Cultura

Vintage: A moda que nunca fica fora de moda

Vinis, câmaras analógicas, polaroids, óculos de sol dos anos 50 e muitos outros elementos que pareciam esquecidos no tempo voltam pouco a pouco à vida diária de vários jovens. No Porto, a ‘cena vintage’ cresce cada vez mais. Mas, afinal, o que leva a preferir o velho ao novo?


Do vinil aos clássicos óculos de aviador, das câmara fotográficas analógicas às cassetes… O velho é o novo, e os meios tradicionais parecem nunca morrer… mas porquê? Por que é que tantos jovens insistem em deslocar-se às lojas físicas para comprar discos ou para revelar rolos fotográficos, quando têm nas pontas dos dedos milhões de canções de todo o mundo, ou quando podem ter, instantaneamente, uma fotografia com grande qualidade?

A LUZ partiu à descoberta deste mundo e seguiu Mariana Cardoso, uma jovem recém-licenciada de 22 anos, que, se um dia acordasse em 1992, não notaria diferenças massivas na sua vida. Desde a cidade do Porto, cumpre a maioria dos seus hobbies com acesso a equipamentos que se tornaram clássicos durante esta época. Para melhor perceber, no entanto, o porquê de uma jovem – que nem sequer era nascida em 1992 – adotar tantos elementos-chave dessa época (e épocas anteriores) nos dias de hoje, a LUZ acompanhou-a durante o seu ‘dia de compras’, num estilo de ‘circuito vintage’ pela cidade a Norte do país.

Vintage pelo ambiente

Mariana é uma ávida utilizadora de vários produtos reutilizados, recondicionados e, por vezes, aproveitados de épocas e temporadas que já só ficam nos registos fotográficos e em vídeo. Falamos de câmaras fotográficas analógicas, vinis e um amor por roupa em segunda mão – chegou ao ponto em que criou a sua própria loja online de vestuário vintage, ou em segunda mão, chamada Caracol.

O facto de se tornar uma peça «única», muitas vezes torna-se apelativo para quem a usa, já que garante algum tipo de «exclusividade». Neste âmbito, há também um aspeto ecológico que tem atraído muitos utilizadores, já que, ao utilizar produtos antigos, muitas vezes estão a reaproveitar-se máquinas, peças de roupa e outros produtos que de outra forma seriam transformados em lixo. 

O gosto pela fotografia analógica explica-se de uma forma muito simples: «Quando fotografo com o telemóvel, tiro sempre muitas fotos iguais, e ficam todas na galeria e nunca mais as vou ver... quando fotografo em analógico tenho a certeza que são momentos muito mais especiais, porque temos poucas fotos, então guardo sempre». Também o efeito visual, e o «nunca saber como vão ficar» é algo interessante, confessa.

Influencers, amigos e, acima de tudo, filmes e séries de época são as grandes influências para as escolhas vintage de Mariana.

Fotografia analógica ganha fãs

Primeira paragem: a loja Máquinas de Outros Tempos (MOT). Situado na baixa portuense, e aberta em 2012, este espaço é uma verdadeira viagem no tempo em termos de máquinas fotográficas e, basicamente, todo o universo em torno da fotografia analógica. Mariana tem alguns rolos para revelar – uma realidade que em 2021 não se justificaria, em princípio, graças aos inúmeros avanços tecnológicos que permitiram o advento da fotografia digital. Pedro Viterbo, dono da MOT, parece, no entanto, discordar. A fotografia analógica guarda um lugar especial na sua vida, tanto que decidiu abrir uma das que, defende, foram as primeiras lojas de artigos vintage na cidade do Porto. Corria o ano de 2012 quando a MOT abriu portas, após quatro anos de experiência de Viterbo a vender velharias, atividade que fazia «para poder pagar a faculdade». Findo o curso, e num momento em que o país se encontrava em plena crise, com poucas oportunidades de emprego na sua área de estudos, o lojista de 34 anos lançou-se de cabeça ao mercado dos produtos vintage e, nomeadamente, à fotografia analógica. Sobre o fascínio do mercado por estes produtos e o aumento do interesse nos mesmos, Viterbo tem várias teorias. «Temos pessoal que começou a ver celebridades mais recentes a utilizar, e que era fashion e tal, e começaram a usar esse tipo de câmaras. Temos pessoal mais revivalista, que tem mais idade e quer comprar aquelas câmaras que quando era mais novo não podia, e temos o profissional que vive de fotografar e faz mais serviços analógicos». Assim divide o lojista os três grupos de clientes que recebe. Clientes estes que, no entanto, têm algo em comum: o amor pela fotografia analógica.

