Internacional

Medina, “cúmplice” de Putin queixa-se de erro “burocrático”

O envio dos dados de opositores à Rússia gerou exigências de demissão e de apuramento de que outras ditaduras receberam informações semelhantes.

 

Levantou-se um coro unânime de críticas ao presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, esta quinta-feira, por expor dados privados de três opositores do Presidente russo, Vladimir Putin (ver páginas 2 a 3). Enquanto isso, fica no ar a questão de se a prática de entregar dados de manifestantes a Estados autoritários acontecia quando o primeiro-ministro António Costa era presidente da Câmara de Lisboa - Medina não respondeu à pergunta, dizendo estar à espera de um inquérito interno - e o PS vai mantendo um silêncio constrangido, pontuado admissões de culpa. 

No meio de toda a contestação, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, até reagiu congratulando a Câmara de Lisboa, porque “o erro foi identificado e o procedimento foi corrigido”, em declarações à RTP1. E apelando a que “as autoridades russas que receberam indevidamente os dados cumpram as leis internacionais e os apaguem”. 

Já as restantes forças políticas não pareceram muito convencidas de que isso vá acontecer. E o tom está a subir.

“A partir de hoje, Medina não tem mais condições para ser presidente da CML”, declarou no Twitter Carlos Moedas, candidato do PSD à Câmara de Lisboa, prometendo fazer de Lisboa “uma cidade de liberdade, onde se celebra e defende a democracia em Portugal e em qualquer ponto do mundo”, chegando até a acusar Medina de ser “cúmplice” de Vladimir Putin, ao Observador. 

“Não me atinge particularmente”, rematou Medina, em entrevista à RTP1, considerando que “a acusação de que a Câmara Municipal de Lisboa está conluiada com o regime de Putin é simplesmente o mais puro oportunismo, um delírio”.

Para o presidente da câmara, o caso “é grave”, trata-se de “um erro que não podia ter acontecido, porque é prejudicial a uma coisa sagrada à nossa sociedade”, ou seja “o direito à manifestação, em liberdade, segurança e em paz”. Medina, assumiu as culpas enquanto líder da organização, mas frisou que foi um erro nos serviços e no aparelho do município

“Foi a repetição de um procedimento burocrático quando é realizada uma manifestação em Lisboa”, explicou Medina, notando que era prática corrente que os dados pessoais de organizadores de manifestações fossem enviados para o local onde se ia realizar o ato. Mas não esclarecendo se isso acontecera nos protestos contra estados como a Venezuela, Angola e Israel, ou durante o mandato do seu antecessor, António Costa. 

Entretanto, vindo de todo o espetro político, chegavam críticas. “Se este procedimento era comum, quer dizer que aconteceu também em outras circunstâncias? Pensemos nas manifestações contra os presos políticos em Angola. A embaixada angolana também recebeu os nomes de quem marcou esses protestos?”, questionou a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins. O líder do PSD, Rui Rio, teve, curiosamente, um discurso muito semelhante ao da bloquista, exigindo explicações, e esperando para ver se Medina terá de se demitir.

Já o presidente do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, falou num “um ato de terrorismo político e de subserviência”, acusando Medina de “entregar a cabeça de três pessoas a um Governo que viola os direitos humanos e mata opositores”. O líder do Chega, André Ventura, até pediu que o Ministério Público investigue se houve pressão da Rússia sobre a CML. Até o PCP, normalmente pouco crítico publicamente do Kremlin, assumiu que o caso era “grave”, num coro a que já se tinha juntado a Iniciativa Liberal e o PAN.