Opinião

Ainda temos direito à indignação?

As nomeações de militantes do PS para altos quadros públicos sucedem-se, sem ética nem pudor, prevalecendo o cartão de militante como ‘o’ critério essencial de nomeação e a ‘confiança pessoal’.


Começo a ter dúvidas que ainda possamos ter o direito à indignação. Cada dia que passa, surge uma notícia que nos consegue deixar estupefactos, numa sucessão estonteante de eventos que, levados à letra, nos dizem para nos irmos habituando à nova República Socialista de Portugal, logicamente governada por uma Geringonça.

1. As nomeações de militantes do PS para altos quadros nacionais em estruturas de natureza pública sucedem-se, sem ética nem pudor, prevalecendo o cartão de militante como ‘o’ critério essencial de nomeação e, logo a seguir, a ‘confiança pessoal’. Os critérios de competência profissional surgem a seguir, pressurosamente tudo justificando e os factos ficam consumados.

Os exemplos são diversos, mas até o 25 de abril surge como mais um destes casos. Aquela que deveria ser uma data unificadora dos portugueses por tudo aquilo que representa, foi mais um pretexto para uma nomeação controversa. Primeiro, elege-se uma figura consensual para a maioria dos portugueses, pelo menos daqueles que têm memória de tempos do PREC comunista de 1975: Ramalho Eanes, a presidir às comemorações dos 50 anos em 2024. Depois, a cedência imediata às nomeações de cor PS, desta vez Adão e Silva, para o cargo de organizador-mor das celebrações, qual ministro plenipotenciário, ainda por cima durante cerca de 5,5 anos, ou seja, até dezembro de 2026 (com um séquito de assalariados que todos iremos pagar por igual período).

Quem se revolta e exprime contra este descaramento da nomeação principesca desta insigne figura socialista, rapidamente fica rotulado, no mínimo, de ‘anti 25/4’ – além de ‘reacionário’. Aqueles que como eu, defendem a nomeação de figuras consensuais na sociedade e independentes dos partidos, quiçá também seremos rotulados de ‘anti-partidos’. Uma coisa eu sei: o lugar é apetecível pelo que não faltariam candidatos de ampla consensualidade. Já agora: havia necessidade deste cargo se prolongar por mais 2,5 anos depois da efeméride?

Vamos a outro exemplo, a nomeação de Ana Paula Vitorino para a AMT, paradigmático de como funciona o PS, em ‘círculo fechado’. Um passado ligado a transportes legitima a nomeação, tornando irrelevante as ligações familiares a um ministro e de profunda amizade com diversos outros, sobretudo com o primeiro-ministro. A independência para tutelar enquanto entidade reguladora diversas empresas públicas (e privadas) fica salvaguardada com esta nomeação? Até pode ser que sim, porque o lugar também é feito por quem o faz, mas em qualquer regra de governance esta nomeação era liminarmente ‘chumbada’.

2. Há meses, quando das celebrações dos 100 anos do PCP, Lisboa acordou com as principais avenidas da cidade inundadas das bandeiras do partido, dando claro ar de ‘cidade vermelha’! Qual então a surpresa pela notícia da Câmara Municipal de Lisboa ter transmitido à Embaixada da Rússia os nomes de manifestantes anti-Putin em flagrante violação de liberdades (sem falar do RGPD)? Segundo Medina, uma normalidade resultante de processos administrativos da Câmara que já o teria feito noutros casos, como com Israel, China ou Venezuela e que, ele como Presidente, nunca se deu conta.

Foi confrangedor ouvir Medina em conferência de imprensa, com desculpas esfarrapadas, escudando-se em erros dos serviços, até invocando qualquer lei que não citou. Até parecia que tinha ‘aterrado’ no cargo há escassos dias ou meses, sem nunca ponderar demitir-se, armando-se em vítima de uma campanha política de baixo nível movida pelos seus opositores.

Realmente, dá que pensar. Demissões de governantes, como fez Jorge Coelho ou Leonor Beleza, sabendo assumir responsabilidades políticas? Com este Governo, ‘jamais’ (como diria Mário Lino)! Se há ministros que fazem tanta asneira sem Costa os demitir, porque haveria Medina de ser masoquista? Só porque os partidos de oposição o exigem? Balelas!

Apenas um detalhe: estamos na presença de um caso que frontalmente choca com ‘direitos e liberdades’ que o 25 de Abril nos trouxe. Ora aqui está uma boa razão para Adão e Silva começar o seu cargo com o pé direito, demonstrando ter perfil de ministro de Estado e exigir a demissão de Medina. Ou estarei a ‘sonhar alto’ e aquilo que irei ver um destes dias é qualquer ‘peão’ ser jogado fora, arcando com as culpas? Sinceramente, nem nisso acredito!

 

P.S. – No IPO saíram recentemente 50 profissionais, certamente para o setor privado e por razões que todos imaginamos. Escudada em tiradas grandiloquentes como ‘teriam outros projetos de vida’, Marta Temido entende que só nos resta o caminho de fazer novos recrutamentos, com todos os custos que representa substituir gente experiente por jovens em início de carreira. Perceber como resolver a prazo estes temas para evitar que se repitam, não parece ser prioridade para a ministra. Ficamos a compreender melhor Fernando Araújo, Diretor do H. S. João no Porto, quando refere, com acutilância, os riscos da politização dos cargos públicos em notável entrevista ao DN, cuja leitura considero fundamental para melhor se compreender a importância do planeamento na saúde.