Sociedade

"Não entramos nem saímos sozinhos de um retiro"

O retiro interior que Sílvia criou foi a sua salvação depois da morte da filha de sete anos. Marta Ferreira Gomes organiza retiros de um dia para que esta seja uma hipótese para todos os bolsos. Isabel Castro Pina promove retiros católicos para jovens universitárias. Sonia Massi tornou-se terapeuta holística e quer regressar ao primeiro retiro que a acolheu. Eis o retrato de quatro mulheres que encontraram paz nos seus diferentes lugares solitários.


Num fim de semana, em 2009, Sílvia Batista deixou a filha Gabriela, de sete anos, a dormir em casa do avô. «Era a única pessoa em quem confiava para isso», diz, hoje, com 42 anos, recordando igualmente que combinara com o pai que iria buscar a criança por volta do meio-dia e seguiriam para a praia.

«Foram visitar um amigo a uma quinta ali perto e ele tinha uma piscina que nem sequer estava em condições de ser utilizada. Não estava previsto, a menina não tinha fato de banho, mas caiu na piscina e morreu por afogamento», constata a mãe que considera ter passado por uma fase muito negra. 

«Fui a um psicólogo, à minha médica de família, mas sou uma pessoa mental e espiritualmente forte e nunca aceitei as depressões. Para mim, não fazia sentido. Achava que as pessoas eram fracas de cabeça. Entretanto, passei por essa situação, não a assumi. Hoje, consigo entender», avança Sílvia que «estava, como todas as mães que perdem filhos, à procura de respostas».

«Porquê eu? Porquê comigo?», questionava a mulher, até porque os amigos que lhe eram mais próximos afastaram-se por se sentirem constrangidos, na ótica da progenitora. «Foram anos de reformular a minha vida e a minha própria pessoa. Então, andava por todo o lado, pela psicologia, pela psiquiatria, não dormia, estive internada duas noites em Santa Maria para fazer a cura do sono», afirma, reconhecendo que tal somente acabou quando uma conhecida, «que era muito da onda das energias e do zen», veio ter consigo. 

«Estou a pensar fazer uma regressão», terá dito Sílvia, sendo que a interlocutora ter-lhe-á respondido: «Não faças isso. Vou dar-te um contacto de um centro de meditação que pode ser benéfico para ti». Assim, a mãe de luto dirigiu-se ao centro, aproximadamente quatro meses depois da morte da filha, e achou por bem não falar com ninguém e manter a história privada.

«Não contei aquilo que se passava comigo. Era um género de um retiro. Fui à receção, disse que gostaria de falar com alguém sobre meditação. Devem ter percebido pelo meu aspeto que eu estava arrasada. Entrei para uma sala, onde as pessoas estavam sentadas em colchões, fui fazendo as atividades. Lembro-me que, nas primeiras sessões, chorei.

Descarreguei as emoções», explica a licenciada em Ciências da Comunicação que acabou por fazer unidades curriculares do curso de Psicologia, mas encontrou-se ao estudar psicoterapia sensorial e, atualmente, trabalha, essencialmente, com pais que vivem a mesma situação pela qual passou há 11 anos. 

«Aquilo é muito melhor do que ir ao psicólogo porque, naquela altura, ir à psicóloga era dizer aquilo que ela queria. Fui seguida em Psiquiatria até ao ponto de falar com a psiquiatra, passado uns tempos, e dizer que não fazia sentido estar ali. Tomei medicação durante três meses e parei por minha iniciativa», confessa, apesar de saber que cometeu um erro.

«Fiz mal, porque o corpo estava habituado aos ansiolíticos. Mesmo quando entrava nas urgências, não dizia porquê», avança Sílvia que também apostou na realização do método de medicina alternativa da constelação familiar, baseado na interpretação de papéis por cada participante, criado pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger. 

«É um género de forma teatral. Portanto, cada um de nós escolhia uma personagem. Por exemplo, se tivesse problemas com a minha mãe, escolhia alguém para interpretar o papel dela, e dizia tudo aquilo que tinha a dizer. Havia pessoas que queriam partilhar as coisas menos boas, mas eu ficava calada», refere, adiantando que nunca deixou de falar na filha porque esta continua presente, apenas não o está fisicamente. 

