Cultura

Um claustro do século XXI para a Faculdade Clássica de Lisboa

Já se perdeu a conta aos anos de espera por este momento. Agora, a Faculdade de Letras de Lisboa (FLUL) terá um novo edifício que ocupará o lugar do atual Pavilhão Novo. A construção deverá iniciar-se em dezembro deste ano e as portas abrirão em 2023.


Com as linhas desenhadas por Pardal Monteiro há mais de 60 anos a embelezar a Cidade Universitária, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que tem vindo a renovar os seus espaços ao longo do último ano, pode finalmente garantir que o seu maior projeto dos últimos tempos será realizado. No próximo ano letivo já não haverá aulas no Pavilhão Novo, um edifício pré-fabricado que já não era tão novo assim e que será demolido para dar lugar a uma construção contemporânea.

«Há muito tempo que precisávamos de mais espaço. Tínhamos um edifício pré-fabricado construído nos anos 70 que teria apenas uma utilidade provisória e, por isso, já estava a rebentar pelas costuras, muito degradado. Precisávamos de espaço para mais salas de aulas e, sobretudo, para gabinetes de professores. É exatamente a partir dessa necessidade que surge esta obra. Queremos aumentar o espaço disponível», frisa Miguel Tamen, diretor da faculdade, ao telefone com o Nascer do Sol. 

A ideia já «vem muito lá de trás». E, como muitas vezes acontece em situações idênticas, houve momentos no passado «em que pensámos que ia acontecer, inclusive com projetos licenciados, mas que depois acabaram por não dar em nada», revela o diretor. «Agora percebemos que era a altura ideal e que não podíamos adiar mais». 

A construção do novo edifício 
Segundo o Programa Preliminar (PP), que é visto como o ponto de partida para a materialização do projeto, o novo edifício da Faculdade de Letras (FLUL) ocupará exatamente o mesmo local do edifício a demolir, querendo-se manter a mesma cota de soleira (88.55). Com uma área de construção de cerca de 4 mil e quinhentos m2 e um custo aproximado de cinco milhões de euros, desenvolver-se-á para poente, mantendo-se a proximidade com o atual edifício da Faculdade, o que permitirá o fluxo mais fácil de todos os seus utilizadores.

«O edifício está organizado à volta de um claustro com um jardim e terá dois pisos que serão distintos funcionalmente», esclarece o diretor. No rés do chão ficarão localizadas as várias salas de aula de diferentes tipologias, «umas orientadas para o claustro, outras orientadas para o exterior» e, nos pisos superiores, «ficarão os gabinetes dos professores (com capacidade para cerca de 150 professores) e uma sala de convívio, apoiada por uma pequena copa».

Estes pisos serão ligados por três caixas de escada e um elevador. «O acesso e dimensionamento de todos os espaços foi garantido de forma confortável e segura para atender às necessidades de acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida». 

O desnível existente entre o terreno e a alameda ao longo da fachada poente da FLUL será mantido de forma a proporcionar a criação de um espaço em «anfiteatro» ao ar livre, onde os estudantes «poderão repousar, dissertar e representar».

O programa enumera os principais objetivos que orientam o projeto: «Disciplinar com clareza a distribuição dos espaços por funções; criar um ambiente agradável, contemporâneo, confortável e harmonioso; privilegiar a acústica das salas de aula; controlar ambientalmente todos os espaços; criar um edifício sustentável do ponto de vista energético e, sobretudo, criar um edifício seguro»,. 

No que concerne à instalação sanitária, que em 2020 gerou enorme descontentamento por parte dos alunos (a degradação do edifício estavam a condicionar o acesso a variadas áreas da Faculdade, incluindo às casas de banho), será concebida junto ao hall principal de acesso a todos os pisos. Sendo, por isso, uma área de fácil e rápido acesso a todos os alunos.
 
