Carta de Wall Street

Ano sabático

A assunção de dívida deve ser sempre bem ponderada para semear um futuro melhor. Um futuro que pague os custos e riscos dessa dívida. Senão estamos a preparar um caminho para crises, falência,
e limite de liberdade e de opções.


por Pedro Ramos

Nova Iorque, junho 2021

Queridas Filhas,

 

Uma das primeiras regras de vida que vos passei foi de evitar assumir dívidas. Cria custos futuros e limita a liberdade de prosseguir novos projetos. Por vezes, assumir dívida é inevitável. Isto aconteceu-me quando vim estudar para os Estados Unidos e não tinha dinheiro para pagar as propinas (que custavam cerca de três anos do meu salário bruto anual na altura). Assim, com a ajuda da universidade assumi uma dívida que paguei o mais depressa que consegui depois de me graduar.

Os estudos foram um bom investimento porque a minha capacidade de vencimento aumentou bastante. A minha carreira acelerou depois da minha graduação. Fui um risco calculado, dado que havia muitos dados objetivos de outros graduados que tinham tido sucesso semelhante ou até melhor!

Antes de qualquer pedido de dívida esta análise tem que ser feita: comparar o cenário sem a dívida e o cenário com a dívida. Só em casos em que a dívida leva a um cenário confortavelmente melhor com alta probabilidade, se deve assumir a dívida. Esta análise é válida para investimentos pessoais e também para investimentos de empresas e outras organizações.

Ironicamente, os governantes raramente fazem este tipo de análise quando pedem emprestado para as suas nações. Imagino que isto se deve à realidade de que quem acabará por pagar a dívida será um governo e até uma geração diferente daquele que a contrai. Os governos mudam frequentemente. As dívidas são renovadas e passadas para gerações futuras. Contudo, os benefícios da despesa e investimentos são desfrutados imediatamente pelo governo e eleitores atuais.

Isto cria incentivos perversos, que se abusados levam a situações catastróficas de países em falência financeira, como vimos na América Latina ou na Europa há cerca de uma década.

Poderá isso acontecer ao meu país? Portugal está a aumentar a sua dívida a um ritmo dramático (ver figura). Mas não se conseguem descortinar os frutos de todo este investimento. A infraestrutura pouco mudou nos últimos 10 anos, e a produtividade por pessoa está a crescer cada vez mais lentamente. Nos últimos 20 anos a nossa dívida aumentou em quase 100% do PIB. Isto corresponde a tirar um ano sabático ou um ano de férias pago pelos nossos financiadores.

Se este investimento não aumentar a produtividade, como vai ser esta dívida paga? Especialmente tendo em conta que a população está a envelhecer e a diminuir. As Nações Unidas projetam que em 2050 a população de Portugal será de 9 milhões e em 2100 de apenas 7 milhões. A população atual de jovens com menos de 15 anos, é metade daquela que era quando eu nasci nos anos 70. Com menos jovens e mais reformados como vão os nossos netos pagar uma dívida maior?

Uma alternativa é aumentar a imigração. Mas isso requer escolhas que atraiam pessoas com talento e suas famílias. Requer ainda que se aceite que a nossa cultura será alterada pelas pessoas que acolhemos. Pelo menos temos que aceitar que a língua de trabalho no setor privado seja o Inglês (tal como fez Singapura por exemplo).

Outra alternativa é acreditar que a UE vai pagar parte da nossa dívida. Sem dúvida tem havido passos nesse sentido nos últimos meses (apoio para fazer frente à covid). Mas isso não depende de nós. E implica ainda a perda de soberania. Ficamos à mercê dos ciclos políticos dos nossos parceiros europeus. Nada impede um novo governante europeu assumir o mandato de reduzir ou mesmo eliminar apoios a Portugal e outros países deficitários.

A assunção de dívida deve ser sempre bem ponderada para semear um futuro melhor. Um futuro que mais que pague os custos e riscos dessa dívida. Senão estamos a preparar um caminho para crises, falência, e limite de liberdade e de opções. Pensem sempre a longo prazo quando assumam dívidas pessoais ou nas vossas empresas. E se o vosso país vos pedir para o servir, tragam essa perspetiva de longo prazo a esse serviço.