Exatamente por este motivo, sentiu-se mais acolhida por aquela que pode ser definida como uma prática de reflexão e contemplação mental. «Sentia que as pessoas tinham pena de mim, mas eu não queria isso. Por vezes, contava o sucedido e diziam-me: ‘Credo, estou em choque’. Nem toda a gente é igual e reage da mesma forma, mas eu sentia-me inferiorizada, como se fosse uma ‘coitadinha’», desabafa, salientando que, quando ia ao café, entendia que havia quem murmurasse algo como: ‘Olha, está ali aquela que perdeu a filha’.

«No centro de meditação, percebiam que estava a viver uma situação complicada, mas acho que nunca entenderam o motivo. Quando me perguntavam, dizia que não queria partilhar e precisava de tempo», conta. «Comecei com a minha tutora, Margarida Carvalho. Não tenho muito contacto com ela atualmente, mas já tive oportunidade de lhe dizer que foi a chave para eu renascer e voltar a ter vontade de viver», recorda.

No entanto, volvidos cinco anos desde o início do percurso de Sílvia no centro anteriormente referido, contou a Margarida que tinha perdido Gabriela. «O meu retiro foi exatamente ali porque ninguém sabia da minha história», reconhece a mulher que costuma definir o luto materno de modo peculiar. «É como se estivéssemos no fundo de um poço onde vemos a luz lá em cima e, ao longo dos anos, vamos conseguindo subir. Quando acontece algo, por estarmos fragilizadas, tem uma dimensão maior, afeta-nos muito mais, e voltamos a cair».

Ainda que aceite as «recaídas no processo de reestruturação e de restabelecimento psicológico», considera que a meditação foi uma chave para que fosse bem-sucedida nessa jornada. «Por vezes, nos intervalos, alguém vinha dar-me um abraço e eu sentia o apoio do tamanho do mundo. É puro, transmite amor. Naquele retiro, como lhe costumo chamar, todos ouvimos, meditamos e sentimos quem não está bem», esclarece a praticante que, hoje, disponibiliza sessões de meditação singular, em grupo e acompanha quem viveu choques emocionais.

«O meu trabalho baseia-se na cura sensorial. Faço isto pro bono, não é a minha atividade principal», sendo que se dedica às atividades turística e musical a tempo inteiro, tendo já residido na ilha da Madeira e, agora, vive no Algarve.

«Durante 10 anos, tive sonhos em que a minha filha apareceu e mostrava-me um menino. Eu dizia ‘Tu é que és a minha filha’ e corria atrás dela» e, por este motivo, há cerca de três anos, quando descobriu que estava grávida, disse de imediato: «É um menino!». E, de facto, Sílvia é hoje mãe de Dieggo, de dois anos, cujo um dos Gs no nome é uma homenagem à irmã que partiu.

«Uns cinco meses antes de engravidar, sonhei com ela e disse-me ‘Tenho de deixar de vir, agora vou chamar-me Jennifer e não Gabriela’. Como se fosse reencarnar. Não sei se isto é possível, não faço ideia, mas foi a conversa que ela teve comigo. Hoje em dia, olhando para trás, até eu tenho pena daquilo que passei, mas o pequeno retiro que criei foi a minha tábua de salvação», adianta a terapeuta complementar em meditação sensorial que pode ser contactada por meio da página de Facebook Cura Sensorial.

«Acredito que temos todas as respostas de que precisamos dentro de nós» 
Apesar de Sílvia ter criado o seu próprio escape através da técnica que leva ao desenvolvimento de habilidades como a concentração, correspondendo à definição de retiro que, habitualmente, é veiculada nos dicionários – «lugar em que se procura descanso, paz, recolhimento» –, a verdade é que, nas entradas dos mesmos relativas a este vocábulo, também é possível ler que um retiro diz respeito a um «lugar solitário, afastado em relação aos centros urbanos» – e é esta a interpretação mais comum.

