Politica

Socialistas em clima de tensão

Já arrancaram as diretas que reelegerão António Costa para novo mandato como secretário-geral do PS. O Congresso está marcado para julho e o momento é de forte tensão interna. Como se não bastasse a ‘guerra’ no Porto, em que os seguidores de Pedro Nuno desautorizaram o líder, o caso dos dados partilhados pela CML com a Rússia vem adensar o ambiente.


Os socialistas arrancaram esta sexta-feira  com as eleições diretas para a reeleição de António Costa como secretário-geral num clima de tensão interna agravada pelos casos de Lisboa e do Porto para as autárquicas. As sucessivas polémicas com membros do Governo e com as nomeações também não ajuda ao clima de festa desejado para a reeleição do líder e chefe do Executivo. 

O processo de escolha do candidato à Câmara do Porto, em particular, desagradou a muitos socialistas – que classificam-no como «uma trapalhada». 

Eduardo Pinheiro, secretário de Estado da Mobilidade, foi anunciado como candidato, mas depois de muitas pressões desistiu da candidatura. O governante agradeceu «a confiança depositada», mas não aceitou o convite e tornou essa decisão pública na quinta-feira ao final tarde através de um comunicado. «O processo foi tratado com os pés. Andaram a empurrar com a barriga e o PS é o único partido que ainda não tem um candidato à Câmara do Porto», desabafa ao Nascer do SOL um socialista do Porto. 

A escolha do candidato foi apoiada por António Costa, mas foi bastante contestada pelo PS/Porto liderado pelo deputado Tiago Barbosa Ribeiro (afeto à ala maioritária no PS liderada por Pedro Nuno Santos). A falta de notoriedade de Eduardo Pinheiro no Porto terá sido uma das razões que levaram à contestação das estruturas locais para desafiarem e desautorizarem António Costa e a escolha por si patrocinada. «Houve várias pessoas que lhe disseram que ele não seria um bom candidato», conta um socialista que acompanhou o processo. 

A verdade é que Eduardo Ferreira não era mais do que uma solução para resolver as guerras entre os socialistas do Porto. José Luís Carneiro era uma das hipóteses mais fortes para enfrentar Rui Moreira, mas a distrital, liderada por Manuel Pizarro, nunca aceitou este nome, nem a concelhia de Barbosa Ribeiro. 

Pizarro já foi candidato e está disponível para voltar a avançar, mas as duas derrotas contra Rui Moreira fragilizaram esta solução. O recuo do candidato apoiado por Costa reabre o debate e voltam a estar em cima da mesa os nomes de Manuel Pizarro e José Luís Carneiro. Sendo que dificilmente será o segundo e, a ser o primeiro, Barbosa Ribeiro ganha peso para a elaboração do resto das listas.

O autarca de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, admitiu, em declarações à TSF, que a solução pode estar em Manuel Pizarro. «Existe um conjunto de pessoas que tem muita vontade de o ver, até para corporizar um espírito de unidade. Na verdade, este é um processo desgastante, colocando em causa a imagem do partido no Porto», reconheceu. 

Costa coloca decisão nas mãos da concelhia e distrital

António Costa manifestou «total solidariedade» a Eduardo Pinheiro e colocou o problema nas mãos das estruturas locais. «Quanto à candidatura do PS ao município do Porto, estou certo que, conforme resulta dos estatutos do partido, a Comissão Política Concelhia e a Federação Distrital saberão encontrar uma solução vitoriosa», disse o secretário-geral do PS.

José Luís Carneiro, número dois do partido e um dos nomes mais falados para assumir esta candidatura, fez o mesmo: «Esses assuntos têm que ser tratados com a distrital do PS e com a concelhia do Porto. Esperemos que as respetivas estruturas tomem as suas decisões».

Há socialistas que ainda defendem José Luís Carneiro como a melhor solução, mas o número dois do PS é também um dos nomes falados para voltar ao Governo quando o primeiro-ministro avançar com uma remodelação. 

Tiago Barbosa Ribeiro, líder da concelhia e deputado do PS, também esteve em cima da mesa. recebeu o apoio de muitos elementos da concelhia, mas acabou por não avançar por não ter mais apoios. «Fui dos que lhe disse que não seria um bom candidato. O porto tem um eleitorado mais conservador», conta  um antigo deputado e dirigente do partido.

