Mente (In)quieta

"E Se?": vamos fazer um exercício?

E se... o comentador Pedro Adão e Silva, na TSF ou na RTP, fosse convidado a comentar o caso de um militante do PSD que tinha sido nomeado por um governo PSD para um tacho semelhante? E se... o mesmo cenário dado a comentar a Pedro Adão e Silva fosse agora oferecido à análise do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista? Será que se ouviria este silêncio ensurdecedor?


por Sofia Aureliano

Semanas há que, quando leio o jornal ou vejo na televisão uma notícia que me deixa de queixo caído – e não têm sido raras as vezes – me assola a pergunta “E se...?”. É um mecanismo inconsciente, qual viés cognitivo, de tal forma automático e recorrente que estou prestes a propô-lo aos entendidos que o classifiquem como heurística consagrada. Que tal a heurística da hipótese? (Perdoem-me os especialistas se estiver a dizer uma grande asneira. Assumo totalmente a ir para fora de pé).

Mas, para o efeito de exercício explanatório, serve. E tem-me ajudado a ver as coisas de forma fresca e lúcida. Pode parecer complexo, mas não é.

Por exemplo: quando ouvi que Pedro Adão e Silva tinha deixado as suas funções de docente universitário para se dedicar em exclusivo à função de comissário executivo das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, bem remunerado e com a possibilidade de criar uma equipa de 12 pessoas, também remuneradas, para aquilo que imagino que designarão, dentro de dias, como a task force ou o grupo de trabalho para “pensar a Liberdade”, saltou-me imediatamente à mente um cenário.

E se… o comentador Pedro Adão e Silva, na TSF ou na RTP, fosse convidado a comentar o caso de um militante do PSD que tinha sido nomeado por um governo PSD para um tacho semelhante? Imaginei-o logo a dizer coisas como “ok, deixou de ser militante do PS, mas e então? De ontem para hoje mudou de ideologia? É o cartão que faz a diferença? Esse já lhe deu acesso VIP a lugar de topo, agora já não precisa dele para nada!”. Juro que não tive de fazer qualquer esforço para o idealizar ruborizado e impaciente, num timbre uns tons acima do normal, a dizer que “isto é um escândalo”.

Concordaria com ele, inevitavelmente. Afinal, pensar a Liberdade deveria representar mais do que comemorá-la com festas e eventos. Em vez de investir numa comitiva dedicada ao ornamento, aos adornos e floreados, será mais importante garantir que, 50 anos depois, a Liberdade existe e persiste, e não se desfaz em “pormenores” que estragam a big picture como as desigualdades sociais ou a elevada percentagem de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza, acautelando antes que se verifica a efetiva igualdade de oportunidades, o acesso universal à saúde, à educação, a um emprego digno, à aplicação de uma justiça célere e legítima, num país com melhores condições de vida. Para todos.

Celebrar a Liberdade sem estar certo de que ela é plena é o mesmo que organizar inaugurações aparatosas de obras ainda não concluídas. Um modus operandi clássico, mas que precisa de mudar. Notem bem: mais do que para cravos, os euros fazem falta para muitas outras coisas.

E se... o mesmo cenário dado a comentar a Pedro Adão e Silva fosse agora oferecido à análise do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista? Será que se ouviria este silêncio ensurdecedor?

Outro exemplo, seguindo a mesma linha de raciocínio.

Esta semana, foi notícia e alvo de estranheza a nomeação da deputada Ana Paula Vitorino para presidente da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes. Digo já que acho profundamente desadequado tanto alarido. A senhora já tinha abdicado de ser ministra do Mar para que o seu marido Eduardo Cabrita pudesse continuar no governo. O ministro da Administração Interna não tem feito sequer por merecer ter ganhado a dança das cadeiras – pelo contrário, já lha deviam ter puxado há vinte asneiras. Por isso, é mais do que justo que a sua mulher, que estava sujeita a uma remuneração de simples deputada, seja agora atualizada para valores que lhe assentam bem melhor e combinam com Yves Saint Laurent ou Cartier: 12 mil euros mensais, mais 4800 euros de despesas de representação. Minudências e em linha com a média dos cargos públicos que o PS costuma distribuir. O que só mostra que se trata de pura embirração.

E se... a deputada, ex-ministra, mulher de atual ministro, nomeada para presidente de uma entidade pública com um salário milionário fosse de um outro governo como, por exemplo, o do anterior PSD / CDS, liderado por Pedro Passos Coelho? Nem uma alma se mexia, seguramente! O PS decerto concordaria. Pedro Nuno Santos seria, aliás, o primeiro a aplaudir a escolha. Afinal, as competências estão lá. O cargo é para presidente da AMT. Se a senhora se mover bem e já tiver andado de transportes está mais do que apta. Logo, o seu a seu dono, qualquer que seja o partido e o mandato. E, tal como o próprio Pedro Nuno diz, “está garantida a independência face aos regulados”. Foi há quanto tempo mesmo que Ana Paula Vitorino saiu do governo?

E a esquerda? Viram-na? Optou seguramente pela oposição muda. Ou isso, ou não resistiu e foi dar um pé de dança, às escondidas, ao arraial liberal. E, como fez voto de silêncio, vingou-se no tiro ao alvo à cabeça do Cabrita. E do Pedro Nuno.

A verdade é que este espírito La Famiglia é coeso, inabalável, chega a ser comovente de tão bonito. Nada os derruba, corra a tinta que correr. Não rolam cabeças, descubram-se as carecas que se descobrirem. Não há ninguém que consiga fazê-los seguir as regras, jogar limpo, cumprir as promessas, prestar contas, pedir desculpas, responsabilizar-se por decisões tomadas ou pela falta de decisões. Nada lhes toca, nada os atinge. Erram sem consequências. Prejudicam sem pudores. Gerem mal o nosso dinheiro e endividam-nos sem nos dar cavaco. Não nos ajudam a reerguer. Veem-nos, inertes, a afundar. Fazem cara séria e falam num tom pesado quando nos dão as más notícias e nos põem em clausura e sorriem quando nos devolvem o que podiam não nos ter tirado, se não fossem negligentes. 

São totalmente impunes. Com a nossa complacência.

E se... estivesse no poder qualquer outro governo, fosse de que partido fosse, a história seria igual? Por certo que não. Teria outro fim. Rezaria assim: “Há muito, muito tempo, o governo falhou e foi responsabilizado. E nós, agora, já podemos viver felizes para sempre”.