«Quando dizemos que há um terapeuta que facilita as sessões, as consultas, é porque somos um veículo facilitador para as pessoas chegarem às suas respostas. Sempre fui muito ligada à espiritualidade e achei que era redutor vivermos neste mundo sozinhos com um universo tão grande. Tudo fez sentido para mim e, com o nascimento da minha filha, comecei a encontrar outras pessoas e a aprofundar os conhecimentos», começa por revelar Marta Ferreira Gomes, de 40 anos.

«Acredito que temos todas as respostas de que precisamos dentro de nós e, quando começamos a ouvir certas coisas… parece uma peça do puzzle que se encaixa. É claro que algumas não fazem sentido, mas só temos de seguir em frente», sugere a mulher que, depois de trabalhar na área da comunicação, realizou cursos de desenvolvimento pessoal e acabou por abrir uma clínica no Barreiro, o Energy Holistic Center, há dois anos.

«Desenvolvi um conjunto de terapias que facilito e é algo que sempre quis fazer: reunir e fazer dos retiros momentos em que as pessoas podem estar desligadas do mundo e completamente concentradas nelas. Não é olharmos para nós como seres únicos, mas sim olhar para dentro e perceber quais são as crenças que nos prendem», conta a facilitadora que, ao organizar um retiro de vários dias, percebeu que nem todas as pessoas tinham possibilidades financeiras para participarem no mesmo.

«A verdade é que eu acho que a vida chega a todos, então, temos de arranjar forma de todos usufruirmos das ferramentas que estão disponíveis» e, por este motivo, criou retiros com a duração de um dia em que promove entre quatro e cinco atividades como os trabalhos individuais, cura ao nível das energias e o equilíbrio dos chakras.

«A pessoa vem de manhã, desliga o telemóvel, fazemos práticas de meditação, cura pela escrita, cura pela cor, partilha. O universo acaba por reunir as pessoas certas à hora certa para que possam falar. Com a experiência dos outros, podemos ver-nos», transmite, realçando que, nesses momentos de recolhimento, o objetivo passa por explorar o desenvolvimento pessoal e espiritual.

«Tem muito a ver com as energias, todos nós as sentimos. Aquilo que eu quero é passar as ferramentas a outros para que possam fazer uso delas no dia a dia, para que consigam evoluir e sentirem-se mais seguros», sublinha a empresária que, neste mês, organizou um retiro de quatro dias que teve lugar numa casa alugada, na Trafaria, em Almada, «com muita natureza à volta, uma grande vista sobre as praias da Costa de Caparica, para haver uma desconexão ao nível dos telemóveis, ver e sentir o mundo».

«Estamos todos muito autómatos, parecemos robôs. E, muitas das vezes, não sentimos aquilo que está ao nosso redor. Precisamos de contacto com o outro, ainda para mais neste tempo de pandemia. Somos seres espirituais a ter uma experiência terrena e esta só se concretiza se estivermos juntos. Sozinhos, não temos experiências», declara Marta que, no último retiro que fez, na Margem Sul, com cinco participantes, instituiu a máxima do trabalho em equipa.

«Temos de nos conectar a nós mesmos, mas também aos outros. O universo juntou cinco pessoas tão diferentes, mas que se completavam e aprendiam umas com as outras. Aprendemos pelo amor e não pela dor que acontece no nosso dia a dia» e, por isto, praticaram meditações passivas – aquelas em que se dá a entrada num estado mental em que o corpo pode restaurar a sua energia e atingir a paz interior – e ativas –  as emoções são libertadas por meio de muitos movimentos do corpo, atividades físicas e expressões verbais – «dinâmicas e muito emocionais».

Naquilo que diz respeito à cura pela escrita, acredita que «quando escrevemos à mão, acionamos uma zona do nosso cérebro a que o nosso ego não consegue chegar, pois temos coisas que o ego recolhe e não nos deixa lembrar para nos poupar à dor». Todavia, «o ego é algo que é muito bom se o utilizarmos bem, pois, nos primórdios, quando vivíamos em tribos, era o nosso instinto de sobrevivência», mas «acontece é que já não precisamos desse modo ativo e utilizamo-lo nesses momentos».