Estética contemporânea em harmonia com a modernista 
Segundo Miguel Tamen, o novo edifício «é um excelente exemplo de arquitetura contemporânea». O diretor adianta que o projeto foi ganho por um consórcio de arquitetos jovens «que trabalharam em ateliês internacionais importantes e têm todas as preocupações que, hoje em dia, estão muito presentes, nomeadamente a questão da sustentabilidade ambiental». Maria Manuela M. F. Oliveira é a responsável pela coordenação do projeto e Bruno Pereira, Gilberto Pedrosa e Ana Raquel Ferrão são os projetistas.

Apesar da contemporaneidade das linhas, este será um edifício «que dialoga muito bem com o edifício modernista do arquiteto Pardal Monteiro», acrescentou o diretor. É possível então afirmar que o novo edifício será enquadrado nos edifícios já existentes «com uma linguagem arquitetónica contemporânea de feição clássica».

Segundo o Programa Preliminar, «houve uma procura de coerência e unidade formal a partir da projeção de traçados ordenadores ortogonais da composição, onde nas superfícies planas se registam linhas referentes à geometria poética do artista modernista Almada Negreiros». «Uma impressionante e obsessiva abstração visual num jogo estético de uma beleza impressionante que será transposta para a fachada do edifício». O objetivo é «apelar a uma parte dessa memória que é de todos». 

O diretor da FLUL esclarece ainda que haverá «um período considerável em que nem vamos poder usar o edifício antigo, nem o edifício novo». No ano letivo 2021/ 2022, a construção do novo edifício irá obrigar a uma gestão rigorosa das salas de aula disponíveis. «As nossas simulações sugerem que uma ocupação integral do restante espaço será suficiente. Tal implicará, no entanto, uma distribuição muito equilibrada pela mancha horária, nomeadamente nas aulas a partir das 15h30», refere.

As graves carências
Em 2020, com a pandemia da covid-19, a degradação do edifício acentuou-se. Houve alunos a ter aulas nos corredores, no bar e a fazer exames em salas cheias. Na altura, imagens amadoras registadas pelos estudantes mostravam as várias e graves deficiências do edifício: chuva nas salas de aula, barras de ferro a segurar partes do teto, bloqueio do acesso a casas de banho, que obrigava os alunos a deslocarem-se até as Faculdades mais perto, chão dos corredores partidos, janelas partidas e inclusive infestação de ratos e baratas. 

Questionado pelo Nascer do Sol, o diretor afirma que «essas queixas são muito antigas e muitos dos meus antecessores tentaram também resolvê-las». Miguel Tamen reconhece que os alunos sempre estiveram «cobertos de razão». Contudo, não havia nada que pudesse fazer, pois «estes processos não se resolvem por pressão, resolvem-se pelo conjunto de circunstâncias favoráveis que permitem, finalmente, avançar com uma obra». 

A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa é uma unidade orgânica da Universidade de Lisboa dedicada ao ensino das Humanidades, nas áreas de Literaturas, Artes e Culturas, Ciências da Linguagem, História e Filosofia. Foi criada formalmente em 1911, como parte da Universidade de Lisboa criada pelo Governo Provisório da República Portuguesa.

Contudo, a sua origem remonta à fundação do Curso Superior de Letras pelo Rei D. Pedro V, cuja estátua se encontra no jardim em frente ao edifício. Com uma oferta formativa de 17 licenciaturas, 23 mestrados, 19 doutoramentos e oito pós-graduações, a Faculdade alberga 4.500 alunos (+ 2.000 alunos de português língua estrangeira). 

O novo edifício, segundo o diretor, «vai permitir fazer melhor aquilo que já fazemos». «Dar espaços de trabalho a muitas pessoas que cá estão e que trabalhavam em espaços deficientes ou inexistentes e vai trazer novos públicos. Quer públicos internacionais, quer públicos variados que por alguma razão não estão na universidade, ou não estudam Humanidades», remata.