Daniel Adrião, candidato à liderança do PS, é que não poupa nas críticas à forma como processo foi gerido. Ao Nascer do SOL, o dirigente socialista afirma que «a escolha falhada de Eduardo Pinheiro como candidato à Câmara do Porto é apenas o último exemplo de incompetência do secretário-geral do PS».

Pressões para remodelar

As eleições diretas arrancaram nesta sexta-feira por via eletrónica e nos próximos dias 18 e 19 os militantes podem votar presencialmente. Os socialistas vão escolher  o próximo secretário-geral e os 1.500 delegados ao XXIII Congresso Nacional, que está previsto  para os dias 10 e 11 de julho. 

Os militantes votam ainda para eleger a presidente e Comissão Política Nacional das Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos. 

O congresso vai ser realizado «em 13 locais distintos do país» devido à pandemia. 

E surge numa altura em que o Governo tem enfrentado vários casos difíceis de gerir, com uma sucessão de polémicas que colocaram vários ministro na lista dos remodeláveis, incluindo membros do ‘núcleo duro’ de António Costa, como

Mariana Vieira da Silva ou Augusto Santos Silva, no caso da bolha que rebentou no Porto com os adeptos ingleses que quiseram estar mais perto das suas equipas na final da Liga dos Campeões.

A lista de remodeláveis é naturalmente encabeçada por Eduardo Cabrita, que aparece relacionado com a vários casos desde há vários meses.

A necessidade de refrescar o Executivo em áreas sensíveis abre a porta a uma remodelação mais vasta, mas, apesar de vários sectores socialistas defenderem  que António Costa só deverá fazer mexidas após as autárquicas, há quem acredite que o líder poderá antecipar face à sucessão de casos com impacto mediático que fragilizam a sua própria liderança e a sua imagem no Congresso. 

António Costa resiste a fazer grandes mudanças no seu Executivo, mas começam a surgir demasiados sinais de desgaste em pastas fundamentais como a Educação, a Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, ou a Justiça, cujos ministros, tal como o da Administração Interna, já transitaram do anterior Executivo. 

Eduardo Cabrita é o ministro mais pressionado a sair depois de vários casos que o fragilizaram. O último foi a polémica com a festa do Sporting, mas António Costa voltou a sair em defesa de Cabrita e garantiu que tinha um excelente «ministro». No caso da bolha do Porto, o ministro afastou-se de responsabilidades, já que a coordenação da final da Liga dos Campeões foi feita diretamente entre a Federação Portuguesa de Futebol e ministra de Estado, Mariana Vieira da Silva.

Pedro Nuno Santos em silêncio

Facto que vai marcar o Congresso de julho é o posicionamento de Pedro Nuno Santos. Ao contrário do que aconteceu em 2018, no último congresso do PS, Pedro Nuno Santos não vai apresentar uma moção. O agora ministro das Infraestruturas foi um dos protagonistas dessa reunião magna e obrigou mesmo António Costa a garantir que ainda não tinha metido nem iria meter tão cedo ‘os papéis para a reforma’. 

Neste congresso, Pedro Nuno Santos, que não escondeu nunca as suas ambições à liderança do partido, deverá reservar-se a ‘ruidoso’ silêncio.

Fernando Medina, com este caso dos ativistas russos, sofre mais um forte revés como eventual concorrente de Pedro Nuno Santos, mas Ana Catarina Mendes não perde uma oportunidade para afirmar como alternativa. Ainda na semana passada, a líder parlamentar teceu fortes críticas a Pedro Nuno Santos.

Único opositor de Costa quer mudar o PS

Daniel Adrião é o único socialista que deverá enfrentar António Costa no congresso. O dirigente socialista candidata-se pela terceira vez e leva ao congresso uma moção recheada de propostas para mudar o funcionamento do partido. Na moção, intitulada Democracia plena, Adrião defende que «o PS funciona em circuito fechado» e lamenta que o aparelho partidário se confunda cada vez mais com o aparelho do Estado. «Assiste-se a um exercício pouco transparente de nomeação de quadros partidários para altos cargos na administração pública, sem que se lhes conheça ou reconheça competências e mérito curricular para o exercício desse tipo de funções», afirma, sendo que as nomeações de socialistas pelo Governo volta a ser um dos temas preferidos da Oposição.