Consequentemente, recordamos situações do passado que achávamos que estavam olvidadas, mas que urgem ser trabalhadas «porque somos a soma daquilo que nos vai acontecendo e das nossas emoções». Neste sentido, tanto a cura pela escrita como as restantes terapias holísticas «trabalham o todo, vão ao detalhe, enquanto a medicina convencional trabalha as consequências» e, assim, «juntas, conseguem tratar o paciente».

Por outro lado, na terapia pela cor, «as pessoas fazem uma viagem porque pedimos que pensem no passado e, depois, fazem um desenho e, com as cores, a posição na folha, etc., percebemos aquilo que a pessoa está a libertar», sendo este «um método muito simples de descontração» que permite que os terapeutas sejam capazes de avaliar aquilo que têm de ser aprofundado. «Ao final de um tempo, peço sempre que queimem o papel e tem a ver com o facto de que, se estamos a falar de energias, acabamos por condensá-las e temos de libertar aquilo que lá colocámos. Não acho que deva ser no imediato, mas sim ao fim de 15 dias, por exemplo». 

Em relação às meditações guiadas, Marta refere que faz um alinhamento, sente a energia do grupo e tenta trabalhar o renascimento, a conexão e aceder a locais que podem dar várias respostas de que todos precisam. Estes não são somente de cariz físico, na medida em que «podem ser vidas passadas, momentos da vida presente... A beleza da meditação guiada é mesmo esta, a diversidade» porque embora se trabalhe com várias energias, os participantes são guiados para o mesmo fim.

«A nível energético, somos como o bater do coração, temos altos e baixos. Se não existissem, estaríamos mortos», refere a mulher que salienta as diferenças que existem entre os dois géneros. «A mulher está muito mais disponível para fazer este trabalho energético, estando a sua energia ligada à lua, ao autoconhecimento», ao passo que «a energia masculina é ligada ao sol, de ação, de acontecer».

Ainda que ambos tenham estas energias e as acionem em circunstâncias distintas, Marta remata que «hoje em dia, começa a ser mais fácil encontrar os homens despertos para este tipo de ações do que anteriormente».

«O retiro dá um grande impulso à vida»
Desempenha funções na Residência Universitária dos Álamos, em Lisboa, e, entre outras atividades – em parceria com a Prelatura do Opus Dei –, organiza retiros espirituais para estudantes do género feminino. «A expressão ‘retiro’ abarca muitos formatos e conceitos, mas penso que, quando nos restringimos ao apartado dos retiros católicos, a principal diferença é a tentativa de encontrar um caminho para Deus», começa por elucidar Isabel Castro Pina, doutorada em História, especialidade História Medieval pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2011), com a dissertação Os Lóios em Portugal: Origens e primórdios da Congregação dos Cónegos Seculares de São João Evangelista. 

«As pessoas afastam-se da família, dos amigos, dos locais de trabalho e de residência, ganham distância, e refletem, tentando estabelecer prioridades, e penso que isto seja comum a todos os retiros. Normalmente, cada um vai carregado de tudo aquilo que tem no coração, mas, num destes retiros, há mais alguém que está interessado e procuramos encontrar, reencontrar ou que está presente na nossa vida e temos de tirar uns dias para estar com ela com mais calma: Deus», avança a investigadora que é membro integrado do Instituto de Estudos Medievais da instituição de Ensino Superior anteriormente mencionada e colaboradora do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. 

«O Papa Francisco gosta muito de dizer que tem de haver ‘um espaço de silêncio para escutar a ternura de Deus’. Há um texto dele, relativamente recente, a exortação Alegrai-vos e Exultai em que menciona precisamente isso: que Deus fala de muitas maneiras – no trabalho, através das outras pessoas, por exemplo –, mas que também é importante encontrar o silêncio para falar com mais calma», acrescenta Isabel, que se dedica às temáticas das fontes e arquivística religiosa, à História institucional, cultural e religiosa e às ordens religiosas na Idade Média.

