Opinião

É prematuro falar da sucessão de António Costa

Só um incidente com dimensão de escândalo ou uma pressão de bastidor do Presidente da República poderia levar António Costa a mudar de rumo. 


Por Judite de Sousa

Jornalista

Neste tempo de pós-pandemia, o espaço político perdeu aresta. Não pela falta de ‘casos’ que envolveram mais diretamente o ministro Augusto Cabrita e mais recentemente Pedro Nuno Santos que na atribuição de pastas ficou com um presente envenenado que dá pelo nome de TAP. Tanto um como outro não são remodeláveis a curto prazo. Posso estar enganada mas é a minha convicção depois de tantos anos a trabalhar na área da política nacional. Só um incidente com dimensão de escândalo ou uma pressão de bastidor do Presidente da República poderia levar António Costa a mudar de rumo. A outra possibilidade seria o primeiro-ministro entender que a melhor solução seria dar um novo fôlego ao Governo antes das eleições autárquicas. Seria uma espécie de relançamento da governação para enfrentar as eleições de outubro. Na esfera da análise política, esta hipótese faria sentido se o PS receasse um desaire nas próximas eleições. No entanto, nada indica que os socialistas irão perder terreno a nível autárquico. Creio que estas eleições poderão confirmar à direita um declínio do CDS e uma progressão do Chega. O PSD enfrenta uma prova difícil mas, qualquer que seja o resultado, Rui Rio irá resistir até às legislativas. À esquerda, o caminho também pode ser estreito para o PCP que nas eleições de há quatro anos perdeu concelhos tradicionalmente comunistas. 

É neste puzzle que se especula no âmbito mediático sobre a sucessão de António Costa e as suas ambições políticas. Antecipo que António Costa irá querer levar o mandato até ao fim. As deserções não são bem vistas pela opinião pública e podem desencadear respostas que se vêm a revelar grandes fracassos. Veja-se a saída de Durão Barroso para a Comissão Europeia e a entrada de Santana Lopes em S. Bento sem estar legitimado nas urnas. A lição foi entendida e as marcas perduram até hoje. Deste ponto de vista, é prematuro falar da sucessão de António Costa. O tema não pode nem deve ser tabu mas o tempo político não é o tempo mediático, nem a sociedade portuguesa corresponde integralmente ao pensamento das elites urbanas de Lisboa. Há muito mais país para além dos jogos da política.