Mudar a Bem

Porta Medina

Quando olhamos para trás percebemos que Fernando Medina pode bem estar de saída, desde logo porque nunca entrou muito. Com casos desta gravidade, a porta está aberta...


por Filipe Anacoreta Correia

Fernando Medina tem sido um presidente da Câmara discreto, com pouco desgaste e beneficiando de muito embalo das circunstâncias. Passou a presidente-titular, saltando do banco, depois de António Costa ter saído para assumir a liderança do Partido Socialista. Nas primeiras eleições que travou em 2017, Medina perdeu a larga maioria que o PS tinha em Lisboa (dos 11 mandatos de António Costa em 17 possíveis, Fernando Medina passou para 8). Numa altura em que enfrenta uma forte contestação, vale a pena olhar para o seu trajeto, para responder à pergunta sobre o seu futuro.

A carreira política de Medina emergiu sempre da sombra e nunca como protagonista primeiro.

No Governo de Sócrates foi secretário de Estado em duas áreas pela mão do mesmo ministro. Começou no Emprego, numa altura em que o desemprego teve um enorme crescimento (entre 2005 e 2009 o desemprego cresceu quase 25%). Mais tarde, continuaria a ser conduzido por José Vieira da Silva – o seu ministro-padrinho –, e assumiria a pasta dos fundos europeus, onde por exemplo autorizou o polémico empreendimento ZMAR de Odemira: um parque de campismo numa zona de reserva agrícola, que já falido e depois de ter absorvido dezenas de milhões de euros do financiamento europeu e nacional, viria a chocar o país.

Quando o PS entrava em declínio e procurava protagonistas para o seu futuro, foi escolhido para suceder a João Tiago Silveira como porta-voz. Fez a defesa de Sócrates quanto pode até à perda das eleições. Em 2017, pediu ao mesmo Sócrates para entrar na campanha em Lisboa a seu favor. Viria a dizer mais tarde que o seu primeiro-ministro (de quem foi porta-voz) e o seu apoiante (a quem pediu para fazer campanha), José Sócrates envergonhava a democracia.

Na Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina herda a equipa de António Costa. Daquilo que herdou pouco resta. Uns porque foram para o Governo – caso do Duarte Cordeiro –, outros por razões pouco esclarecidas – como é o caso de Manuel Salgado (que saiu de vereador, mas que continua a trabalhar com Fernando Medina). A equipa que permanece é pouco mais do que um pano velho remendado. Entre saídas e entradas já vai nos suplentes da lista e áreas há que não estão sequer atribuídas. Por exemplo a do Desporto, num ano em que Lisboa é a capital europeia do desporto (alguém sabia?). Fernando Medina não fez equipa. Não se lhe conhece um número dois, não se sabe em quem se apoia para além da TVI e de Manuel Salgado (este em segredo).

Em termos políticos, Fernando Medina não suscita grandes emoções nem a favor nem contra. Como não suscitam habitualmente as sombras. Era considerado o mais que provável candidato vencedor nas próximas eleições de Lisboa, porque sim. Como sucede com aqueles sonos prolongados que nos arrastam sem que saibamos porque não lhes queremos resistir.

Os sobressaltos recentes, porém, podem ter o efeito de nos acordar desta preguiça.

Sim, o caso da gestão da festa do Sporting foi paradigmático. Antes Medina fazia a festa. A coisa correu mal e Medina não existe, nem tinha de existir. A falta de planeamento elementar – claro que seria possível e desejável festejar, mas com ordem e organização – teve e está a ter consequências desastrosas, ao nível da saúde e da economia, para a cidade e para o país. Medina, sim, é responsável e, sim, temos em Portugal de nos habituar a exigir responsabilidades a quem as tem.

O caso da informação dos manifestantes russos é também revelador. Em 24 horas, o presidente da Câmara tem três intervenções e tenta ‘matar’ o assunto. Primeiro, diz em comunicado escrito que os procedimentos foram alterados em Abril. No dia seguinte, à hora de almoço, Medina diz que deu ordem nesse dia (’hoje mesmo’) para alterar o procedimento (deixariam de ser notificadas outras entidades para além da PSP e do MAI), à noite anuncia uma auditoria para avaliar o passado. Sabemos já que pelo meio não disse toda a verdade (a Câmara comunicou com as embaixadas mesmo quando não eram o local das manifestações). Aqui como no caso Sporting, a técnica de adormecimento é sempre a mesma e chama-se auditoria.

O que aconteceu nestes dois casos é muito grave e coloca em perigo de vida de pessoas e a imagem da cidade e de Portugal no mundo. Muitos outros houve e há, mas não tínhamos disponibilidade para os ouvir. Mas ao determo-nos nestes perguntamos: e Medina?

Quando olhamos para trás – para a carreira, para o mandato, para a personalidade política – percebemos que Fernando Medina pode bem estar de saída, desde logo porque nunca entrou muito. E quem não entra muito, está sempre um pouco de fora. Com casos desta gravidade, a porta está aberta.