«No fundo, oramos e, por isso, estes retiros também são designados de retiros de oração ou de rezar. Há tempos de silêncio, mais ou menos completo – durante todo o dia ou em momentos definidos – porque isso realmente faz falta, pois já a Madre Teresa de Calcutá dizia que ‘Deus fala baixinho’», realça, informando, porém, que existem tempos de oração litúrgica, ainda que o trabalho pessoal – através da reflexão e da leitura da Sagrada Escritura – seja privilegiado, ainda que possa ser feito em grupo e com acompanhamento.

Neste sentido, «muitas vezes, há uma presença importante que é um padre, e este faz a orientação espiritual dos participantes que assim o desejem» e, portanto, «também podem ter a oportunidade de reconciliar-se com o passado, algumas feridas e com Deus, recorrendo à confissão, que é uma maneira de colocar um ponto final nestas questões». Tal ocorre porque «há um perdão dos pecados e recordamos aquilo que fizemos, mas que podia ter sido feito de outra maneira».

A distribuição das atividades depende muito do público em questão, mas a dinâmica principal baseia-se na tentativa de que a pessoa que faz o retiro se encontre pessoalmente com Deus e chegue a um diálogo interior e silencioso com o mesmo. «Num evento destes, também se pode fazer uma espécie de balanço e até há retiros em que existe a oportunidade de conversar com outras pessoas, embora me pareça que este género seja mais virado para a relação pessoal com Deus», interpreta aquela que, durante cinco anos, foi colaboradora no projeto CLAUSTRA-Atlas de espiritualidade feminina dos Reinos Peninsulares (1100-1545) do Institut de Recerca en Cultures Medievals da Universidade de Barcelona.

«Há quem estranhe o silêncio, mas temos muitas coisas para falar com alguém que nos compreende, pode ajudar e que nos vai dar aquela segurança. A nossa grande inquietação costuma ser ‘O que é que vai acontecer?’ e sabemos que temos Deus que nos pode auxiliar naquilo que mais nos preocupa e não podemos desperdiçar esse momento», garante a mulher que, na Residência Universitária dos Alámos, contribui para as atividades de formação cultural, humana, de liderança e Teologia das estudantes.

«O Papa diz ‘Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a tua vida’, ou seja, que a nossa vida seja a transmissão de algum aspeto da vida de Jesus, e, num retiro, entendemos as características que temos, a nossa personalidade, as nossas circunstâncias e percebemos a missão da nossa vida», assevera. «O retiro dá um grande impulso à vida - estamos com as costas bem guardadas, apoiados em Deus e essa é uma grande segurança – mesmo que a pessoa se aperceba que se propõe a algo e não consegue cumprir. De qualquer modo, não entramos nem saímos sozinhos de um retiro».

Durante o ano corrente, Isabel já utilizou as instalações da residência para receber as participantes, contudo, habitualmente, são alugados alojamentos – «uma pousada ou um hotel simples» – na periferia de Lisboa, pelo Opus Dei, mas também se dirigem a cidades como Fátima.

«Fico por lá a orientar as pessoas, principalmente, aquelas que nunca fizeram um retiro, mas há quem repita a experiência na medida em que passa por fases diferentes e necessita dessa ajuda», afirma Isabel que, entre os anos de 2001 e 2003, foi membro da equipa de investigação do projeto Guia Histórico das Ordens Religiosas em Portugal: das origens a Trento, um projeto do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.

«Costumamos ser cerca de 30, uma espécie de turma universitária, ainda que estejamos dependentes da lotação do local em que ficaremos. Por outro lado, se formos muitos, parece que não faz sentido porque não haverá espaço para alargarmos a reflexão e estarmos sozinhos», aclara a organizadora que não se considera extremista naquilo que se prende com a utilização das novas tecnologias nestes eventos.

