Falar Baixinho

Viagens em foguetões de cartão

Eu tenho a sorte de ter cinco crianças em casa. Que me lembram todos os dias que os foguetões de cartão também voam, não só até ao espaço, mas até onde quisermos ir...


Um dia fiz com os meus filhos mais pequenos um foguetão com um grande caixote de cartão. Cortámos, pintámos, colámos um botão para a descolagem, sentaram-se lá dentro e… um dos meus filhos perguntou-me se o foguetão ia mesmo levantar voo.

Ser criança é não ter limites, é acreditar que tudo é possível. É ir experimentando e com o tempo ir percebendo até onde se consegue ir. É viver intensamente com todos os sentidos bem despertos: é estar atento aos pormenores, ver o que não vemos, sentir os cheiros mais subtis, os sons mais longínquos, as peles mais macias. É sentir o sabor da fruta. É ficar feliz com o presente mais simples, rir com as nossas piores piadas, levarem-nos às lágrimas com as suas gargalhadas mais sinceras. 

Ser criança é acreditar em nós, pais, acima de tudo, ver-nos como deuses, capazes de qualquer coisa, confiar que se nos derem a mão estão livres de qualquer perigo, acreditar que um beijinho nosso cura realmente um dói-dói. E cura! Porque eles acreditam.

É ter medo do escuro porque ele pode ser povoado por bruxas e maus que saltam da sua imaginação para o quarto.

Ser criança é ter bicho-carpinteiro e pilhas Duracel. É ser irrequieto e inquieto, é correr e saltar o dia inteiro sem ficar cansado. Pormos a mão sobre o seu peito e sentirmos aquele coração pequenino a bater tão depressa que nos faz perceber como ainda são tão frágeis.

Ser criança é ser bondoso. É ser amigo. É dar a mão aos avós acreditando que assim eles não vão cair. É ir a um parque e falar com os outros meninos como se já os conhecesse. É perdoar sem saber sequer o que isso é. É não guardar rancor. É correr para um amigo que não se vê há muito tempo e abraçá-lo com todo o amor. É ter o prazer de descobrir a amizade pela primeira vez. É adorar os seus amigos, estar desejoso de brincar com eles, ficar triste quando se vão embora ou quando lhe dirigem palavras feias.

Ser criança é ser inocente. De uma ingenuidade comovente, que o tempo vai acabando por levar.

Ser criança é ser corpo e mente num só. É responder energicamente quando estão felizes ou zangados, é levantar a voz proporcionalmente ao entusiasmo.

Ser criança é ser sincero, mesmo quando não se diz a verdade.

É saber e gostar de brincar e quase nada lhe dar tanto prazer quanto isso. É ter uma imaginação sem limites. É gostar de inventar, ser curioso, querer aprender e conhecer. É precisar de amor, atenção, colo e segurança todos os dias.

Ser criança é um privilégio de que só nos apercebemos quando deixamos de o ser. É ter a capacidade de pôr um adulto a ser criança outra vez. Ou a descobrir a criança que nunca deixou de ser. Não os apressemos a crescer, a sair deste estado de graça, deixemos que possam ser crianças o tempo que for preciso.

Eu tenho a sorte de ter cinco crianças em casa. Todas diferentes, cada uma mais especial. Que me fazem viver os momentos mais doces e fantásticos e também os mais desesperantes. Que me lembram todos os dias que os foguetões de cartão também voam, não só até ao espaço, mas até onde quisermos ir.