Internacional

Brexit. A "guerra das salsichas" está a aquecer

Londres quer continuar a enviar salsichas para a Irlanda do Norte, mas Bruxelas bateu o pé. Fala-se até da possibilidade de guerra comercial.


Já se sabia que o Brexit, mesmo depois de alcançado um acordo de saída entre Londres e Bruxelas, ia causar tensões durante anos. Mas talvez não fosse previsível que um dos motivos de discórdia entre o Reino Unido e a União Europeia fossem salsichas frescas. Sim, o comércio de salsichas frescas britânicas na Irlanda do Norte, que, por partilhar fronteiras com a República da Irlanda, país membro da UE, ficou sujeito a regras comerciais diferentes do resto do Reino Unido. No entanto, o Governo britânico decidiu estender o período de exceção a essas regras, no que toca a esses produtos, de maneira a que as salsichas britânicas continuassem a circular – deixando a UE furiosa, temendo que a exceção se tornasse a regra.

Por agora, não há solução à vista para aquilo a que a imprensa britânica apelidou de “guerra das salsichas”. E a discussão está a subir de tom. No seguimento das conversações falhadas de quarta-feira, a paciência de Bruxelas “está a escassear”, queixou-se Maroš Šefcovic, vice-presidente da Comissão Europeia, citado pelo Guardian, acrescentando que a relação entre a UE e o Reino Unido está “numa encruzilhada”.

A ideia é conseguir um acordo entre ambas as partes antes de 30 de junho – é proibido importar carnes frias de fora da UE, e seria nessa data que a Irlanda do Norte ficaria abrangida pela proibição, para impedir que salsichas britânicas cruzem a sua fronteira com a Irlanda.

Não o conseguindo, abriria a possibilidade de retaliações ou mesmo de uma guerra comercial, “mas ninguém quer meter-se numa guerra comercial ou algo do género”, garantiu uma fonte no Governo britânico ao jornal, reforçando que “todas as opções mantêm-se em cima da mesa”, queixando-se de que “a UE frequentemente parece recorrer a ameaças”.

Já Šefcovic deixou o recado: “Pode ser que os nossos parceiros britânicos não estimaram completamente o total de consequências do Brexit que escolheram, o que significaria deixar o mercado único, a união aduaneira, quão complexo seria para os negócios”.

“Espero que consigamos resolver isto”, apelou Robert Jenricko, secretário de Estado da Habitação britânico, à Sky News, falando em nome do Governo de Boris Johnson. “Porque também estão aqui em jogo coisas mais importantes que salsichas, como medicamentos, por exemplo”.

O problema para Londres, mais que os negócios, a importação de salsichas ou até medicamentos, talvez seja o impacto da chamada “fronteira no mar da Irlanda” na política da Irlanda do Norte. Quando o Governo de Johnson tenta criar exceções às regras que aceitou para sair da UE, está a responder aos receios dos unionistas, opositores da unificação da Irlanda, que, mais que a falta de salsichas britânicas, temem perder a sua identidade protestante com o afastamento comercial do Reino Unido.

A verdade é que os setores unionistas têm estado inquietos como nunca, tendo jovens protestantes, apoiados por grupos paramilitares, lançado motins em Belfast, considerados os piores desde o acordo de paz que pôs fim à guerra civil, em 1998. Tudo indica que não será a última vez que a questão irlandesa faz manchetes, ou causa discórdia entre Londres e Bruxelas.