabilidade.

Também o Fórum para a Competitividade considera que existem «indicadores promissores» no segundo trimestre, principalmente os de confiança de consumidores e empresários e as vendas a retalho. Na nota de conjuntura de maio, o Fórum diz que é visível uma «clara recuperação» da economia portuguesa que poderá levar a uma revisão em alta do PIB anual.

«Para o 2º trimestre, em particular, há indicadores promissores (confiança e vendas a retalho)», diz a entidade liderada por Ferraz de Costa, acrescentando que «a confirmarem-se, faremos uma revisão em alta das nossas estimativas para o conjunto do ano». A atual previsão passa por um intervalo entre 1% a 3% para a subida do PIB este ano.
No entanto, os economistas contactados pelo Nascer do SOL põem várias reticências em relação a estas perspetivas, incertezas essas que põem em causa as metas previstas.

César das Neves: ‘Tudo ainda é muito incerto’
«As previsões iniciais eram muito vagas, porque o cenário estava muito nebuloso. Os sinais mais recentes têm sido em geral positivos» A garantia é dada ao Nascer do SOL por João César das Neves.
Ainda assim, o economista garante que a incerteza é muito grande. «Tudo é ainda muito incerto, sobretudo por causa da evolução desconhecida da pandemia, interna e externamente».

E, como tal, entende que é possível tanto superar como derrapar as metas previstas. «Neste momento tudo está em cima da mesa: tanto superar as metas como é possível o inverso». Face este cenário de incerteza. César das Neves garante «nada é é demasiado otimista, porque os sinais estão a ser positivos». Mas deixa uma alerta: «Nestas condições, ainda é muito cedo para ter certezas»

Nuno Teles: ‘Existem muitos riscos e não estou certo que o Governo esteja atento’
Nuno Teles vê a revisão de metas de crescimento económico como expectável dada a incerteza que rodeia a recuperação económica, dependente de muitas variáveis, onde a evolução nacional e internacional da pandemia continua a pesar. Mas ao Nascer do SOL deixa um alerta: «No caso português, depois de uma das maiores quebras no PIB em 2020, sabemos que 2021 não será ainda o ano em que a economia portuguesa retorna ao seu estado pré-crise.

Uma recuperação aos soluços que uma quebra tão profunda pode vir a deixar marcas na economia portuguesa com aumento de falências e desemprego». E garante: «Existem muitos riscos para os quais não estou certo que este Governo esteja atento». No entender do economista há muitas metas que foram previstas pela OCDE, mas que poderão derrapar. Uma delas diz respeito às previsões de uma taxa de desemprego de 7,3% que, a seu ver, «parecem demasiado otimistas».

Ainda assim, lembra que o desemprego não aumentou tanto como era esperado há um ano, mas por estar relacionado a programas como o layoff simplificado, moratórias de crédito e garantias públicas de crédito. «Se estas medidas terminarem abruptamente, com a economia num estádio inicial de recuperação (sem qualquer efeito do Programa de Recuperação e Resiliência), o aumento de rendimento pode não ser suficiente para que trabalhadores e empresas façam frente ao retomar das suas despesas, agora ampliadas pelo aumento do seu endividamento», diz ao nosso jornal.

Já em relação à perspetiva do défice orçamental, Nuno Teles lembra que se trata de uma variável endógena, dependente da evolução de receitas fiscais e despesa automática – nomeadamente, subsídios de desemprego – e, como tal, acredita que é difícil antecipar o que vai acontecer. «O mesmo se aplica às contas externas, muitos dependente da evolução da economia internacional e da evolução da pandemia, como é agora claro com o setor do turismo». Mas deixa uma garantia: «O Governo não pode ter uma atitude complacente em relação aos diferentes riscos que se apresentam com o fim das medidas de apoio. Caso contrário podemos ter surpresas muito desagradáveis no final deste ano».