De uma forma geral, o lojista resume aquilo que leva alguns clientes a preferir o analógico ao digital:«Tem a ver com o quererem estar na moda». Nem todos, no entanto, são assim, reitera Viterbo, explicando que muitos fotógrafos preferem esta tecnologia devido aos «tons, ao grão, à cor, e à definição, em que às vezes com o digital não se tem tanta qualidade natural, porque o digital fica às vezes fica muito num tom ‘photoshoppado’».

O regresso do vinil

Findados os trâmites fotográficos, seguimos para a música. Na Tubitek, na praça D. João I, Rui Borges recebe todos os dias clientes de todas as idades, para um ritual que, depois de ter desaparecido quase por completo, faz agora parte da vida de vários jovens: dedilhar vários vinis à procura de uma banda ou álbum em específico. Qual o motor que move o interesse por estes conteúdos ditos ‘antigos’? «A qualidade das gravações atuais, a curiosidade dos teenagers pelo objeto, a herança de familiares e a moda», enumera. «A diferença de qualidade, o querer ter um objeto nosso, o ritual de colocar um disco de vinil a tocar e o glamour das capas» são algumas das razões que, segundo defende Rui Borges, levam a este renovado interesse pelo vinil. Com a crescente popularidade de aplicações como o Spotify, o YouTube ou outras inúmeras plataformas de stream, a escolha musical passou a ser feita com o deslizar do dedo, não pelos discos, mas sim pelo ecrã. Na Tubitek, no entanto, é mesmo através dos diferentes LPs que passam os dedos dos amantes de música e clientes, que, apesar de o vinil ser um meio limitado, com uma quantidade reduzida de canções por disco, prefere apreciar as suas bandas favoritas neste formato. Há até quem já esteja a batalhar pelo regresso da cassete, esse mítico objeto dos anos 80 e 90, que sucedeu o vinil, e que parece ser a próxima ‘next big thing’. Para Rui Borges, no entanto, ainda é cedo para falar nessa revolução. «O regresso já aconteceu, mas a procura é muito residual. São mais usadas neste momento para gravar projetos a apresentar a produtores e editoras, é uma procura profissional ligada à edição», explica, dando conta dos primeiros passos do regresso desta tecnologia à ‘moda’.

Palavra-chave: Exclusividade

Finalmente, e como já se faz tarde, Mariana aponta ao último ponto do seu roteiro: a loja Cet Objet du Désir. Esta loja de roupa em segunda mão e praticamente tudo o que é vintage é o centro do retalho de vestuário alternativo e ‘de época’ na cidade do Porto. Aqui, o estilo não vem diretamente dos dogmas da Portugal Fashion, mas sim de um cuidado em reutilizar e em aproveitar roupa e acessórios, e de dar a oportunidade a quem procura outras formas de se exprimir, mais adequadas à sua personalidade. Ou pelo menos esta é a defesa argumentativa de Cláudia Lopes, dona da loja, amante de tudo o que é retro e vintage, que se orgulha de estar à frente de um dos espaços mais peculiares da cidade. Afinal de contas, onde mais no Porto se encontram roupas e acessórios do século XX, muitos deles originais? «É uma verdadeira curadoria», começa por explicar à LUZ, que resulta em pessoas que «passam só para ver a montra, entram e dão os parabéns». O amor pelo vintage, adianta, começou por influência da irmã mais velha. As visitas frequentes a Londres, onde este nicho de mercado é maior e foi instalado há mais tempo, foram o ponto de partida para o fascínio que levou Cláudia até à frente da Cet Objet du Désir. Nome francês, influência britânica e localização portuguesa, é a Santa Trindade de uma loja que começou através do Facebook, onde Cláudia começou a fazer uma «triagem» das peças e acessórias que trazia das suas viagens a Inglaterra.

