Opiniao

As ideologias e as causas

António Damásio, quando menciona que a natureza criou o instrumento da racionalidade não apenas por cima do instrumento de regulação biológica, mas também a partir dele e com ele...


Por Alexandre Faria

Escritor, advogado e presidente do Estoril Praia

A dicotomia entre as ideologias e as causas tem marcado o panorama político, impulsionada pela necessidade discursiva face à aproximação de atos eleitorais ou pela afirmação de estilos distintos, mas esconde, porém, uma diferenciação mais profunda, escondida nos legados sociológicos ou até filosóficos, estando implícita na eterna dúvida entre a razão e a emoção.

Se é certo que a prática política pretende responder aos principais problemas das pessoas e das suas comunidades, também temos assistido a uma desertificação progressiva do campo ideológico, sendo substituído paulatinamente por estados de espírito momentâneos de valores, que necessitam de ser prolongados na sua coerência ao longo dos tempos.
Recuperando as noções de António Damásio, quando menciona que a natureza criou o instrumento da racionalidade não apenas por cima do instrumento de regulação biológica, mas também a partir dele e com ele, o papel fundamental das emoções e dos sentimentos no comportamento social e, por consequência, nos comportamentos ético e político, assume uma importância decisiva neste nosso mundo global.

Causas como as alterações climáticas, o combate à destruição ambiental, o direito à cultura, à eliminação das diferenças entre o litoral e o interior num território ou a defesa dos direitos das minorias permitem, pelos seus sentimentos inerentes, garantir o que realmente importa na nossa vida comum, em detrimento do individualismo que prolifera de um modo acelerado e assustador. Porém, à perceção afetiva dessa vertente emocional, ao impulso neuronal que nos deve mover como seres humanos para sermos diferentes, deve juntar-se o equilíbrio racional e ideológico na tomada de decisão, capaz de conferir a sabedoria da inteligência emocional em prol da comunidade onde nos inserimos.

Pessoalmente, a minha causa é Cascais e as relações globais conexas que nos devem inspirar, elevada pela motivação das emoções acima descritas, responsáveis por nos tornarem únicos. Alimentada, contudo, por uma fórmula persistente de simbiose com a razão, tendo como alicerces as ideologias capazes de conferir uma imprescindível sustentabilidade e estabilidade temporais.

Tal como deverá suceder nos momentos mais importantes da nossa vida, as melhores respostas devem estar adaptadas a esta necessária harmonia entre a paixão entusiasmante que nos deve mover ao ponto de mudar o futuro e o discernimento de um sistema teórico de princípios, numa ponderação extensível, politicamente, ao compromisso entre causas e ideologias.