De acordo com o economista, a fórmula de sucesso passaria por o Governo estabelecer as condições para uma recuperação económica robusta. Um cenário que, de acordo com o mesmo, não está a acontecer. «E mesmo com maior crescimento, ainda estaremos abaixo do rendimento nacional pré-crise pandémica», conclui.
 
Bagão Félix: ‘Previsões podem mudar com muita frequência’
«As previsões estão sujeitas a fatores que podem mudar com mais frequência do que em tempos “normais», refere ao Nascer do SOL, António Bagão Félix. E o economista dá exemplos: « Veja-se o caso da decidiu britânica de ontem. Por isso, o que vemos são exercícios feitos em razão de obrigações institucionais ou de calculismo político».
Uma situação que, no seu entender, ganha contornos, quando este ‘bloqueio’ surge, numa altura, «de marcação de ferias, em que o mercado inglês é decisivo».

Eugénio Rosa: ‘As previsões nunca acertam, sejam em alta ou em baixa’
«Nestes últimos 12 meses temos assistido a um caudal de sucessivas previsões, feitas pelo Governo e por ‘conceituadas’ instituições (Banco de Portugal, Comissão Europeia, OCDE, FMI, Conselho de Finanças Públicas, Fórum para a Competitividades) que sucessivamente alternam previsões de alta com previsões de baixa, mas que têm de comum o nunca acertarem». O alerta é dado ao Nascer do SOL por Eugénio Rosa. 

No entanto, o economista admite que para se poder compreender «a pouca consistência dessas previsões» é preciso ter presente a vulnerabilidade da economia portuguesa e a dependência ao exterior quer ao nível de importações, quer ao nível de exportações, apontando o dedo à dependência de Portugal a poucos países, nomeadamente a economia espanhola.

«Se se juntar a esta vulnerabilidade e dependência o facto de que uma recuperação rápida, embora ilusória, esteja dependente do turismo que, em 2019, representou cerca de 12% do PIB e que a recuperação deste assenta na confiança e esta leva tempo a restabelecer mesmo num contexto de segurança e o que é hoje verdadeiro neste setor, pode não não ser no dia seguinte, como mostrou a passagem de Portugal, na classificação de risco do governo inglês – e Inglaterra é vital para o turismo português – da ‘lista verde’ para a ‘lista amarela’». 

E os alertas não ficam por aqui. De acordo com Eugénio Rosa, a recuperação da economia portuguesa depende também do investimento e da criação de emprego, nomeadamente do setor privado e lembra que, se a maioria das empresas portuguesas já estava antes da pandemia descapitalizada, agora está ainda mais, o que «determina que o investimento privado e mesmo publico esteja muito dependente da ‘bazuca’, cujo inicio efetivo tem sido sucessivamente adiado e é de prever que só em 2022 isso aconteça com algum impacto». 

A somar a estes riscos estão ainda as moratórias que terminam em setembro, o que o leva a garantir que, se trata de «uma autêntica bomba relógio que pode rebentar com consequências económica e sociais imprevisíveis».

E face a esse cenário de «grande imprevisibilidade», acredita que qualquer previsão em alta quer seja do PIB, do emprego ou das exportações « envolve um risco muito elevado», dando como exemplo, os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes ao primeiro trimestre deste ano, em que o PIB caiu 5,4%, as exportações diminuíram 9,4%, e o consumo das famílias reduziu-se em 7,1%.

«Embora não se conheçam os dados referentes ao 2.º trimestre, os indicadores económicos não devem ter melhorado devido à nova vaga da pandemia, o que obrigou a novo confinamento, com consequências graves a nível económico e social. E é impensável que no 2.º semestre de 2021 se consiga uma recuperação até para atingir as anteriores previsões. Pode-se até ter novas surpresas como a que aconteceu há poucos dias com o sonho do turismo inglês, devido a novas variantes da covid que escapam à proteção dada pelas vacinas atuais», conclui.