Mas afinal, de onde vem este amor e este interesse pelo vintage, e qual foi o ponto de contacto com esse mundo? «Em Londres faziam-se muitas festas de época, onde as pessoas se vestem realmente como se estivessem nos anos 60 ou 70», explica a lojista, que pouco a pouco foi trazendo de volta os itens que encontrava, em feiras ou mercados, e que começou a vender de volta em Portugal. A fama aumentou, a loja teve sucesso e, em 2015, mudou-se para um espaço físico na Rua Rodrigues de Freitas, tendo passado após uns anos para o seu lugar final, frente ao Jardim de São Lázaro, na baixa do Porto. Hoje em dia, infelizmente, graças à crise trazida pela pandemia da covid-19, as portas estão fechadas, e o retalho é feito unicamente online. Ainda assim, há planos para regressar ao espaço físico, «quando tudo normalize e tenha mais segurança», garante Cláudia. 

A sua loja, no entanto, não passa desapercebida no ‘roteiro’ vintage do Porto, e muito menos pelos visitantes estrangeiros que, assegura, «muitas vezes entram só para tirar fotografias à loja». O retalho baseia-se na roupa e nos acessórios de época, muitos dos quais serviram até para produções televisivas e cinematográficas, bem como para decorar e tornar festas de época mais realistas. Ainda assim, Cláudia vende «um pouco de tudo». Sabonetes da Ach Brito, leitores de vinil, material fotográfico analógico, lâminas de barbear... desde que seja vintage, está na loja.

Sobre as razões por detrás do fascínio pelos produtos retro, Cláudia Lopes não tem dúvidas: a exclusividade é a chave. «Tenho peças únicas, feitas à mão, que a pessoa compra e fica contente por saber que não foi feita em massa», começa por explicar, garantindo que muitos clientes recorrem a este nicho do mercado por sentir que estão a comprar produtos únicos, feitos à mão, o que vai também de mãos dadas com uma onda de fascínio pela reciclagem de roupas e acessórios, e por lógicas de desperdício mínimo. Cláudia, que é também amante de fotografia analógica, não deixa esta tecnologia de fora dos fascínios do mundo do vintage, defendendo que esse mundo tem atraído mais pessoas nos últimos anos porque «é mais difícil». «Fotografar assim tem outro tipo de essência. O ter que mandar revelar, ter a fotografia em papel, é uma experiência diferente do que tirar uma fotografia em formato digital, porque com o telemóvel qualquer pessoa tira. É muito mais interessante explorar o lado analógico porque tem mais dificuldades».

Findo o dia, Mariana regressa a casa, coloca um vinil no seu leitor de discos, veste as roupas em segunda mão que comprou durante o dia e dedica-se a fotografar as diferentes combinações com a sua câmara fotográfica analógica, numa viagem no tempo que confundiria qualquer pessoa que aterrasse em 2021 sem qualquer referência. Afinal de contas, ao mesmo tempo que Mariana troca o rolo analógico da sua câmara, tecnologia que perdeu a popularidade no início do milénio, a jovem recém-licenciada comunica-se com os seus amigos através do seu smartphone. É um cruzar de tecnologias e de gerações, em que os meios mais ‘antigos’ não são esquecidos, mas sim reaproveitados, quer seja porque estão ‘na moda’ ou porque têm qualidades que as suas versões modernas perderam.