«Por exemplo, se o facto de não ter o telemóvel lhe provoca tanta ansiedade, mais vale que o tenha. Por vezes, há uns ruídos interiores que são mais difíceis de calar do que o telemóvel. Mas afastarmo-nos dele é um exercício interessante mesmo fora do retiro», verifica, assinalando que «a questão é que, durante o mesmo, é bom não estarmos tão focados em aspetos exteriores porque conseguimos reunir as nossas forças e usá-las para falar com Deus».

«Há quem me pergunte se faz sentido fazer retiros para rezar atualmente. Acho que faz porque as pessoas têm necessidade de Deus e não se apercebem disso. O Papa fala «na experiência da ternura e do amor de Deus» e, com ela, conseguimos ter uma paz mais duradoura. Por vezes, é preciso vencer uma certa inércia ou resistência porque parece que nunca temos tempo», no entanto, Isabel vê a quarentena como uma «boa lição porque achávamos que não podíamos prescindir de determinadas coisas e, de repente, tivemos de fazê-lo» e, portanto, «se calhar, podemos dedicar um tempo a encontrar o nosso caminho para Deus».

«Trazer essa paz para o nosso quotidiano é um desafio e, por isso, há uma parte mais concreta do retiro em que explicamos que «aquele banho de imersão» não deixa de ser positivo, mas é como encher o depósito e não vai durar para a viagem completa», refere, aconselhando que se sejam traçadas estratégias – há quem decida passar a frequentar igreja x ou ler o Evangelho todos os domingos, exemplificando – «para preservar essa ligação e, de alguma maneira, repor a paz conquistada».

«Entendi melhor quem sou»
Em 2017, Sonia Massi, hoje com 35 anos, fez um retiro de três dias na Casa dos Sonhos, em Mação. «Ensinavam a Astrologia do Ki das 9 estrelas, uma das mais antigas do mundo, e também a identificar os nossos números e a perceber um pouco mais sobre nós. Através da nossa data de nascimento, percebemos qual é o nosso elemento» e, com o Chi Kung, «davam-nos ferramentas de técnicas e terapias que nos ajudassem para podermos, por exemplo, lidar com as dores». 

«Já tinha pensado em inscrever-me e houve uma altura em que a coisa deu-se. Havia uma vaga e eu pensei: ‘É agora’. Senti que necessitava de uma orientação, fluiu», avança, acrescentando que «estamos tão concentrados nos outros que, por vezes, não percebemos que os nossos bloqueios vêm de dentro».

Aquelas 72 horas permitiram que Sonia se encontrasse e somente não repetiu a experiência porque tem uma filha bebé e não se quer ausentar, necessitando de a amamentar. No entanto, os ensinamentos obtidos, a curiosidade e a pesquisa conduziram-na a experimentar  o yoga – termo que significa controlar, unir e tem origem no sânscrito, uma língua presente na Índia, em especial na religião hinduísta –, terapias ao nível emocional, óleos essenciais – líquidos altamente concentrados extraídos de plantas, usados na aromaterapia – que a ajudam fisicamente e outros métodos com os quais se vai cruzando.

«Senti-me conectada comigo e também com a natureza – parece que nos enraíza –, não tão focada em terceiros, até porque aprendi que eles transmitiam-me ou refletiam aquilo que eu precisava de ver cá dentro», constata a mulher que, quando se apercebe de que está «menos conectada», realiza sessões de meditação guiada presencialmente ou via videochamada. Quando se sente bem, fá-la sozinha.

«Sou terapeuta holística», diz, indicando que trata problemas e doenças a partir de uma visão global, pois a terapia holística difere de outras áreas terapêuticas por concretizar uma análise da pessoa como um todo». 

«Estou a criar um centro, o Ser Essência, em Massamá. estamos a apontar abrir em julho, mas não tenho a certeza. Temos vários terapeutas de yoga, vamos trabalhar muito com mulheres e crianças, círculos de mulheres, coaching intuitivo» – neste processo, o coach (espécie de tutor) aplica variadas ferramentas para que o coachee (cliente) entre em contacto com o seu estado atual real e entenda quais são as suas limitações, mas também as metas a alcançar e, juntos, trabalham o autoconhecimento e o auto desenvolvimento –, « leituras da aura e apoiaremos um projeto social».